O cinema do Amazonas está de volta ao Festival de Gramado após 23 anos: “O Barco e o Rio” está selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais. O filme dirigido por Bernardo Ale Abinader  (“Os Monstros” e “A Goteira”) traz Carolinne Nunes e Isabela Catão no elenco. O evento gaúcho será realizado online entre os dias 18 e 26 de setembro deste ano com as exibições dos filmes sendo feitas pelo Canal Brasil e no streaming da emissora. 

A última vez que uma produção do Amazonas participou do Festival de Gramado foi em 1997 com “Bocage – O Triunfo do Amor”: o longa dirigido por Djalma Limongi Batista recebeu o prêmio especial do júri. Antes dele, “Ajuricaba – O Rebelde da Amazônia”, dirigido pelo mineiro Oswaldo Caldeira e rodado em Manaus com produção da então Fundação de Cultura do Estado do Amazonas, foi premiado em 1978 com Melhor Roteiro. 

Além disso, “O Barco e o Rio” é o primeiro filme da Região Norte selecionado desde 2011, quando “Os Ribeirinhos do Rio”, da paraense Jorane Castro, disputou a mostra nacional. O filme amazonense ainda apresenta o feito de ser a primeira produção da Amazônia Legal a participar do Festival de Guadalajara dentro do Talent Coprodution Meeting. A conquista foi obtida após o projeto de transformar o curta em longa-metragem ter vencido os pitchings do Matapi 2020 – Mercado Audiovisual do Norte.

O FILME

“O Barco e o Rio” traz a história de duas irmãs antagônicas que herdam o barco da família. A mais velha e conservadora, Vera (Catão), vê no patrimônio a vida dela, passando os dias transportando mercadorias e passageiros. Já Josi (Nunes) não gosta das restrições da irmã; possui cabeça aberta, mas vê a vida mudar devido a uma gravidez inesperada. A dinâmica da relação entre as duas e a possibilidade de um aborto são os pontos de conflito do curta.

A direção de fotografia fica por conta de Valentina Ricardo, parceira artística de Bernardo e co-fundadora da Fita Crepe Filmes e Artes Cênicas, enquanto Francisco Ricardo está à frente da direção de arte e César Nogueira é o montador.  

Criada em 2015 por Ana Oliveira, Bernardo Ale Abinader e Valentina Ricardo, a Fita Crepe Filmes e Artes Cênicas já produziu três curtas-metragens: “Os Monstros”, “Amém” e “A Goteira”. Por este último projeto, a direção de fotografia de Valentina recebeu menção honrosa no Festival Olhar do Norte 2019. Além do audiovisual, a Fita Crepe promove o ‘Roda na Praça’, espetáculo artístico circense feito em praças públicas no Amazonas. Contemplado pelo Funarte, o projeto já passou por cidades como Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Manacapuru, além de Manaus.

OS DEMAIS SELECIONADOS 

Este ano,  serão 14 títulos de oito estados e Distrito Federal escolhidos entre 428 inscritos: Rio de Janeiro com quatro filmes, São Paulo com três, e Alagoas, Amazonas, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Sul, com um título cada. A Comissão de Seleção foi composta pela crítica de cinema, roteirista e jornalista cultural Lorenna Montenegro, pelo consultor, roteirista e diretor Frederico Pinto, pela diretora e roteirista Juliana Antunes, e pela roteirista, diretora e pesquisadora Rosa Miranda

Sobre o panorama analisado e o trabalho de seleção, Juliana Antunes, comenta, “Importante garantir a realização de um festival tão respeitado quanto o de Gramado. A transmissão pela televisão e por streaming alcança quem não iria ao Festival e isso é muito importante para realizadores que terão o trabalho divulgado em um ano com tão pouca divulgação. Sobre a seleção, a Comissão pensou em uma cartela de filmes que incluísse mulheres, jovens diretoras e diretores, que fosse diversa, com temáticas e realizadores que fugissem da lógica capitalista e heteronormativa. Olhamos também para trás da tela, para um cinema não tão branco e masculino. Claro, analisando sempre o fazer cinematográfico”, avalia.

Os títulos concorrem em dez categorias: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Trilha Musical, Melhor Direção de Arte e Melhor Desenho de Som. Além do disputado Kikito, o Melhor Filme recebe R$ 6.500,00 em dinheiro e os demais R$ 1.000,00 cada.

Veja a lista completa dos indicados:

Atordoado, Eu Permaneço Atento – Rio de Janeiro
15’ – Documentário
Direção: Henrique Amud & Lucas H. Rossi dos Santos
Sinopse: O jornalista Dermi Azevedo nunca parou de lutar pelos direitos humanos e agora, três décadas após o fim da ditadura, assiste ao retorno das práticas daquela época.

Blackout – Rio de Janeiro
18’51’’ – Ficção
Direção: Rossandra Leone
Sinopse: Em um Rio de Janeiro futurista nada parece ter mudado. Abuso de autoridade, violações de direitos, racismo e machismo ainda dão o tom da relação do poder público com a favela. Dessa vez, entretanto, algo parece estar para mudar.

Dominique – Rio de Janeiro
19’ – Documentário
Direção: Tatiana Issa, Guto Barra
Sinopse: Em uma ilha na foz do rio Amazonas, conhecemos Dominique, cuja mãe criou sozinha três filhas transexuais. No caminho para visitar a mãe, Dominique relembra os tempos de prostituição e brutalidade policial que sobreviveu devido ao amor incondicional de sua mãe.

Extratos – São Paulo
8’ – Documentário
Direção: Sinai Sganzerla
Sinopse: Extratos é um curta-metragem com imagens entre o período de 1970 até 1972 nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, Londres, Marrakech, Rabat e a região do deserto do Saara. As imagens foram filmadas por Helena Ignez e Rogério Sganzerla no exílio, nos anos de chumbo.

Inabitável – Pernambuco
19’ – Ficção
Direção: Matheus Farias, Enock Carvalho
Sinopse: O mundo experimenta um fenômeno nunca antes visto. Marilene (Luciana Souza) procura por sua filha Roberta, uma mulher trans que está desaparecida. Enquanto corre contra o tempo, ela descobre uma esperança para o futuro.

Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé – Rio de Janeiro
14’24’’ – Documentário experimental
Direção: Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra
Sinopse: O filme apresenta Joãosinho da Goméa como narrador principal de sua história. Com músicas cantadas por ele, performances provocadoras e arquivos diversos que ressaltam o quanto ele é importante para as religiões de matriz africana. A Rainha Elizabeth II disse que se o candomblé tivesse um rei, esse seria Joãosinho da Goméa, o Rei do Candomblé.

O Barco e o Rio – Amazonas
17’12’’ – Ficção
Direção: Bernardo Ale Abinader
Sinopse: Vera é uma mulher religiosa que cuida de uma embarcação no porto de Manaus. Ela precisa lidar com a irmã Josi com quem diverge em relação a como lidar com o barco e sobre como viver a vida.

4 Bilhões de Infinitos – Minas Gerais
15’ – Ficção
Direção: Marco Antonio Pereira
Sinopse: Brasil. 2020. Após a morte do pai, uma família vive com a energia de casa cortada. Enquanto a mãe trabalha, seus filhos ficam em casa conversando sobre ter esperança.

Receita de Caranguejo – São Paulo
19’45’’- Drama
Direção: Issis Valenzuela
Sinopse: Após a morte do pai, Lari e sua mãe vão passar alguns dias na praia. Elas resolvem cozinhar caranguejos. E os bichos, aos poucos, transformam-se em seres luminosos.

Remoinho – Paraíba
12’27” – Ficção
Direção: Tiago A. Neves
Sinopse: Após um longo período de afastamento, Maria retorna à casa de sua mãe. Ela está decidida sair do remoinho que a fez voltar.

Subsolo – Rio Grande do Sul
8’ – Animação / Comédia
Direção: Erica Maradona e Otto Guerra
Sinopse: Três amigos frequentam diariamente a mesma academia em busca de seus ideais de corpos. Apesar de assíduos, convivem com os frustrantes deslizes que acontecem longe das esteiras, fazendo girar as engrenagens de um ciclo interminável.

Trincheira – Alagoas
14’40” – Ficção
Direção: Paulo Silver
Sinopse: Num aterro de lixo, um garoto observa o imponente muro de um condomínio de luxo. Gabriel usa de sua imaginação para construir seu mundo fantástico.

Você tem olhos tristes – São Paulo
17’50’’- Ficção
Direção: Diogo Leite
Sinopse: Luan trabalha como bikeboy de aplicativo e enfrenta dilemas e preconceitos na sua jornada diária de entregas em uma cidade grande. Sem hesitar, sonha com um futuro melhor.

Wander Vi – Distrito Federal
19’56” – Documentário
Direção: Augusto Borges e Nathalya Brum
Sinopse: Wanderson Vieira é um músico da cidade de Samambaia e nesse curta documentário, nos conta um pouco como concilia seu trabalho noturno e ensaios de dança, com criar sua carreira, lançando seu pseudônimo Wander Vi, para alcançar seu sonho.

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