A Retomada do Cinema Brasileiro viu surgir uma nova geração de diretores pernambucanos com impacto de influenciar e referenciar a produção nacional fora do eixo Rio-São Paulo. Lírio Ferreira abriu as portas em 1997 com o já clássico “Baile Perfumado”. Ao som do mangue beat, o sertão chegou à tela em um filme ágil, de pegada pop com todas as suas virtudes, mas, também sua dura realidade. 

Sete anos depois, Lírio voltou ao sertão para uma viagem ainda mais transgressora com “Árido Movie”, hoje, uma produção cult com seu nicho de fãs. Agora, passados 15 anos, passagens pelo documentário e um drama rodado na paradisíaca Fernando de Noronha com “Sangue Azul, o diretor retorna ao longa estrelado por Guilherme Weber. 

Quem espera uma continuação tradicional de “Árido Movie”, porém, ainda não captou o cinema de Lírio Ferreira. Como diz nesta entrevista, “Acqua Movie” busca ser uma sequência espiritual em que o afeto ganha a dianteira como um instrumento de revolução ao delicado momento do sertão e do país como um todo. 

Confira abaixo a entrevista completa de Lírio Ferreira ao Cine Set 

Cine Set – Em que momento você decidiu voltar para o universo de “Árido Movie”? Foi durante a realização do primeiro filme ou isso foi amadurecendo com o tempo? 

Lírio Ferreira – O “Árido Movie” é um filme que eu tenho um carinho muito grande. Foi um momento muito marcante na minha vida; considero que é um longa que está envelhecendo muito bem. Tem muitas memórias minhas, muitas camadas, mas, não pensava em revisitá-lo. Mas aí, uma vez, há uns dez anos, estava adentrando pelo sertão, indo a um festival de cinema na cidade de Triunfo (interior de Pernambuco) ao lado de amigos no mesmo espírito daquele Opala dos personagens do Selton (Mello), Mariana (Lima) e do Gustavo (Falcão). Amigos, felicidade, fumaceira danada, o próprio carro, Graciliano Ramos e tudo mais. 

Nesta viagem, cruzei pela primeira vez com as obras de transposição do Rio São Francisco e eu tive um alumbramento. Notei que alguma porta do “Árido Movie” se abriu e não saiu da minha cabeça, tive um impulso. Não era nenhuma pretensão, mas, uma provocação seguir a história, afinal, “Árido Movie” ganhou uma certa áurea cult muito mais do que foi um sucesso comercial retumbante.  

Mesmo assim, fui em frente, escrevi alguns tratamentos e, com a entrada de Paulo Caldas e de Marcelo Gomes (ambos roteiristas de “Acqua Movie” ao lado de Lírio), o filme foi dando uma virada para deixar de ser uma continuação mais cartesiana para uma extensão mais kardecista, mais espiritual. Sair da sequência lógica da relação direta de causa e consequência, mas, mantendo o espírito, a alma dos personagens ali, independente se fosse o mesmo ator ou mesmo o nome. 

Isso também fazendo através de outros elementos: enquanto o “Árido Movie” é mais seco, tem mais a ver com terra, “Acqua Movie” traz uma pegada mais de afeto. Por conta disso, o foco do filme atual muda, saindo do Jonas (Guilherme Weber) e indo para a Duda (Alessandra Negrini) e assume uma veia mais dramática, enquanto o anterior tinha um caráter de viagem mais solitária. 

Cine Set – Nos 15 anos que separam os lançamentos de “Árido Movie” e “Acqua Movie”, você lançou dois documentários – “Cartola – Música para os Olhos” e “O Homem que Engarrafava as Nuvens” – e a ficção “Sangue Azul”, além da minissérie “Fim do Mundo”. Gostaria de saber de você o que mais mudou no processo criativo e na própria condução no set entre os dois projetos e o que você sente que guarda mais forte do Lírio de “Árido”. 

Lírio Ferreira – A diferença é que agora eu estou usando óculos de grau e a barba está pintada de branco (risos). Desde “Baile Perfumado”, busco manter a inquietude como dito na última fras do filme – “os inquietos vão mudar o mundo”. É um estado de espírito que tento preservar ainda que seja difícil. 

O tempo para mim passa de uma maneira completamente diferente do tempo do sertão, elemento central de “Baile Perfumado”, “Árido Movie” e “Acqua Movie”. É um tempo oculto que dá a sensação de que as coisas não estão mudando, mas, estão. Dentro do próprio tempo existe um tempo interno, algo cíclico, como ocorre agora no país em que uma eleição nos fez voltar 40, 50 anos atrás.  

Claro que eu vejo o cinema de uma forma bastante diferente hoje, mas, sempre tentando me tirar da zona de conforto, o que causa uma insegurança, que é natural, inerente aos primeiros trabalhos. Fazer filme em locação, estrada possibilita transitar nesses acasos. Acaba sendo uma maneira de trazer esse sertão tão contraditório, poético e fértil, entre o moderno e o arcaico, ainda que apresente os mesmos problemas e as necessidades de ser apoiado. 

Cine Set – Sobre o elenco: você traz o Guilherme Weber de volta, mas, os demais são diferentes. Houve conversas para alguém mais voltar para a “Acqua Movie”? Como você chegou, por exemplo, até a Alessandra Negrini e Augusto Madeira? 

Lírio Ferreira – No início, seria a continuação da história do Jonas, personagem do Guilherme Weber, porém, depois, foi se transformando nesta coisa kardecista em que fui largando da ideia clássica de continuação. Depois, virou o foco para a Soledad, mas, não seria a Giulia Gam que iria fazer, mudei o nome para Duda. 

Aí, entra a questão do desejo muito grande de trabalhar com a Alessandra e vice-versa. Já a conheço de muito tempo e batemos na trave de trabalhar juntos diversas vezes. Ela é uma grande atriz, uma pessoa muito forte cenicamente, muito inteligente, sensível, além de ter a vivência de defensora das causas indígenas. 

O Antônio Haddad é de uma família de artistas de São Paulo e também conheço faz tempo. Sempre foi muito desbocado, queria ser ator desde pequeno. Aos 6, 7 anos, ele me enquadrou: ‘meu irmão,  não vai me chamar fazer um filme com você não?’. É uma provocação boa. Estes desejos que tínhamos de trabalhar casaram com esse acaso dos personagens certos. 

Já o Augusto Madeira, quando eu fui morar no Rio de Janeiro, o conheci e logo me tornei fã. Como diz o Cláudio Assis, ele é do caralho, do caralho, do caralho. Essa possibilidade dele entrar em “Acqua Movie” foi fantástica. Também tive muita sorte de contar com participações do Sérgio Mamberti, a Marcélia Cartaxo, Cláudio Assis, Edgar Navarro, Aury Porto. Tive muita sorte de neste e nos outros filmes contar com estas pessoas queridas e talentosas que, eu não sei como, acreditam nas minhas bobagens e nos meus truques. 

Sou muito grato e privilegiado, afinal, a gente vai para um lugar inóspito, árido, seco, muito longe da casa de todo mundo para fazer um filme de estrada. Só a força do elenco e da equipe do filme consegue fazer vencer esta etapa.  

Cine Set – “Acqua Movie” pode ser considerado um filme mais emotivo e afetuoso do que “Árido Movie” nas relações entre os personagens, especialmente, neste reencontro turbulento entre mãe e filho. De algum modo as transformações do Nordeste nos últimos anos, a transposição do Rio São Francisco, a chegada da água ao sertão ainda que com todos os problemas históricos da região influiu na forma como você, Marcelo Gomes e Paulo Caldas construíram estas relações? Como vocês pensaram isso? 

Lírio Ferreira –Era uma coisa natural mesmo. Não tinha como não imaginar que, quando colocasse uma mãe e um filho em busca de uma reconstrução do afeto no caos, o filme não iria ter essa pegada. Seria como um rio em seu curso natural. Dentro disso, eu concordo com o que você falou por “Acqua Movie” ser menos seco e mais coletivo nesta reconstrução do afeto.   

A presença da água está em todos os meus filmes desde “Baile Perfumado” passando por “Árido Movie” e, claro, “Sangue Azul”, filmado em Fernando de Noronha. Muitas pessoas ao assistirem essas produções se questionam sobre a água no sertão, na caatinga, mas, vale lembrar que o Lampião, por exemplo, foi encurralado naquela região apenas 15 minutos da beira do Rio São Francisco. 

O “Árido Movie” é um filme sobre excesso de informação e falta d’água, mas se está faltando água, não quer dizer que não tenha água. Se falta é porque existe. Então, no “Acqua Movie”, a água não só vem no título como também se torna um personagem. Ela está presente na morte do pai, na reconstrução do afeto, um caminho de escape, de conforto. Quando eles estão desesperados, os canais de transposição dão uma saída para aquela relação. Logo, a água está presente em vários momentos da dramaturgia. 

Foi muito importante quando eu, Paulo e Marcelo fomos para o sertão, escrever in loco. A gente tentou, de uma certa maneira, trazer todas as camadas que estão no filme: a relação de afeto entre a mãe com o filho, a questão da terra dos povos indígenas, o coronelismo, o confronto do arcaico com o moderno, a visibilidade a essas nações indígenas. Geralmente, as pessoas acreditam que as nações só existem na Amazônia ou no Xingu, mas, tem várias delas no Rio Grande do Sul, no Nordeste, etc. A ideia era costurar tudo isso de uma maneira que não fosse forçar muito a barra.  

Cine Set – Li uma entrevista sua dizendo que seu cinema é muito de reticências, de espaços que você deixa nas obras, explorando-as novamente em futuros trabalhos. Com isso, o público pode imaginar uma volta sua aos personagens de “Acqua Movie” ou sente que este é um ciclo que se encerra aqui? 

Lírio Ferreira –Dizer que irá se encerrar não posso dizer. Pode até acontecer, mas, eu não vou dizer isso de jeito nenhum. Até porque já falei sobre a terra e a água, logo, ainda tem o ar, o fogo. Quem sabe não sai um ‘air movie’, uma ficção científica bem louca, lisérgica? 

Há essa visão de que o sertão é muito seco, um local inóspito, agressivo. Porém, vejo de maneira diferente: acredito ser um território poético, fértil, abundante no seu povo e na geografia, que nunca seca. História nunca vai faltar.  

Para mim, é o território mais profundo do cinema brasileiro. Não apostaria que eu não voltasse nele. O acaso, o risco e a dúvida são o que me conduzem. 

Cine Set – Pernambuco se tornou referência de políticas públicas e mesmo imagético/narrativo para realizadores do Norte e Nordeste do Brasil. Diante de tantos feitos alcançados por vocês nas últimas décadas e levando em conta também o momento complicado do audiovisual brasileiro, como você observa o atual momento da produção pernambucana? Quais os próximos passos a serem dados?  

Lírio Ferreira –Pernambuco tem uma tradição muito grande no audiovisual desde o início do século passado com o ciclo do Recife, depois, o ciclo do Super 8 nos trabalhos do Geneton Moraes Neto, Jomard Muniz de Britto, entre outros. Em seguida, veio a geração do Paulo Caldas, Cláudio Assim, a minha mesmo e permanece com talentos como Kleber Mendonça Filho, Camilo Cavalcante, Gabriel Mascaro, Renata Pinheiro, Adelina Pontual, Juliano Dornelles, etc. 

Claro que é preciso uma política pública para manter isso. Na época do Eduardo Campos como governador de Pernambucano, conseguimos com que o edital do setor virasse uma lei. Logo, as gerações de cineastas que surgem precisam sempre lutar para a permanência das políticas públicas, que sejam cumpridas. Leis estaduais como essas são as que nos mantêm: em 2021, por exemplo, tivemos o edital. 

Estamos vivendo um momento de terra arrasada junto ao Governo Federal que demonizou os artistas e deseja exterminar a classe artística. Isso apesar do setor empregar um monte de gente, obter resultados significativos e, no caso do audiovisual, ser autofinanciável. Porém, como não o apoiou na eleição, precisa ser exterminada, usando uma linguagem militar. 

Acredito que “Acqua Movie” traz uma chave para este momento que estamos vivendo através da resistência das nações indígenas. Lançar este filme também é um ato de resistência. E no caso específico da dramaturgia do filme, eu observo isso no afeto, uma coisa que que eles não entendem. Vamos precisar muito do afeto para sair deste momento triste, desastroso e sem humanidade que vivemos. 

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