O que fazer quando um filme que parece implorar pela nossa empatia resulta em um trabalho distante e sem conseguir estabelecer nenhuma conexão com o espectador? Essa foi a minha experiência com “Luz Natural”, primeiro longa do realizador húngaro Dénes Nagy, e que lhe rendeu o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim deste ano. 

Tão frio quanto as imagens da tela, “Luz Natural” é ambientado na Segunda Guerra Mundial. O letreiro de introdução já explica que o foco da obra será na ocupação húngara na União Soviética. A partir daí, acompanhamos István Semetka, um cabo colocado em uma posição de liderança após uma situação inesperada. 

 FRIEZA TRIDIMENSIONAL

É inegável o virtuosismo do trabalho de Nagy e da equipe técnica de “Luz Natural”, que, desde o primeiro segundo, traduz com eficiência a angústia da guerra por meio de elementos visuais, seja a câmera tremida, o filmar a nuca ou os close-ups intensos no protagonista. 

O problema é que o filme fica só nisso. A frieza das paisagens mostradas na tela são, de certa forma, tridimensionais, já que pairam até nos momentos intimistas. Quando o filme abraça o solar, com o momento de respiro de seu protagonista após oito meses em terras soviéticas, a impressão é que sentimos o esforço da produção em nos levar nessa jornada com ele. Ele vai voltar ao que conhece, mas já tão machucado da guerra que provavelmente o lar vai ter a estranheza de uma terra nova ou de um filme que não fica conosco. 

Acaba sendo um trabalho árduo escrever sobre um filme pelo qual você não criou nenhum tipo de ligação, nem negativa e nem positiva. É só um filme que simplesmente… Existe. Em tempos de guerra fria nas redes sociais sobre ver o hollywoodiano “Duna” em casa ou no cinema, me peguei pensando se a experiência com o filme húngaro seria mais imersiva em uma tela maior. 

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