Alguns filmes de terror não têm a menor preocupação em dedicar tempo para construir uma atmosfera, desenvolver personagens ou articular um bom roteiro. A ideia é apenas jogar susto atrás de susto, seja com criaturas demoníacas em cena explorando o horror ou com muito sangue jorrando na tela. O resultado geralmente não é nenhuma obra-prima, mas pode, até certo ponto, tornar-se divertido– a estrutura repetitiva e as mortes bizarras da série Premonição que o digam. O problema é quando nem mesmo isso o filme consegue fazer. É o caso de Ouija – O Jogo dos Espíritos.

Baseado em mais um jogo da Hasbro, Ouija pelo menos tem a seu favor uma premissa melhor para o cinema do que o desastre que foi Battleship – A Batalha dos Mares ou o que eu receio que venha por aí no vindouro filme adaptado de Monopoly (sim, o nosso Banco Imobiliário). Afinal, não é a primeira vez que o famoso jogo de tabuleiro utilizado para entrar em contato com espíritos dá as caras no cinema. Mas, dessa vez, ele é o protagonista de uma história tão sem graça que fica até difícil aturar pouco mais de uma hora e meia de projeção.

Debbie (Shelley Hennig) e Laine (Olivia Cooke, de Bates Motel) são amigas desde a infância, quando uma de suas diversões era brincar com o tal Ouija. Agora adolescente, porém, Debbie quebra uma das regras fundamentais do jogo e brinca sozinha. Por causa disso, ela morre sob a influência de um espírito maligno, em um prólogo interessante e eficiente para o filme. Não convencida do aparente suicídio da amiga, Laine toma a mais sensata decisão: junto com o namorado (Daren Kagasoff) e amigos, tenta entrar em contato com a falecida através do Ouija. Claro que não demora muito para que o grupo também passe a ser perseguido pelo mesmo espírito responsável pela morte de Debbie. E, assim, quanto mais o tempo passa, mais irritante a trama fica.

Filme de terror difícil de meter medo

Um dos maiores problemas de Ouija é que, provavelmente com a intenção de garantir uma classificação indicativa acessível ao grande público (no Brasil, está indicado a maiores de 14 anos, alcançando uma boa parcela), o filme se desvencilha de qualquer tom que pudesse deixar a história mais pesada. Logo, o que se tem é um terror limpinho, que prefere não correr nenhum risco. Uma das primeiras mortes dos incautos adolescentes, por exemplo, envolve uma garota batendo a cabeça na pia do banheiro. E só. Até mesmo a sequência da boca de Amy Smart se abrindo como se não houvesse amanhã em Espelhos do Medo era mais assustadora – e olha que esse é outro filme que não é lá grandes coisas. Os protagonistas adolescentes, aliás, são tão inofensivos que nem mesmo transam loucamente como geralmente os jovens de filmes slasher fazem para justificar suas mortes. Ou você nunca notou que Jason tem sérios problemas com sexo?

Se não há grandes inovações na história, que logo descamba para os clichês de espíritos assombrando uma casa, o longa poderia pelo menos investir melhor no clima de terror ou até mesmo em sequências sanguinolentas que tentassem salvá-lo do tédio. No entanto, a direção limitada do estreante Stiles White, o roteiro pouco inspirado dele mesmo em parceria com Juliet Snowden e as atuações irregulares do grupo de jovens só colaboram para o filme ficar ainda mais sem graça. O que temos são cerca de 90 minutos em que um grupo de adolescentes mais estúpidos do que qualquer personagem de Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado ou Pânico tomam as piores decisões possíveis. Até mesmo o que deveria ser uma virada surpreendente na trama envolvendo o passado dos fantasmas é tão mal trabalhada que se torna risível. Já o clímax do filme é executado com tanta rapidez e falta de vontade quanto o resto, e devo dizer que acho que nunca vi um embate tão pouco atraente com forças do mal. Já vimos bocas costuradas melhores, obrigado.

Na verdade, é tudo tão mal desenvolvido em Ouija que nem faz diferença que os personagens morram. Eu só torcia para que pelo menos eles tivessem a decência de morrer de uma maneira tão criativa e bizarra quanto em Premonição, por exemplo – o primeiro filme me ensinou a nunca brincar com choque térmico em uma caneca e pingar água no monitor do computador ligado. Não precisava ir para o lado de um Jogos Mortais também e apelar para um torture porn de mal gosto, mas um pouquinho mais de ação nunca fez mal a ninguém.

No fim das contas, Ouija dá até uma saudade de filmes de terror adolescentes dos anos 90, porque os faz parecer até melhores do que muitos deles são. Afinal de contas, boa parte deles também tinha outro trunfo: saber rir de si mesmos. Além disso, não precisava ser tudo tão limpinho, chato e inofensivo quanto é em Ouija. Não que isso faça muita diferença para os produtores, claro: o alto lucro da bilheteria arrecadada em contraponto com o baixo orçamento da produção deve ter feito os mandachuvas dos estúdios darem uma risada tão maléfica e exagerada quanto a que Lin Shaye dá em certo momento do filme. Se pegarmos um jogo de Ouija e perguntarmos se haverá sequências, o ponteiro provavelmente vai apontar para o “sim”, sem dúvida nenhuma.

Bom, no mais, ainda estou aguardando que os personagens peguem algumas dicas com os protagonistas deste trailer fake maravilhoso de um filme de terror em que as pessoas realmente tomam decisões sensatas. Porque, convenhamos, ninguém pode ser tão burro assim.