Caio Pimenta apresenta os seus favoritos para os Oscars de 2012 e 2013, anos das consagrações de “O Artista” e “Argo”.

OSCAR 2012

o artista michel hazanavicius

O Oscar 2012 teve o privilégio de trazer quatro filmes de lendas do cinema americano: Terrence Malick, Steven Spielberg, Martin Scorsese e Woody Allen. Curiosamente, a Academia preferiu ficar com o francês Michel Hazanavicius abordando Hollywood. Ironias da vida. 

Iniciando nas categorias técnicas, a homenagem do maior cineasta norte-americano vivo a George Mélies sairia da festa carregada de prêmios. 

Seriam quatro prêmios para “A Invenção de Hugo Cabret”: Montagem, Efeitos Visuais, Direção de Arte e Mixagem de Som. “O Artista” não ficaria tão para trás com conquistas em Figurino e Trilha Sonora. O Emmanuel Lubezki receberia o primeiro Oscar da carreira em Fotografia justo pelo melhor trabalho dele nas telonas no fantástico “A Árvore da Vida”. 

Apesar da forte concorrência de “Albert Nobbs”,  a transformação da Meryl Streep em Margaret Thatcher levaria o fraco “A Dama de Ferro” a ganhar Maquiagem. Edição de Som seria do ótimo “Drive”, enquanto “A Separação” é indiscutível em Filme de Língua Não-Inglesa. Em uma disputa equilibrada, sou mais “Chico e Rita”, homenagem à música latina, em Animação do que “Rango” ou “Gato de Botas”. E sim, seria bairrista fácil fácil para ver Carlinhos Brown e Sérgio Mendes faturarem o Oscar de Canção Original com “Real in Rio”. 

Vejo bastante equilíbrio na categoria de Roteiro Adaptado: cinco ótimos trabalhos, mas, nenhum fabuloso que provoque um distanciamento nítido entre os concorrentes. Por isso, mantenho o resultado da Academia com “Os Descendentes”, mais uma bela história de personagens muito bem desenvolvidos feita pelo Alexander Payne. 

Já em Roteiro Original, é muito tentador premiar o Asghar Farhadi de “A Separação”, um dos melhores trabalhos deste século. Mas, não vou negar que tenho um crush em “Meia-Noite em Paris”: isso não apenas por ser o último grande filme da carreira do Woody Allen, mas, pela leveza e ótimas sacadas, simples, mas, muito eficienteS com as lendas das artes. Não tinha como passar batido na temporada. 

Os prêmios de coadjuvantes seriam mantidos: a Octavia Spencer, além de ser disparada o que Histórias Cruzadas tem de melhor com sua personagem ácida e que não leva desaforo para casa, ainda conta com rivais nada empolgantes. Sobrou fácil. Já o Christopher Plummer não apenas traz o histórico de quem não tinha vencido o Oscar até então como está maravilhoso em “Toda Forma de Amor”. A coragem e o desprendimento para interpretar graciosamente o pai gay do Ewan McGregor roubam a cena totalmente nesta simpática comédia romântica. 

Por mais que seja fã do excelente desempenho do Gary Oldman em “O Espião que Sabia Demais”, acho o Jean Dujardin no papel da vida em “O Artista”. Charme, simpatia, canastrice até se complementam em uma produção que ele encanta o público e carrega o filme em uma parceria muito bem construída ao lado da Bérénice Bejo. Já em Melhor Atriz, entendo o clamor por uma nova vitória da Meryl Streep após três décadas, entretanto, meu voto iria fácil na Rooney Mara. É o desempenho mais assombroso das cinco indicadas e que poderia ser um ponto de virada transformador caso a conquista se concretizasse tamanha a bem-vinda estranheza que provocaria. 

Melhor Direção e Melhor Filme vão, respectivamente, para Terrence Malick e “A Árvore da Vida”. Quem disse que cinema religioso ou com viés filosófico não pode ganhar o Oscar? Considero este uma obra-prima atual, uma produção que se mostra absurdamente ambiciosa ao tratar de temas base da humanidade sobre Deus, quem somos, a criação do Universo. Não há respostas fáceis para nada disso – nem é o objetivo, diga-se -, mas, embarcar no que Malick propõe é fascinante, especialmente, na construção visual e sonora para tudo isso. Arrasador! 

OSCAR 2013

Crítica: Argo, de Ben Affleck
Gosto demais do Ben Affleck: não, não o acho grande diretor, muito menos bom ator, porém, a trajetória dele é uma das mais fascinantes de Hollywood. Os altos e baixos da carreira, a vida pessoal turbulenta, as polêmicas ao longo da vida criam uma figura extremamente humana, forte e vulnerável ao mesmo tempo. Por isso, a conquista de “Argo” me agrada, especialmente, por conta do belo discurso dele ao receber Melhor Filme. 

Porém, no meu Oscar, olhando apenas para os filmes em disputa, os resultados seriam diferentes nas categorias principais, pois, nas áreas técnicas muitos prêmios bateriam. 

As Aventuras de Pi”, por exemplo, manteria as conquistas de Fotografia, Efeitos Visuais e Trilha Sonora. “Os Miseráveis” em Maquiagem e Penteado, “Lincoln” em Direção de Arte, “Argo” em Montagem e “Skyfall” em Edição de Som seriam vitórias sem maiores convicções. Bem diferente da conquista de Adele em Canção Original e do longa de 007 em Mixagem de Som. 

Amor” pode não ser meu preferido do Michael Haneke, mas, era indiscutível em Filme de Língua Não Inglesa. As duas maiores surpresas ficariam em Animação com “Frankenweenie” e Figurino com Espelho, Espelho Meu, fantasia estrelada pela Julia Roberts que tem justamente neste setor sua única coisa memorável. 

amor michael haneke

O prêmio de Roteiro Adaptado novamente longe do ideal com candidatos bons, mas, nada espetaculares. Por isso, premiaria “Argo”, um competente trabalho do Chris Terrio capaz de condensar drama, suspense e pequenas doses de comédia em um equilíbrio preciso para evitar maiores problemas diplomáticos sem perder o contexto histórico. 

Já a turma dos originais só tinha pesos-pesados com Wes Anderson, Haneke e Quentin Tarantino no páreo. Aqui, porém, fico com “A Hora Mais Escura”, do Mark Boal: a coragem de abordar um tema delicado e tabu como a tortura de prisioneiros pelas Forças Armadas dos EUA em meio ao que poderia ser uma obra de exaltação à captura de Osama Bin Laden cria um trabalho complexo e incômodo. Seria uma vitória ousada para a Academia bancar. 

Como o Oscar bait da Anne Hathaway não me convence nada, o Oscar de Atriz Coadjuvante seria para a Helen Hunt, excelente em “As Sessões”. Já em Melhor Atriz, por mais que realmente goste da Jennifer Lawrence em “O Lado Bom da Vida”, a Emmanuelle Riva comove com toda a fragilidade na companhia do Jean-Louis Trintignant. É daqueles resultados que somente o marketing explica. 

Nas categorias masculinas, domínio de “O Mestre”: a dobradinha Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix cria um jogo de tensão permanente em relação aos dois protagonistas destes filmaço do Paul Thomas Anderson. Somente a cena na cadeia era suficiente para as duas estatuetas – e isso mesmo tendo a lenda Daniel Day-Lewis mais uma vez excelente em “Lincoln”. 

Sem a presença da Kathryn Bigelow, Melhor Direção ficaria mesmo com o Ang Lee. O tom fabular trazendo leveza para uma história pesada e o espetáculo visual mostram a capacidade dele em pegar qualquer filme, de qualquer gênero e conseguir extrair ao máximo.  

Por fim, “A Hora Mais Escura” é o meu eleito em Melhor Filme. Atribuo grande parte da conquista a tudo o que citei em Roteiro Adaptado ao ir contracorrente em um período político turbulento norte-americano e ainda a uma temporada de bons candidatos, mas, nada brilhantes. “Indomável Sonhadora”, “Os Miseráveis”, “Lincoln”, “O Lado Bom da Vida” e o próprio “Argo” são filmes comuns, típicos de toda a temporada de premiação, enquanto “Django Livre” passa longe dos melhores do Tarantino.  

A mão pesada do Michael Haneke em certos pontos de “Amor” me fazem ter uma relação bem complicada com o filme, restando apenas “As Aventuras de Pi”, uma obra sim acima da média, mas, que não enxergo todo o status de brilhantismo que acabou conquistando. Por isso, sinto a vitória de “A Hora Mais Escura” como a saída mais ideal.