A cena acontece em clube-cassino chique em Londres. Uma dama, Slyvia Trench, pergunta a um homem, para quem acaba de perder um jogo de cartas, qual é o seu nome. Impecavelmente vestido, ele acende um cigarro antes de conceder sua resposta: “Bond, James Bond”, diz ele, enquanto seu agora imortal tema toca ao fundo, somente para sumir momentos depois. Um ícone nasceu.

Essa não é a primeira cena de “007 Contra o Satânico Dr. No” (1962), mas é a que estabelece um dos maiores heróis do cinema, aqui interpretado por Sean Connery, como uma força a ser reconhecida: em poucos minutos, sabemos que ele é um exímio jogador, um galanteador de primeira, um homem cuja violência coexiste com um exterior de frieza e elegância. Sabemos seu nome e sua bebida de preferência (“Martini, mexido mas não batido”). Mais adiante, descobrimos sua ocupação e sua arma de confiança.

No final das contas, o legado de “Dr. No” é o que eleva o filme acima dos filmes de espionagem da década de 60 (dos quais ele inspirou vários), basicamente porque, levado estritamente em seus próprios termos, ele é um tanto quanto bobo e explora maniqueísmos um tanto quanto rasos. Claro que era parte da proposta, mas estes são alguns dos fatores que fizeram o filme envelhecer mal quando desconsideramos as bases que ele forneceu para uma franquia que perdura até hoje, 53 anos depois.

O roteiro tem trocentos furos e, mesmo considerando o que viria a ser um “padrão James Bond” de absurdez, não faz sentido em vários momentos (as cenas do herói no covil do vilão que antecedem o encontro dos dois são exemplo claro disso). Além disso, o filme padece de um profundo problema de ritmo: as horas, às vezes, se arrastam e somos deixados constantemente sem um pingo de ação na tela por longos períodos de tempo.

No entanto, o diretor Terrence Young merece louros, não só por entregar uma direção clara e técnica, mas também por ter trazido muito do humor que viraria marca registrada da série (pelo menos, até a fase Daniel Craig).

Sua intenção foi, a priori, prática: ele alegou, em um comentário gravado para uma edição especial em DVD do filme, que queria que o humor tornasse o conteúdo do filme (largamente, sexo e violência) mais palatável e amainasse os censores. Contudo, ele acabou criando uma atmosfera lúdica em torno do agente que predominaria por boa parte da franquia. Diferentemente dos espiões torturados de John le Carré, Bond é quase um bon vivant que gosta de fazer jogos mentais com seus algozes, em aventuras com muitas mulheres e manobras arriscadas.

Para além da tônica, várias tradições, que viraram referência não só para a série, mas para o gênero da espionagem como um todo, surgiram aqui: os esconderijos secretos megalomaníacos dos vilões (feitos com um orçamento mínimo pelo designer de produção Ken Adam), o profundo caráter exótico das locações (o Caribe voltaria a ser visitado pelo agente repetidas vezes em filmes posteriores), a sequência inicial elaborada, bem como a do ponto de vista do cano de uma arma (ambas produtos da mente do artista Maurice Binder), e as estonteantes “Bond girls”.

Não deixa de ser curioso, no entanto, notar que os filmes da série Bond são essencialmente produtos do seu próprio tempo e não foram feitos para, em tese, durar. Eles foram “filmes de verão” de seus respectivos anos. Aqui, todo o sexismo e reducionismo cultural que pautaram os anos 60 aparecem em peso, bem como um ritmo que deixa muito a desejar ao espectador mais afoito dos dias de hoje.

Paradoxalmente, a capacidade de Bond de se moldar a seu tempo foi justamente o que lhe deu uma das maiores longevidades da história do cinema. O filme mais recente da franquia, “007 – Operação Skyfall” (2012), finalmente achou o tom certo da versão de Daniel Craig para o personagem e conferiu ares operáticos à série através de um roteiro super sombrio e cheio de subtextos, condizente com o gosto moderno por heróis sofridos e complexos, anos-luz das aventuras leves protagonizadas por Sean Connery e Roger Moore. Porém, tudo isso começou quando Bond disse seu nome à Slyvia Trench em uma das cenas iniciais de Dr. No. O cinema nunca mais foi o mesmo.

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