A experiência de cinema idealizada do filme assistido sem qualquer interferência externa passa longe da ideia de fazer uma sessão com uma colagem assim como a que aconteceu na 13ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba. 

Primeiro, um curta-metragem sobre mulheres palestinas da década de 1970. Segundo, um filme noventista pós-moderno metalinguístico com duas jovens libanesas revisitando e repensando o seu país a partir dos filmes dali. 

Mas de alguma forma, esse jeito que eles foram colocados lado a lado. Nos obrigando a olhar para fora da tela. A entender os arredores. A pesquisar e absorver os contextos. Se transforma quase que no único jeito possível de se assistir e absorver completamente essa obra. Um ideal não idealizado 

O primeiro filme. Documental. Lida com a visão de uma jovem Jocelyn Saab sobre as mulheres palestinas refugiadas em seu país. Que traziam o substantivo de luta com um peso de literalidade. Mulheres do exército. Das armas. Da revolução. Retratadas assim, mas sem nunca perder o papel de mãe. De mulher como ser social. De classe. 

Um filme que parece a ponta de um iceberg. A superfície de algo extremamente profundo e complexo. Uma oportunidade de dar voz e espaço para um grupo na melhor das hipóteses exotizado.

Ela tinha algo mais a ser dito? Talvez. Mas o filme é encerrado tão bruscamente quanto a sua experiência na sala de edição. Retirada de lá, Censurada. E o filme guardado. Enterrado por vinte anos. 

O segundo, Era uma vez em Beirute, lida muito com um Líbano mais pulsante, mas por um viés de olhar pra trás. Com duas jovens que passeiam de táxi por uma cidade bombardeada. Entram em um cinema abandonado e, de lá, visitam mundos mais concretos. Os de uma promessa de país com um futuro ainda não destruído pelo imperialismo.

Ainda que a gente perceba. Nesse cinema colorido do passado libanês. Um país que refletia dentro de si uma lógica externa. Filmes libaneses sobre o Líbano. Filmes não libaneses sobre o Líbano. Filmes libaneses sobre a ideia de um Líbano irreal.

O contraste entre um filme e outro denuncia a ideia por trás dessa exibição conjunta. A de um lugar de promessa que nunca conseguiu ser soberano de verdade. De uma nação que não pode nunca ser nação de verdade. Pelo colonialismo, pelo imperialismo. Pela tentativa de criar um estado à força. De construir uma democracia artificial.

Mais além. Essa experiência “não ideal” que esse contraste propõe nos leva a outro ponto. Não nos deixa ignorar outro ruído. O do barulho de guerra e de genocídio que acontece ainda. Do expansionismo regional israelense forçado pelos tentáculos de um capital que não pode deixar o sul do mundo decidir por si o próprio destino. 

(imagine como foi ir ao cinema e viver lá quando esse ruído era o de uma uma guerra civil que durou 16 anos)

Agora – enquanto o filme passou em suas duas sessões e enquanto escrevo e enquanto você lê – Israel continua bombardeando seus vizinhos com todo o suporte ou os olhos fechados das Nações Unidas e dos EUA. E o Líbano ainda é o país de um futuro que nunca chega.