As histórias do cinema e da crítica cinematográfica se entrelaçam para além de seu tópico em comum. A segunda teve, em suma, o papel crucial de registrar e cimentar os cânones da primeira. Mais que guiar o consumo de filmes, a crítica os fortaleceu como produto de consumo, obra de arte e enquanto elemento legítimo da cultura moderna. Nesse cenário, alguns críticos se destacaram por suas contribuições, tornando-os referência para quem tem interesse em se aprofundar em aspectos teóricos e práticos do cinema, além de contribuírem diretamente para o entendimento que temos da Sétima Arte hoje. A seguir, o Cine Set lista alguns deles.


10. Iris Barry

Iris Barry é, injustamente, um nome não tão popular entre os fãs de cinema.  Ela escreveu sobre cinema entre os anos 1920 e 1950 em publicações como a Vogue e o Daily Mail (este último, o jornal mais popular da época, o que a fez também uma crítica de grande alcance na época). Foi uma das fundadoras da Film Society em Londres, a primeira curadora da biblioteca de cinema do Museu de Arte Moderna de Nova York, fundadora da Federação Internacional de Arquivos de Filmes e, nos anos 1940, atuou nas Nações Unidas para criar seus programas de cinema. Também foi a primeira representante norte-americana no Festival de Cannes em seus anos iniciais e a criadora de um dos primeiros índex de literatura fílmica. Devemos a ela muito da estruturação de como entendemos a história do cinema nas primeiras décadas de sua existência.


9. André Bazin

Sem Bazin, talvez a Nouvelle Vague não existisse; pelo menos, não como a conhecemos. O crítico francês foi co-fundador da proeminente revista Cahiers du Cinéma em 1951, na qual escreveu ensaios que viriam a se tornar referência no estudo de cinema até hoje; seu livro “O que é o cinema?” é a mais popular coleção desses escritos. A defesa que Bazin fez de representações mais objetivas da realidade – em especial, no que diz respeito ao uso da profundidade de campo – contrastavam com a visão de cinema enquanto força de grande manipulação audiovisual que se popularizara desde os anos 1920, o que influenciou diretamente a forma como os cineastas da Nouvelle Vague (muitos deles colegas críticos de Bazin nos Cahiers) fizeram seus filmes. Bazin também foi praticamente pai adotivo para um jovem problemático chamado François Truffaut, que dedicou a ele seu primeiro longa, “Os incompreendidos”.


8. Otis Ferguson

O crítico norte-americano já foi considerado a versão gringa de André Bazin – um exagero, uma vez que a escrita de Ferguson era, no geral, mais acessível ao grande público que a produção teórica do francês. Fã de jazz, ele escreveu sobre cinema durante os anos 1930 no New Republic, e a mistura influenciou seu gosto por estrelas pouco convencionais como Humphrey Bogart e Katherine Hepburn, o apreço por personagens que representavam o homem comum e sua resistência a uma linguagem rebuscada. O resultado disso foi a criação de um padrão de escrita de crítica até hoje marcante nos EUA, muito focada no cinema enquanto produto de uma indústria cultural. Ele é tido como precursor de figuras como James Agee e Pauline Kael, duo também ovacionado entre os críticos americanos.


7. Pauline Kael

Escrevendo para o The New Yorker por mais de duas décadas, Kael usou sua popularidade para capitanear discussões que moldaram a visão de cinema nos EUA: defendeu a abolição das fronteiras entre cinema de arte e de entretenimento e apresentou ao grande público a Nova Hollywood de Martin Scorsese, Brian DePalma e Francis Ford Coppola, que renovaram o cinema gringo nos anos 1970. Kael dizia nunca ver um filme duas vezes, o que se refletia na agilidade de sua escrita pessoal e sem rodeios. Por vezes, tinha opiniões controversas, como a irônica reserva para com a ideia de cinema de autor e a crítica negativa a filmes hoje vistos como clássicos (tais como os de Hitchcock, por exemplo), mas seu alcance e estilo textual peculiar cimentaram sua posição como uma das mulheres mais influentes da história da crítica norte-americana.


6. Gil Robertson IV

O jornalista e escritor Gil Robertson IV criou a Associação de Críticos de Cinema Afro-americanos (AAFCA) em 2003, atacando um ponto relevante e sensível da trajetória dos cânones da crítica: a predominância de autores caucasianos. Além de a entidade premiar profissionais afrodescendentes, ela também atua no auxílio a produção e difusão de obras de cineastas negros nos EUA. Robertson também foi figura crucial nas críticas à Academia em 2015 e 2016, criticando as indicações nas categorias de atuação dominadas totalmente por atores brancos. Ainda que seu nome tenha sido envolto em controvérsia (ele foi acusado de recebimento de propina para a AAFCA premiar o longa “Preciosa” em 2009, o que gerou um racha na direção e culminou na criação de outra entidade, a Black Film Critics Circle), sua militância auxilia na gradual abertura para perfis mais diversos no cinema e na crítica.


5. Molly Haskell

Haskell escreveu para o The Village Voice, New York Magazine e Vogue. Atingiu notoriedade nesses veículos, mas seu nome se consolidou de vez com o lançamento do livro “From reverence to rape: the treatment of women in the movies” em meados dos anos 1970. Nele, a crítica apresenta uma discussão sobre a trajetória de representação da mulher no cinema, abrindo espaço para o tema ao grande público com uma linguagem menos sisuda. Haskell abordou subgêneros como as comédias românticas de forma menos complexa que os estudos das teorias feministas de cinema focados na ligação entre feminismo e psicanálise na leitura das obras, apesar de também dar aula em universidades como Columbia e Barnard, permanecendo atenta a tendências populares como o movimento #MeToo.

Crítica: Life Itself - A Vida de Roger Ebert4. Roger Ebert

Ebert foi o primeiro crítico de cinema a ganhar um prêmio Pulitzer, em 1975, e o primeiro a ganhar uma estrela na Calçada da Fama, em 2005. Já no início da carreira, nos anos 1960, ele já era tido como um dos melhores críticos em atividade por ninguém menos que Pauline Kael.  Escreveu por décadas para o Chicago Sun Times, deixando também uma marca na crítica cinematográfica na televisão em programas como Sneak Previews e At the Movies with Gene Siskel & Roger Ebert, quando popularizou os sinais de polegar para cima ou para baixo (thumbs up/thumbs down) para sumarizar o veredicto de um filme. Nos últimos anos de vida, acometido por um câncer que o vitimou em 2013, nem mesmo sucessivas cirurgias e a perda da capacidade de falar e comer o impediram de tentar manter a escrita sobre cinema.


3. Manohla Dargis

Manohla é “apenas” a responsável pela seção de crítica de cinema do The New York Times. Antes disso, também assumiu funções de liderança no Los Angeles Times e LA Weekly, além de escrever para publicações do calibre do The Village Voice, Film Comment e Sight and Sound. Já foi finalista do Prêmio Pulitzer por quatro vezes. Na tradição da crítica norte-americana, Dargis dá igual atenção aos filmes pipoca e “de arte”, sempre lançando um olhar aguçado aos temas e formas de representação trazidos por eles – não por acaso, ela também dá atenção às questões de gênero no cinema, tendo escrito o prefácio de uma reedição do livro “From reverence to rape…”, de Molly Haskell, além de obras próprias com temática semelhante. Hoje, ela pode ser considerada uma das críticas mulheres de maior destaque em nível mundial.


2. Jonathan Rosenbaum

Nascido no Alabama, Rosenbaum aproveitou bem seus tempos morando na Europa. Escreveu até os 65 anos em publicações como o Chicago Reader, Cahiers du Cinéma e Film Comment. Seu amor por filmes não americanos foi justamente o que o fez ajudar a popularizar obras de outros países nos EUA e criticar a hegemonia dos filmes de Hollywood no mercado exibidor. Este é, inclusive, o tema de um de um de seus vários livros: “Movie Wars: How Hollywood and the Media Limit What Movies We Can See”.  Sua atenção para com filmes gringos de menor hype também é digna de nota, como quando ele criou uma lista alternativa aos 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute, incluindo mais obras independentes, incluindo filmes de John Cassavetes e Jim Jarmusch.


1. François Truffaut

Antes de se tornar um cineasta e sinônimo de Nouvelle Vague, François Truffaut foi um jovem crítico na Cahiers du Cinéma, cria do quase pai adotivo André Bazin. Sua noção do papel complementar da crítica no suporte ao consumo e cimentação de filmografias é uma marca de seus textos, como bem vemos quando ele ajudou a criar o mito em torno dos filmes de Alfred Hitchcock e a angariar mais respeito para com os filmes neorrealistas italianos e alguns subgêneros norte-americanos tidos como menores até então. Paixão é um termo que resume bem a carga de suas críticas, sempre mordazes em suas asserções. Obviamente, esse estilo passional tem seus detratores, mas nele vemos não apenas o retrato de uma época, mas muito das bases daquele que viria a se tornar um dos realizadores mais emblemáticos do cinema.

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