Desde que gravamos “Boto” (Artrupe Produções, 2017), pude fazer trabalhos que me possibilitaram viajar para outros lugares apresentando a produção que fazemos aqui. E é em situações como essas, distante da zona de conforto e rodeado de pessoas que não fazem ideia de como é Manaus, que fica mais fácil perceber, através do contraste com o outro, que características nos diferenciam, desde os hábitos linguísticos, comportamentais, personalidade, etc..

E uma vez que somos capazes de compreender que carregamos fortes características manauaras (seja lá o que isso quer dizer, afinal isso depende do contexto de “que” Manaus você vive), de que maneira isso reverbera nos nossos filmes?

LEIA TAMBÉM: “POR DENTRO DE ENTERRADO NO QUINTAL” – PARTE 1

Antes de assistir ao cinema de Cláudio Assis (“Amarelo Manga” e “A Febre do Rato”), achava que a minha realidade era infilmável, ou que resultaria em filmes que não interessariam a ninguém. Na minha cabeça de 20 anos, filmar a periferia da zona oeste, Nova Esperança e Lírio do Vale, era tentar extrair potencial de onde não havia nada, que só seria possível filmar em lugares com mais atrativos visuais, e com histórias mais edificantes do que as que sempre ouvi que se passavam por aqui. Até hoje nunca vi um filme, ou peça publicitária, filmada no meu bairro.

Desde que gravei meu segundo curta, O Tempo Passa (2016), que acontece na Compensa, a minha relação com Manaus como cenário dos filmes que eu gostaria de fazer foi se modificando. Nos poucos festivais que o filme passou, era nítido o quanto a Compensa chamava a atenção das pessoas, muito mais do que o próprio filme em si. A geografia do local, a arquitetura caótica das casas, os rostos daquelas pessoas, gírias, maneirismos, causos. É vivo, equatorial, quente e úmido.

E preciso dizer que encontrei esse resultado meio que na sorte. Não foi tão consciente. Sabia que a Compensa estava no imaginário coletivo, mas não sabia como era o cheiro, o calor, o olho no olho com aquelas pessoas. Se soubesse disso antes de gravar, teria feito um filme todo em função do lugar, e não da trama que criei.

RESPOSTAS E REFLEXÕES A PARTIR DA NOSSA ORIGEM

Estas reflexões me vieram em fevereiro durante a passagem por Cuba, realizando um breve curso de duas semanas na EICTV [Escuela Internacional de Cine y Television].  Mesmo em curto período, é daquelas experiências que ajudam a modificar coisas na vida. E estando lá, a ideia de um cinema mais político e contundente como ferramenta social, além de cultural, vem de maneira incontornável. Não imposta por eles através da ideologia marxista (cacaca), mas como uma constatação natural dos fatos.

A visão de mundo de qualquer criador é influenciada pela sua realidade, seu contexto social, pela sociedade que convive na cidade onde mora. Muito provavelmente é do lugar de onde viemos que virão as respostas para que entendamos que tipo de arte queremos fazer, e que função ela desempenha.

Fazendo um filme totalmente voltado para o entretenimento, estou fazendo um filme político, porque cumpre uma função na sociedade. Se mostro um personagem tomando um Corote em um puteiro, ou se apresento um casal tomando Champagne numa cobertura de hotel, a minha visão de mundo inevitavelmente vai se somar à abordagem da trama, e com isso direciono politicamente meu trabalho.

Então em Cuba a ideia de Enterrado no Quintal se transformou num dispositivo muito claro. Trazer o conto do Diego para o meu bairro, Lírio do Vale, emprestando as minhas experiências pessoais para o projeto, tendo em vista as questões que o Diego traz no seu texto.

Equipe durante as gravações de “Enterrado no Quintal”, no Lírio do Vale

Foi a primeira vez que adaptei uma obra literária para o cinema, mas sinto que preciso dizer que a visualidade proposta pelo autor fez com que a transição se tornasse muito fácil, na verdade. E isso fica ainda mais natural quando trago o filme para o lugar onde moro, não sendo difícil descrever as ruas por onde a personagem passa, as pessoas que encontra, o cheiro, o calor.

A lição aprendida durante O Tempo Passa não foi esquecida. Não que eu vá fazer agora  o filme que deveria ter feito antes, até porque esse tipo de coisa não se alcança dessa maneira. Gravamos na metade de outubro. Sinto que agora eu sei o potencial que o simples ato de mostrar meu bairro atinge, e contar com a poesia de um autor instigante conduzindo tudo, faz com que eu tenha a impressão de que seremos capazes de nos apropriar da realidade da nossa cidade para fazer um filme que só poderia ser realizado aqui, e por nós.

Brasil na Covid-19 X Filmes de Fim de Mundo: Realidade mais irracional que a Ficção

A realidade é, muitas vezes, mais estranha que a ficção. E a realidade brasileira, então, nem se fala. Neste artigo vou comentar um pouco sobre como o Brasil do Covid-19 se compara com alguns elementos e clichês de filmes de catástrofes e fim do mundo que Hollywood e...

30 Anos de ‘Lua de Cristal’: documentário celebra sucesso estrelado por Xuxa

Em 1990, Xuxa Meneghel estava no auge de sua carreira. A loira mais famosa do Brasil já era recordista em vendagem de discos e seu programa “Xou da Xuxa”, exibido nas manhãs pela TV Globo, rompia barreiras e começava a ganhar repercussão internacional. Se tal fenômeno...

Bond, Cannes, Mercado Brasileiro: o Impacto do Coronavírus no Cinema

O surto de COVID-19, conhecido popularmente como coronavírus, tem deixado o mundo em pânico nestes últimos meses. O alto número de pessoas diagnosticadas com o vírus e o crescente número de mortes só tem alarmado mais ainda a situação. O surto teve início na cidade de...

César 2020 e a vitória de Polanski: triste dia para o cinema da França

https://www.youtube.com/watch?v=PXnNOBj26lk&t=13s A primeira e única vitória de Roman Polanski na categoria de Melhor Direção no Oscar, em 2003, foi recebida em clima de euforia. No anúncio dos indicados, gritos e aplausos mais fortes para o cineasta responsável...

Os 10 maiores ataques do governo Bolsonaro ao cinema do Brasil em 2019

Jair Bolsonaro, de fato, é um fenômeno. Dólar passando dos R$ 4,20. Economia com crescimento pífio. Desemprego na casa de 12,5 milhões de pessoas. Perda da credibilidade internacional do Brasil ao redor do planeta. Parceria com EUA marcada por um lado recebe MUITO...

Os Mafiosos de Martin Scorsese: de ‘Caminhos Perigosos’ a ‘O Irlandês’

ALERTA: este artigo possui SPOILERS! Com a estreia de “O Irlandês”, o diretor Martin Scorsese parece encerrar um ciclo de produções sobre a vida dentro da máfia, uma jornada iniciada 1973 com o experimental “Caminhos Perigosos” (1973), primeira parceria dele com...

O caso James Dean e os limites (ou não) do uso do CGI no cinema

Há algumas semanas foi anunciado que o ícone de Hollywood, James Dean (1931-1955), será revivido via computação gráfica para aparecer no filme Finding Jack, um drama ambientado na Guerra do Vietnã a ser dirigido pela dupla Anton Ernst e Tati Golykh. Bem... Todos nós...

Saudade vira ponto de partida para debate da alienação parental em ‘Tranças’

Saudade é uma palavra interessante e particularmente nossa. O dicionário a define como o sentimento causado pela distância ou ausência, mas só quem a sente compreende o quanto ela dói e é capaz de deixar cicatrizes. A questão é que nem sempre essas marcas são tão...

Por Dentro de ‘Enterrado no Quintal’: de Lars Von Trier à força de Isabela Catão

A sinopse de “Enterrado no Quintal” acabou ficando assim: Isabela, ainda adolescente, enterrou uma arma no quintal de casa como uma maneira de ter em mente uma forma de se vingar do seu padrasto, que agrediu a sua mãe diversas vezes durante a sua infância. Ela...

Por dentro de ‘Enterrado no Quintal’: Cuba para enxergar a zona oeste de Manaus

Desde que gravamos “Boto” (Artrupe Produções, 2017), pude fazer trabalhos que me possibilitaram viajar para outros lugares apresentando a produção que fazemos aqui. E é em situações como essas, distante da zona de conforto e rodeado de pessoas que não fazem ideia de...