ALERTA: este artigo possui SPOILERS!

Com a estreia de “O Irlandês”, o diretor Martin Scorsese parece encerrar um ciclo de produções sobre a vida dentro da máfia, uma jornada iniciada 1973 com o experimental “Caminhos Perigosos” (1973), primeira parceria dele com Robert De Niro. Desde então, o cineasta produziu o clássico do subgênero “Os Bons Companheiros” (1990), “Cassino” (1995) e “Os Infiltrados” (2006), esse último que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor. Quando se fala em filmes de máfia, Scorsese encabeça a lista dos gênios na arte de nos envolver com obras tão arrebatadoras nas construções de personagens e cenários.

Se “Caminhos Perigosos” nos mostra dois jovens iniciando a vida no crime, em “Os Bons Companheiros” temos um olhar mais pop e glamouroso da máfia; “Cassino” possui narrativa mais realista, brutal e épica, e “Os Infiltrados” mostra a perspectiva policial e a perigosa aproximação entre a lei e o crime.  Por último, melancolia, envelhecimento e as consequências de uma vida dedicada à máfia são os pilares da trama de O “Irlandês”.

Os filmes de máfia de Scorsese se baseiam na tríade lealdade, comprometimento e sacrifícios. Vemos em cena muito sangue, mortes, traições, ameaças e as inconstâncias nas relações de companheirismo. Um jogo de vidas em que, ao final, tudo cai como dominó.

OS MAFIOSOS

Alguns elementos de construção de tramas e personagens da máfia se repetem nas obras de Scorcese. Henry (“Os Bons Companheiros”) e Billy Costigan (“Os Infiltrados”) herdam a personalidade explosiva de Johnny Boy (“Caminhos Perigosos”): o fascínio pelo crime, no caso de Henry, e o gênio agressivo de Billy. Outro paralelo é o triângulo amoroso dos protagonistas: Ginger (Sharon Stone) é o grande amor de Ace (De Niro) em “Cassino”, mas trai o marido com seu melhor amigo, o mafioso Nicky Santoro (Joe Pesci). Em “Os Infiltrados”, a psicóloga Madolyn (Vera Farmiga) é quem se envolve com Billy (Leonardo Di Caprio) e Colin (Matt Damon).

A figura de mentor exercida pelos protagonistas é uma construção também repetida nas obras em questão. Por fim, a narração do filme pelo protagonista é fundamental para o desenvolvimento e aumento do impacto da história em “Os Bons Companheiros”, “Cassino” e “O Irlandês”.

No entanto, é importante dizer que Frank Sheeran, personagem de Robert De Niro em “O Irlandês”, está diferente de todos os protagonistas de De Niro até aqui: é apenas um soldado entregue ao seu ofício: as emoções vêm na sutileza do olhar, no riso amargo. Esqueça Johnny Boy, James ou Ace: na mais nova obra de Scorcese, temos um mafioso contando sua vida sem orgulho.

Frank inicia o filme em uma referência ao final de “Os Bons Companheiros”, no qual Henry fazia uma quebra da quarta parede. O Irlandês começa com Frank contando sua história quase a partir do ponto em que Henry parou. É arrepiante!

Al Pacino está natural na pele de Jimmy Hoffa, presidente de sindicato, personagem superior a tudo que foi visto até hoje nos filmes de Scocese: não suja as mãos e suas estratégias fluem sem que espectador consiga enxergá-lo como vilão. Por sua vez, Russel Bufalino (Joe Pesci) brilha como um coadjuvante mais contido. Diferente dos outros personagens que desempenhou em filmes de Scorcese, aqui, Pesci é político, calculista e rege seus criminosos como um maestro.

Diferente de Henry Hill em Os Bons Companheiros, Frank é um sociopata consumido pela violência, mas não vive uma vida regada a drogas, relacionamento extraconjugal e falas panfletárias ou expositivas. Frank segue a linha família e lealdade ao seu mentor, Russel Bufalino (Joe Pesci) até seus últimos dias.

A grande diferença dos mafiosos de “O Irlandês” em relação aos demais filmes citados aqui está na devoção mantida por Frank Sheeran pelos mafiosos. Ele nunca entrega ninguém, nem diz sentir remorso. Frank é o mafioso mais leal, e também o mais frio de todos. Ao mesmo tempo, carrega uma humanidade pouco vista antes, pois acompanhamos seu envelhecimento solitário, doente. Não há resquício de loucura ou fome de matar. Para Frank, cumprir as ordens de Russel era seu dever. E ele precisa conviver com isso até o fim.

AS MULHERES

Scorsese trata as mulheres em seus filmes de forma ambígua: uma mistura de mulher fatal, esposas de mafiosos ou figuras que “complementam” a história. Em “Caminhos Perigosos”, com Tereza (Amy Robinson), amor de Charlie, o diretor explora o corpo a sexualidade da mulher como forma de humanizar seus personagens. Tereza, assim como a psicóloga Madolyn (Vera Farmiga) de “Os Infiltrado”s, são tratadas como simples artifícios narrativos.

Em “Os Bons Companheiros”, a mulher deixa de ser somente objeto de interesse do mafioso, virando figura participante da máfia. Karen Hill (Lorraine Bracco) conhece e se envolve no trabalho criminoso do marido, além de aceitar suas traições. Ela é narradora junto com Henry e, ao final, nãonutre arrependimentos, apenas lembranças de um passado luxuoso.

Em “Cassino”, Sharon Stone vive a prostituta Ginger McKeena. Ginger divide o protagonismo do filme e ganha força em tela como interesse amoroso de ‘Ace’, mas também por ser uma personagem tão criminosa e manipuladora quanto os mafiosos de Las Vegas. São dela as cenas mais emblemáticas do filme. Scorsese eleva o papel da mulher aqui, deixando de tratá-la como simples espectadora.

Em “O Irlandês”, a esposa de Frank, assim como a de Jimmy Hoffa (Al Pacino) e Russel, são só parte da história. Não há um diálogo significativo entre Frank e a esposa, uma vez que a história é narrada por ele, que nunca viu a família e escolheu a máfia em vez das filhas. A cena em que ele, idoso, olha as fotos e não aparece em nenhuma imagem com a família reflete essas relações. A única vez em que Peggy (Anna Paquin), filha de Frank, fala com o pai, sua pergunta dúbia expõe o quanto Frank não se importou com as mulheres da família.

A VIOLÊNCIA

O ápice da violência da máfia de Scorsese foi alcançado em “Os Bons Companheiros”, e desenvolvido de forma estarrecedora em “Cassino” e “Os Infiltrados”, com cuidadosos planos sanguinários e personagens cruéis.

“Caminhos Perigosos” é o filme menos violento do diretor, com grande preocupação estética e personagens amáveis e cômicos. Os protagonistas Charles (Harvey Keitel) e Johnny Boy (Robert De Niro) são pequenos gângsteres no bairro de Little Italy, em Nova York. Johnny é um jovem problemático, mau caráter, volátil, que deve dinheiro para alguns criminosos do bairro. Charles é político, maduro e estrategista. Aqui, temos apenas o ensaio de violência: brigas, xingamentos e ameaças.

“Os Bons Companheiros”, já em sua cena de abertura, apresenta o quão violento se tornou o mundo mafioso de Scorsese. Henry (Ray Liota), ao lado de seu mentor James Conway (Robert De Niro) e do cruel chefe da máfia Tommy De Vitto (Joe Pesci) matam, mandam matar, explodem carros e se vingam com a mesma facilidade que comungam em jantares luxuosos. Diferente de seu antecessor, o filme não critica a religião, mas explora as questões familiares, relações extraconjugais dos mafiosos e a participação feminina de forma mais densa. É um relato pop da vida na máfia.

A sensação que tenho é que “Cassino” foi um treino de Scorsese para produzir “O Irlandês”, apesar do próprio diretor ter garantido que não faria mais filmes de máfia. “Cassino” não caiu nas graças do povo, mas é um grande filme. Nele, acompanhamos Robert De Niro vivendo Sam ‘Ace’ Rothstein, promovido pela máfia para gerenciar um cassino.

Inescrupuloso, engraçado, volátil, agressivo e traiçoeiro são adjetivos que definem o gângster Nicky Santoro em “Cassino”. Joe Pesci, que havia trabalhado com Scorcese em “Os Bons Companheiros”, dá vida ao personagem. E é como se ele reencarnasse seu personagem anterior e o elevasse ao nível máximo. Além da violência, os personagens vividos por Pesci têm em comum o lado familiar: dedicam-se extremamente ao filho.

Aliás, é característica de todo mafioso de Scorsese: há sempre um ponto de amor. Tal amor é o que da humanidade ao personagem, seja na família, em um amigo ou em uma mulher, todos têm um objeto de afeto.

Aqui, Scorsese abre mão da visão empolgante do crime e mantém seus contextos críticos tão queridos; tem um protagonista charmoso e mata seus mafiosos de um por um. Os belíssimos planos-sequências, a mise-en-scène poderosa e as reviravoltas dentro da narrativa são elementos utilizados pelo diretor, agora não mais para que o público se encante, mas sim chocar com a realidade da máfia em si.

Em “Os Infiltrados”, a crueldade fica a cargo de Frank Costello (Jack Nicholson), livremente inspirado nos personagens de Joe Pesci em “Os Bons Companheiros” e “Cassino”. Scorsese faz referências a Pesci não somente nas cenas de tortura, mas nas expressões de loucura dos personagens. Costello ordena os crimes, mata, tortura, ameaça, mas rege sua vida com base na confiança entre seus subordinados. Costello é carismático sendo, ao mesmo tempo, cômico e inescrupuloso.

Se em “Os Bons Companheiros”, “Cassino” e “Os Infiltrados”, Scorsese escolhe promover a violência desmedida, em “O Irlandês” ela está presente de forma elegante, estética e é o elemento central da história. É fato que em sua mais nova obra-prima, Scorsese tem uma história madura, melancólica e sublime em mãos. É o diretor reavaliando sua visão sobre a vida mafiosa, seu conceito de violência, crueldade. Há um olhar mais realista, letal e triste das consequências de escolher essa vida.

É o desfecho perfeito do que ele começou em 1973.

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