Intrigados. É assim que podemos descrever nosso sentimento ao terminar os oito minutos e meio do curta de animação Opera, indicado ao Oscar deste ano nessa categoria. Apostamos fortemente que este é superior aos seus concorrentes e com um alto índice de levar a estatueta. Resolvemos, portanto, tecer algumas considerações e reflexões sobre essa impactante produção.

Dirigido e produzido pelo sul-coreano Erick Oh – que trabalhou por seis anos na Pixar e trabalhou no departamento de animação em sucessos como Divertida Mente (2015) e Procurando Dory (2016) -, Opera é uma reflexão de grande escala sobre o ciclo natural da humanidade e da sua essência. Para criar a obra, o diretor se inspirou em ícones do período do Renascimento, como Michelangelo (e seu mural “Gênesis”) e Boticelli. Oh também estudou como a história vem se repetindo e as principais situações que levam à ambição e a subsequente divisão de classes.

O curta foi feito em um só plano e demorou quatro anos para ser produzido. A equipe contou com 34 profissionais responsáveis pela criação da sequência composta de 24 pequenas estruturas em forma de uma pirâmide, mostrada em uma ação contínua. “Dar vida ao Opera foi como fazer um relógio”, Oh explica, em entrevista ao site Variety. “Cada elemento está delicadamente conectado com o seguinte. Ações e consequências interagem o tempo todo em um tipo de laço contínuo, mostrando o ciclo vicioso da humanidade e da história”.

 DESIGUALDADE EM TRISTE CICLO HARMÔNICO

A animação começa e termina sem absolutamente nenhum diálogo, acompanhada de uma perturbadora trilha sonora. À medida que nossos olhos tentam alcançar (é impossível captar tudo vendo uma vez) a descida da pirâmide, somos atravessados por uma enxurrada de cenas, que retratam lados dos seres humanos que, infelizmente, nos soam bem comuns e familiares.

Erick Oh trata de temas como racismo, terrorismo, tortura, educação, guerra, vida, morte e privilégios – todos interconectados dentro da pirâmide. Em uma dessas estruturas, há prisioneiros que recebem sentenças de morte simplesmente porque são diferentes de alguma maneira (eles têm cabeças coloridas que representam diversidade étnica, política, religiosa, etc). Essa cena retrata claramente todo tipo de discriminação sempre presente em nossas sociedades e culturas. O impacto é, dentre outras coisas, assistir à tantas atrocidades simultaneamente.

 LEVE FIO DE ESPERANÇA

Dualidade é uma marca forte da animação. Isso pode ser observado na diferença das cores de um lado e do outro da pirâmide. O lado esquerdo apresenta tons marrons e avermelhados, relacionados à atividade da mineração e também a do prazer e da luxúria (mostrados nos quadros que ilustram um bordel). Já o lado direito, é de um gélido tom de azul, que representa a indústria da pesca, o trabalho escravo, pessoas enjauladas e sendo tratadas como animais – ou seja, a frieza e a indiferença do ser humano.

Oh também explora o abuso dos recursos naturais através de um peixe gigante que fica do lado direito da tela. Durante o dia, as pessoas comem dele e extraem sua carne para ser comercializada; mas, à noite, quando a guerra domina o cenário, o peixe sai de dentro do lago e come as mesmas pessoas que o estavam devorando antes. “Quis mostrar que a Mãe Natureza está sendo machucada e prejudicada quando passamos dos limites”, diz o diretor. Quanto mais baixa a estrutura da pirâmide, mais a situação piora. As diferenças sociais se agravam e ficam mais evidentes.

Para não dizer que as imagens são totalmente negativas, ou que focam nos aspectos mais sombrios do ser humano, notamos com curiosidade algumas cenas onde sentimos alegria e até mesmo esperança. Uma delas mostra duas pessoas sentadas frente a frente e com linhas emboladas entre elas. Mesmo com dificuldade, um coração sai da boca de uma, contorna o emaranhado e chega até a outra. Seria o esforço do amor para se fazer presente em meio à tanta confusão e desordem?

CONVITE AO COMPORTAMENTO HUMANO

“Opera” é um filme intrigante, bastante realista e profundamente humano. Não é um filme convencional. Extremamente detalhado e complexo, a obra procede como se fosse uma pintura viva, um mural de Michelangelo, feita como se fosse um convite a questionar os mecanismos da nossa sociedade e o comportamento humano ao longo da história. “É um filme atemporal, que foi feito para ser interpretado e comentado de várias maneiras”, acrescenta Oh. Nos envolve por completo. Sentimos uma mistura de raiva, indignação, desespero, alegria e esperança em tão pouco tempo. Mesmo revendo à essa animação brilhante inúmeras vezes, podemos afirmar que ainda assim, há muitos detalhes a serem descobertos nessa pirâmide hierárquica.

São obras assim que nos fazem continuar assistindo a filmes, curtas e documentários, sempre que podemos. Ainda que não estejamos sendo tocados de uma forma tão profunda pela grande maioria dos filmes (presos aos serviços de streamings e distantes das salas de cinema), algo tão singular como “Opera” é que nos faz permanecer ligados e fiéis à Sétima Arte – mesmo com a avalanche infeliz de remakes e continuações que tomam conta de Hollywood há anos.

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