Conhecido por filmes como “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, Marcelo Gomes exibiu “Retrato de um Certo Oriente” pela primeira vez no Brasil. Filme de abertura do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba 2024, a obra se baseia no best-seller do amazonense Milton Hatoum.

“Retrato de um Certo Oriente” se passa em 1949 e acompanha a história de dois irmãos, Emilie e Emir, embarcam em uma viagem rumo ao Brasil em busca de dias melhores ao fugir do Líbano prestes a entrar em guerra. Durante a jornada, Emilie se apaixona por um comerciante muçulmano, Omar. Emir sofre de um ciúme incontrolável e usará suas diferenças religiosas para separá-los. Antes de chegar ao destino final, durante uma briga com Omar, Emir é gravemente ferido em um acidente com arma de fogo. A única opção de Emilie é descer em uma aldeia indígena no meio da floresta para encontrar um curandeiro que o salve. Quando seu irmão se recupera, eles seguem para Manaus, onde Emilie toma uma decisão que levará a consequências trágicas.

Em Curitiba, Marcelo Gomes conversou com o Cine Set em um bate-papo sobre a filmografia do cineasta recifense marcada por personagens com dilemas existencialistas e filmar uma Amazônia longe do idílico.

Cine Set – Você enxerga na sua carreira algum tema com o qual você mais gosta de trabalhar? Tem muita similaridade entre “Retrato de um certo oriente”, “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Era uma vez eu, Verônica”, por exemplo. 

Marcelo Gomes – Primeiro é que tem uma questão: são filmes de personagens. Todos eles. Não é a trama; é o drama interior deles que move o filme. 

Não se pode negar nossa história de vida. Ela se confunde muito com nosso cinema. (Rainer Werner) Fassbinder, por exemplo, a mãe não tinha tempo e mandava ele para a sala de cinema, onde com 10, 12 anos em Munique, via filmes de melodrama dos anos 1940. 

Tenho uma experiência muito singular. Quando decidi fazer cinema, por uma sorte muito grande, ganhei uma bolsa para estudar na Inglaterra. Foi a primeira vez que deixei o Brasil. 

Cine Set – Em que época foi isso? 

Marcelo Gomes – Foi em 1993, 1994. E logo depois eu voltei e comecei a fazer meus curtas aqui no Brasil. 

Sair do Brasil e ir morar no interior da Inglaterra foi muito importante na minha formação existencial. Naquela época não existia internet. O telefone era caríssimo. Eu passava dois ou três meses sem falar com o Brasil. Foi uma imersão profunda num mundo completamente diferente do meu. Sair de Recife para o interior da Inglaterra foi um choque cultural. 

E aí, ao mesmo tempo, começo a escrever ficção numa língua que não é minha. Discutir temas que não eram pertinentes a mim (sobre história de TV e de cinema inglês). 

As referências das pessoas da minha turma eram completamente diferentes. Mas por outro lado, eu tinha um ponto de vista muito diferente e muito singular em relação a eles. Isso marcou muito minha formação enquanto cineasta – e minha formação enquanto ser-humano. Dois anos nesse isolamento. 

Tem a coisa do distanciamento Brechtiano. Quando você volta para o Brasil – o que hoje em dia nem pode ter com a internet -, eu comecei a detectar coisas que eram inerentes a minha cultura que eu não conseguia ver de perto. Foi esse distanciamento que me fez ver esse lugar que eu vivo e entendê-lo melhor. 

E não é à toa que o primeiro filme que eu fiz era sobre o Maracatu. Algo que não se falava antes. E nem tinha aparecido ainda o Chico Science. Mas é um filme que falava desse ritual ancestral na cultura de Pernambuco e sobre esses jovens que gostavam de maracatu e de bandas de rock da Inglaterra. Sobre esse choque cultural que tem tudo a ver eu ter escolhido esse tema. 

Logo depois eu me encontro com meu avô que conta essa história. Que ele conheceu esse alemão no sertão, que era muito diferente dele. Havia muitos embates culturais e existenciais entre os dois. Esse tema me interessa. E esse tema se chama alteridade. 

Cine Set – E são personagens existencialistas no seu cinema. Pensando nos problemas deles. Mas imersos no mundo. 

Marcelo Gomes São personagens que têm esse lado existencialista. Sartre também mexeu muito com a minha cabeça. E acho que tem uma coisa fundamental: são personagens desejantes que buscam algo na vida que não é algo que eles têm naquele momento. 

E isso tem a ver com a viagem que vão fazer. A mudança de vida deles. E desejam uma transformação. Todos eles. Até no documentário são personagens desejantes. Que querem uma vida melhor. Todos eles. 

Outro elemento importante é descobrir caminhos para contar essa história de jeitos diferentes. 

Cine Set – Então tem uma adaptação de linguagem. De estilo. Já ouvi te descreverem como um diretor camaleônico, mas parece uma coisa mais de adaptação. 

Marcelo Gomes É a coisa dos personagens me exigirem isso. 

Personagens que me dizem [por exemplo] um alemão que nunca tinha ido para o sertão. Tinha sempre vivido naquela luz difusa da Alemanha. Então por que não mostrar ele não conseguindo enxergar aquilo direito? 

Tenho muitos parceiros na arte, na fotografia, no figurino que entenderam que a arte, o figurino e a fotografia estão à disposição do drama interno dos personagens. Mas que tem. De uma forma ou de outra. Não expor a beleza ou a geografia do lugar, mas os sentimentos dos personagens. E por isso o ‘Retrato [de um certo oriente]’ é em preto e branco. 

Cine Set – No “Cinema, Aspirinas e Urubus”, os personagens ficam ouvindo pelo rádio as possibilidades de explorar a Amazônia. Esse novo estado. E o personagem de João Miguel tem medo dessa Amazônia. Aquele lugar inexplorado. E essa Amazônia que ele tem medo, que é sedutora, mas assustadora está muito em “Retrato de um certo oriente”. Muito nessa fotografia. 

Marcelo Gomes É por isso que a gente decidiu fazer o filme em PB e mostrar a Amazônia pela primeira vez à noite. E é assustador né. 

Alguém comentou: “eu nunca vi uma Amazônia branca”. A luz nos troncos de árvores brancas. E a profundidade. E o som dos insetos. É quando Emile fala: “eu tenho medo” É esse medo que é expresso no “Aspirinas”. Não transformar a Amazônia num lugar idílico, mas no que é importante para um drama existencial dos personagens. 

Cine Set – O filme tem uma duração curta, passa tão rápido. Indo de um lugar para outro muito rapidamente. Isso reflete um desconhecimento dos personagens no lugar para onde eles estão indo? 

Marcelo Gomes Isso é fundamental para o meu cinema. Essas transmutações geográficas que transformam a personalidade das pessoas. No “Cinema, Aspirinas e Urubus”, o Ranulpho é uma pessoa no início do filme e ele se transforma durante a viagem. Se você nasceu e viveu a vida inteira em um lugar, você leva a memória, a história, a tradição, mas, se uma forma ou de outra, você é afetado por aquela geografia que você está vivendo. E é muito interessante. Muito importante para minha vida e quero investigar mais isso. 

Porque é fundamental para eu fazer filmes sobre coisas que eu quero investigar. Tudo o que já sei completamente eu não quero fazer filmes sobre. 

Cine Set – E que coisas são essas? 

Marcelo Gomes Primeiro o seu espaço geográfico e o seu eu. Você, no seu eu interior, lidando com aquele espaço geográfico. E às vezes um espaço que está em transmutação. Que muda. E com isso você também muda. Como isso afeta você? 

Acho que tem um exemplo importante disso: em “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, há um personagem que está vivendo um drama interno profundo e tem que se relacionar com aquela paisagem e trabalhar com aquela paisagem. 

“Era uma vez eu, Verônica” também traz isso: ela vivia na universidade, então, tem que mudar daquele mundo e ir para o mundo hospitalar. 

Cine Set – Em “Retrato de um Certo Oriente” há o componente religioso também. O filme desfaz ideias conservadoras sobre religião. Em uma cena, onde está todo mundo rezando, um muçulmano faz uma oração em um tapete de palha… 

Marcelo Gomes – Acho muito lindo a cosmologia indígena explicando para as pessoas que temos que conviver na mesma arena. Como se a Terra fosse aquela arena. Porque a gente tem aquele lugar para viver. Ou a gente respeita a religião do outro ou não vai dar certo. 

Cine Set – E isso está no filme. O refúgio. Não tem como se refugiar para um lugar onde não tem ninguém. Não existe começar do zero. 

Marcelo Gomes – Considero isso interessante pelo fato do Emir usar o preconceito religioso para afastar Omar da Emile. Ele se utiliza desse preconceito e se o Omar fosse também católico como ela, ele usaria outro caminho para afastar. Emir se apropria de um preconceito para resolver um problema afetivo e emocional. 

Fala-se muito nos povos e religiões, mas existem guerras e desavenças de religiões diferentes, mas não por conta dos dogmas diferentes, mas por pessoas que querem poder. Se apropriar de coisas. E utilizam a religião como elemento. 

Esse congresso é um exemplo disso. Quer discriminar as religiões afro-brasileiras. E no Oriente Médio é a mesma coisa. As pessoas falam que o conflito é religioso, mas é um conflito sobre poder. 

Cine Set – O conflito entre Israel e Palestina, por exemplo. Sempre existiram judeus e muçulmanos convivendo lá. E o que veio a seguir foi por razões políticas. 

Marcelo Gomes Exato. E é muito curioso. O Milton fala disso. Em 1948, existia a Palestina e lá judeus e muçulmanos conviviam lado a lado. 

Cine Set – Uma última coisa para fechar: o Emir é um personagem muito depressivo e doente. Não conseguindo lidar com um trauma que ele viveu mais intensamente que a irmã. Como a citação que abre o filme “como uma mão transparente acenando pra você”. 

Marcelo Gomes O passado sempre volta. E tudo começa com a memória, que é uma frase que tem também no livro do Milton. Quando pensei em como transpor para o cinema isso, nada melhor do que a fotografia. Porque ela registra momentos da vida que são muito singulares. E ali você vê o antes e o depois da sua vida. Então, ela está ali para restaurar esses momentos e ajudar a seguir a vida apesar dos traumas do passado. A fotografia é uma magia que vai ajudar a domar seus traumas.