Se Jean-Paul Sartre já dizia que o inferno são os outros, imagina o que ele diria se ele fosse mulher e vivesse no subúrbio do Rio de Janeiro. “Os Últimos Dias de Gilda”, nova minissérie da Globoplay exibida no Festival de Berlim deste ano, dá pungentes contornos a um conto de antagonismo de bairro. Centrada em performance espetacular de Karine Teles (“Bacurau” e “Benzinho”), a produção de ritmo certeiro é feita sob medida para os amantes de maratona de séries.

Gilda (Teles) é uma mulher intensa que divide seu tempo entre a criação de animais, seu terreiro e vários amantes. Quando Ismael (Higor Campagnaro), um candidato da ala religiosa, começa a querer formar um curral eleitoral no bairro, ela entra em rota de colisão com ele e sua esposa Cacilda (Julia Stockler, de “A Vida Invisível”). A partir disso, Gilda se vê na mira do ódio da vizinhança, que vira massa de manobra para um escuso jogo de poder.

O diretor Gustavo Pizzi (“Benzinho”) usa o formato seriado para dar um ritmo preciso à produção, com bastante atenção à estrutura. Assistidos em sequência, os quatro episódios não chegam a somar duas horas – uma duração plausível para um longa-metragem. Porém, o realizador utiliza elementos repetidos e sequenciais como forma de tirar o espectador da zona de conforto.

O trunfo do roteiro, que Pizzi assina juntamente com Teles a partir da peça homônima de Rodrigo de Roure, é transformar uma briga entre vizinhos em uma alegoria para falar de um país que está perdendo seu senso de empatia e fraternidade e de quem lucra com isso. 

INDEPENDÊNCIA FEMININA COMO ATO POLÍTICO


À sua maneira, “Os Últimos Dias de Gilda” transplanta temas similares aos de “A Fita Branca” para o Brasil contemporâneo, pondo o dedo na ferida de como o fomento de campanhas de ódio, intolerância religiosa e radicalização política cria o contexto perfeito para a validação de um governo violentamente sectário.

Com a escalada dos problemas no bairro, uma questão pequena – o apoio ao candidato local – é inflada a ponto de retirar a dignidade, a moralidade e eventualmente o direito de ir e vir dos moradores. Enquanto isso, uma perigosa aliança entre entidades políticas, religiosas e de segurança pública se forma e vai aos poucos dominando a situação.

Infelizmente, essa está longe de ser uma questão exclusiva do Brasil. Em entrevista ao Cine Set, o diretor comentou que membros da imprensa estrangeira têm reconhecido a necessidade de uma figura como Gilda em seus respectivos países. Em meio ao caos, a protagonista se alinha às grandes mulheres guerreiras da história, dotada de um profundo senso de “amor fati“. Sua pequena resistência é para todos e serve como prova de que ser uma mulher independente ainda é um ato político. 

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