Caio Pimenta apresenta os seus favoritos para os Oscars de 2002 e 2003, anos das consagrações de “Uma Mente Brilhante” e “Chicago”.

OSCAR 2002

Russel Crowe como John Nash em Uma Mente Brilhante

O Oscar 2002 foi o primeiro da trilogia “O Senhor dos Anéis”. Tivemos a chegada dos musicais ao século XXI com eufórico “Moulin Rouge”. O novato Todd Field ao lado do veterano Robert Altman. E a previsibilidade oferecida por Ron Howard com o ganhador “Uma Mente Brilhante”. 

Se o Oscar dependesse de mim, teríamos resultados diferentes nas categorias principais, mas, nas áreas técnicas, não divergiria tanto assim da Academia. 

“Moulin Rouge” e “A Sociedade do Anel” seriam os maiores vencedores. O musical do Baz Luhrmann dobraria as conquistas que teve, indo a quatro estatuetas com Melhor Montagem, Figurino, Direção de Arte e Som, enquanto o épico do Peter Jackson levaria Trilha Sonora, Efeitos Visuais, Maquiagem e Fotografia. “Pearl Harbor” ganha Efeitos Sonoros, enquanto corrigiria a rota em Melhor Filme de Língua Não-Inglesa para o adorável francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. 

As surpresas começam a partir de agora: “Shrek”, por exemplo, iria muito além da justa estatueta de Melhor Animação. Para mim, o filmaço da Dreamworks Animation também ganharia Roteiro Adaptado, deixando para trás “Uma Mente Brilhante” e “A Sociedade do Anel”. E ainda acharia um jeito de colocá-lo em Melhor Filme. Considero uma sátira ácida e inteligente ao universo dos contos de fadas que estão no nosso imaginário desde a infância ao mesmo tempo que cria uma história e personagens próprios tão fascinantes que você só quer mais. 

Apesar de gostar da vitória de “Gosford Park”, meu favorito em Roteiro Original é “Os Excêntricos Tenembaums”. Vale ressaltar que a categoria ainda tinha “Amnésia” e “Amélie Poulain”, ou seja, nível altíssimo. 

Para compensar o drama do Robert Altman, Melhor Atriz Coadjuvante seria da Maggie Smith, marcando o terceiro Oscar da atriz britânica. Já entre os homens, me rendo novamente a “O Senhor dos Anéis” com Ian McKellen como Gandalf: da entonação de voz aos momentos de maior seriedade e descontração, o veterano é o coração de “A Sociedade do Anel”. 

Já em Ator e Atriz principal não mexeria: o Denzel Washington está hipnótico em “Dia de Treinamento”, um vilão tão bom que ele repetiu diversas vezes o mesmo perfil nas últimas décadas. Apesar da atuação trazer muitos vícios de ‘Oscar bait’ que tanto me incomoda, não consigo trocar a vitória da Halle Berry por tudo o que representou. Isso mesmo pesando meu coração por adorar a Nicole Kidman em “Moulin Rouge”. 

Falando no musical, acho simplesmente inacreditável o que fizeram com o Baz Luhrmann em Melhor Direção. Deixá-lo de fora dos finalistas é daquelas coisas que simplesmente não faz o menor sentido, afinal, a marca do australiano está presente no visual extravagante à narrativa hiper acelerada. Com isso, meu voto fica com o David Lynch, de “Cidade dos Sonhos”. Não apenas seria uma oportunidade única de prestigiar um gênio longe de fazer o estilo da Academia marca a consagração de um trabalho com uma visão única sobre o fascínio do mundo do cinema e o hipnotismo inebriante de Los Angeles.  

Parafraseando um infame editorial, o Oscar 2002 de Melhor Filme seria realmente uma escolha difícil de dois obras-primas que marcaram época: “A Sociedade do Anel” moldou o cinema de fantasia do século XXI, enquanto “Moulin Rouge” apontava caminhos para o musical a partir de uma estética e condução fragmentada e frenética típica dos tempos atuais. No palitinho, escolho Baz Luhrmann, Nicole Kidman, Ewan McGregor e companhia. 

OSCAR 2003

Não é todo dia que uma temporada de premiações pode contar com Martin Scorsese, Steven Spielberg, Roman Polanski, Pedro Almodóvar, Hayao Miyazaki e Peter Jackson. O Oscar 2003 teve este privilégio em uma temporada que começou aparentando uma vitória tranquila para “Gangues de Nova York” e terminou em um duelo pesado entre “O Pianista” e “Chicago”. 

Nas categorias técnicas, dois dos maiores candidatos da temporada dividiram espaço com um cineasta deixado de lado naquele ano. 

“Chicago” ficaria com as estatuetas de Direção de Arte, Montagem e Figurino, enquanto “As Duas Torres” venceria Melhor Som e Efeitos Visuais. Com dois grandes filmes na temporada, o Steven Spielberg precisaria se contentar com “Minority Report” vencendo Efeitos Sonoros e “Prenda-me se For Capaz” em Trilha Sonora. Não seria absurdo, entretanto, caso ambos estivessem em Melhor Filme, Direção e até Ator com o Leonardo DiCaprio. 

Maquiagem iria para “Frida” e Fotografia para “Estrada para Perdição”. Relegados a Animação e Documentário, respectivamente, “A Viagem de Chihiro” e “Tiros em Columbine” venceriam suas categorias e ainda demonstrariam como a Academia perdia a oportunidade de ampliar o espaço para além do óbvio nas categorias principais. 

fale com ela pedro almodovar

Não posso reclamar em absolutamente da Academia nos prêmios de roteiro: certeiros demais com Fale com Ela” nos originais e “O Pianista” em adaptado. Também reforço a vitória da Catherine Zeta Jones em “Chicago”: a Renée Zellweger é simplesmente engolida todas as vezes em que ambas contracenam. O número de abertura e do desespero são absurdos. 

Já em Ator Coadjuvante, o páreo é duro com as presenças do Chris Cooper e Paul Newman, mas, o prêmio ficaria com o Christopher Walken: a idolatria do filho para com o pai move “Prenda-me se for Capaz” e o ator dimensiona bem como aquela ilusão consegue ao mesmo tempo ter um tanto de verdade como de farsa. 

Se eu dei o Oscar 2000 de Melhor Atriz para a Julianne Moore por “Fim de Caso”, impossível não fazer o mesmo com “Longe do Paraíso”, parceria primorosa com o Todd Haynes. Com duas estatuetas já em casa, não haveria a menor necessidade de voltar a vencer pelo fraco “Para Sempre Alice”.  

E quando um sujeito concorre contra Daniel Day-Lewis e Jack Nicholson, vence e você não pode sequer dizer que é um absurdo? Isso é o tamanho do feito do Adrien Brody em “O Pianista” em uma atuação que marcou tanto a vida dele que nunca mais conseguiu se desvencilhar dela. 

Melhor Filme e Direção do Oscar 2003 ficariam com “O Pianista” na minha premiação. Chama atenção que nada do que é mostrado ali não tenhamos visto anteriormente até de modo mais bárbaro em outros dramas sobre o Holocausto, porém, é a maneira quase que natural de como a barbárie se impõe na rotina daquela sociedade que impressiona.  

Construir isso é algo muito difícil, mas, feito com precisão pelo Polanski, provocando a força que a obra tem a partir de um protagonista tomado pelo básico instinto de sobrevivência que é o que restou.  

Obra-prima.