Caio Pimenta apresenta os seus favoritos para os Oscars de 2000 e 2001, anos das consagrações de “Beleza Americana” e “Gladiador”.

OSCAR 2000

Beleza Americana

A cerimônia do Oscar 2000 não refletiu nem de longe o brilhantismo do que foi o ano anterior para Hollywood. Se 1999 ecoa ainda hoje com tendências relevantes e filmaços históricos, a Academia optou por caminhos mais tradicionais. Ok, que “Beleza Americana”, uma sátira sobre o american way of life, nem chega a ser o padrão do que costuma ganhar, mas, a lista de finalistas poderia ser muito mais ousada. 

Os meus favoritos nas categorias técnicas apontam caminhos mais fora da caixinha. 

Sem a menor hesitação, eu manteria as quatro estatuetas de “Matrix” Melhores Efeitos Visuais e Sonoros, Montagem e Som. A ficção científica das irmãs Wachowski, aliás, seria muito mais prestigiada com indicações em figurino, roteiro original, direção e, claro, filme. Uma falta de percepção grande da indústria para uma obra tão marcante. 

“A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, o maior filme disparado neste século do Tim Burton, triplicaria suas estatuetas: além de Direção de Arte, levaria também Fotografia e Figurino. Permaneceria com a vitória de “Tudo Sobre Minha Mãe” em Filme de Língua Não-Inglesa e daria o Oscar de Trilha Sonora para “Beleza Americana” por falta de opções melhores. 

Meu Oscar de Melhor Canção Original seria o controverso “Blame Canadá”, de “South Park”, tirando a previsibilidade de mais um Oscar para a Disney. Por fim, “Austin Powers” ficaria com Melhor Maquiagem ainda que se “O Homem Bicentenário” levasse também ficaria justo. 

As categorias principais iniciariam com as conquistas de “O Informante” em Roteiro Adaptado e “Magnólia” em Roteiro Original. Apesar de gostar de “Eleição”, “À Espera de um Milagre” e “O Talentoso Ripley”, a vitória do Michael Mann e Eric Roth seria incontestável na minha visão pela contundência e precisão com que o escândalo da indústria dos cigarros é apresentado a partir da destruição da vida de um homem.  

Já o Paul Thomas Anderson é brilhante na costura de tantas tramas de pessoas destroçadas pela vida sem perder o foco e ainda injetando uma dose de ternura e até esperança. A escolha, entretanto, seria mais apertada porque seria muito tentador consagrar “Quero Ser John Malkovich” e “O Sexto Sentido”. 

A Angelina Jolie, de “Garota, Interrompida”, ficaria com o Oscar de Atriz Coadjuvante em uma corrida equilibrada por nenhuma das candidatas destoar das demais. Não posso dizer o mesmo de Ator Coadjuvante: o Tom Cruise encontra o melhor papel da carreira como o guru sexual traumatizado pela má relação com o pai em “Magnólia”. Somente o monólogo Red Pill sobre domar as mulheres já vale o prêmio. 

Tudo que eu falei sobre “Matrix”, aliás, vale para “Magnólia”: o drama do Paul Thomas ter ficado de fora de Melhor Filme e Direção não faz o menor sentido. Pena não termos 10 indicados na época; com certeza, seria uma das melhores listas de todos os tempos. 

Russell Crowe e Denzel Washington que me perdoem, mas, impossível tirar a vitória do Kevin Spacey em Melhor Ator. O sarcasmo do ator combina com o retrato patético do sujeito em crise de meia idade parecendo um velho babão, frustrado consigo e com os outros. Uma pena que uma carreira tão brilhante tenha sido jogada na lata do lixo por comportamentos inaceitáveis. 

Melhor Atriz, a Juliane Moore é a minha favorita em “Fim de Caso”, um melodrama à moda antiga em que ela carrega uma dor imensurável de não poder seguir com o amor de sua vida. 

o sexto sentido bruce willis

Para honrar um ano fantástico para o cinema, meus escolhidos para Melhor Filme e Direção vêm de uma produção que ninguém esperava absolutamente nada e se revelou uma das grandes surpresas de 1999. M. Night Shyamalan e “O Sexto Sentido” ganhariam os Oscars na minha visão.  

Um resultado que teria forte apoio popular, prestigiando um cineasta talentoso em ascensão, uma dobradinha peculiar, mas, em grande sintonia entre Bruce Willis e Haley Joel Osment e um gênero costumeiramente longe do radar da Academia quando se fala em vitórias. Muito mais marcante do que o manjado Oscar para “Beleza Americana”. 

OSCAR 2001

O Oscar 2001 teve uma seleção menos empolgante de filmes, mas, ainda reservou uma boa seleção. Foi a temporada que marcou o retorno dos grandes épicos com “Gladiador”, a consagração de Steven Soderbergh em dose dupla e um olhar mais atento da Academia para o que acontecia no Oriente. 

Nas categorias técnicas, a maior parte dos vencedores fica mesmo entre os destaques da temporada. 

“Gladiador”, por exemplo, levaria quatro estatuetas: Montagem, Figurino, Direção de Arte e Som. Já “O Tigre e o Dragão”, além de Filme de Língua Não-Inglesa, ficaria com Fotografia e Trilha Sonora.  

As assustadoras e espetaculares ondas que enchiam as telas de cinema em “Mar em Fúria” fariam dele meu vencedor de Efeitos Visuais, superando o épico do Ridley Scott. Já “U-571” ganharia Melhor Edição de Som. Previsível também a conquista de “O Grinch” em Maquiagem por conta da transformação inacreditável do Jim Carrey. E nunca que tiraria a estatueta do Bob Dylan em Canção Original por “Garotos Incríveis”. 

Não mudaria os prêmios de roteiro: adaptado nas mãos de “Traffic” e o Cameron Crowe levando por “Quase Famosos”. Em ambas as categorias, sinto falta de candidatos mais pesados para ameaçar os ganhadores. No máximo, “Billy Elliot” ameaçava em original, mas, o filme mais roqueiro da temporada era bom demais para sair de mãos vazias. 

Falando nele, aliás, eu corrigiria este multiverso insano que deu a estatueta para a Marcia Gay Harden: a Penny Lane da Kate Hudson ilumina a tela toda vez que aparece em “Quase Famosos” a ponto de praticamente ser a protagonista. O Oscar de Atriz Coadjuvante fácil para ela. 

Entre os homens, meu Oscar seria do Albert Finney. Para além de consagrar um ator excelente que chegava à quinta indicação sem ter vencido, o britânico faz uma dobradinha preciosa com a Julia Roberts em que a impetuosidade dela encontra equilíbrio no estilo determinado, mas, comedido dele.  

As atuações principais também sofreriam mudanças completas: super entendo o Oscar da Julia Roberts, a maior estrela de Hollywood na época em um ótimo trabalho, mas, o que a Ellen Burstyn alcança em “Réquiem para um Sonho” simplesmente está em outro nível. Como não tenho problema em premiar atuações vindas de obras pesadonas, diferente da Academia, a veterana teria a segunda estatueta da carreira. 

Russell Crowe também era o astro do momento e protagonista do grande favorito da temporada, logo, ficou meio impossível batê-lo por “Gladiador”. Por outro lado, o Tom Hanks segurar “Náufrago” sozinho ao lado de uma bola de vôlei é coisa que somente gigantes são capazes de fazer. E ainda havia Geoffrey Rush, Ed Harris e Javier Bardem. Que temporada! 

Ang Lee em Melhor Direção e “O Tigre e o Dragão” em Melhor Filme completam meu Oscar 2001. Teríamos a primeira vitória de uma produção não falada em inglês na categoria máxima, o reconhecimento a um diretor excepcional e ainda uma abertura de possibilidades para a Academia de consagrar obras de ação e fantasia, algo pouco feito naquele período.