Desde 2012, o Cine Set divulga a lista dos filmes não exibidos nos cinemas de Manaus. A proposta visa mostrar aos leitores como a capital amazonense está sendo gradativamente tirada do circuito de filmes alternativos e deixando de receber obras de importantes diretores ou produções fora do universo de Hollywood e das comédias populares brasileiras.

Triste constatar como 2014 marca um momento ainda mais duro para quem curte ainda ir a uma sala de cinema assistir bons filmes. A ausência de muitas das produções enumeradas abaixo assustam por serem longas com capacidade de agradar públicos de diversas faixas etárias e classes sociais. A lista escancara a total falta de critério por parte das empresas exibidoras presentes em Manaus – Cinépolis, Cinemark, Playarte, Kinoplex, Cine Araújo – e a completa irresponsabilidade do setor (não à toa a nova lei da Ancine limitando os megalançamentos no Brasil).

Nessa conta, vale citar também a apatia do consumidor de Manaus, o qual não cobra das empresas maior diversidade de filmes nos cinemas. Formas de comunicação diversas existem para protestar e cobrar pela presença de filmes importantes: desde o Facebook até a tradicional reclamação para o gerente são opções para fazer algo e tentar mudar o panorama.

Prepare-se para ler a lista e não ficar triste.

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A volta do diretor Jim Jarmusch em grande estilo ao lado de dois atores excelentes da geração atual de Hollywood – Tilda Swinton e Tom Hiddleston – ficou fora dos cinemas de Manaus por não ser uma obra modernosa sobre vampiros. Em vez de brilharem por amor como em “Crepúsculo” ou serem heróis de ação igual à nova versão de Drácula, “Amantes Eternos” traz a elegância a esses seres regada a muita arte e ironia. Nada comercial na cabeça dos executivos dos nossos cinemas.

nebraska_09 – Nebraska

Filmes em preto e branco deveriam ser obrigatórios por lei nas salas de cinema. A direção de fotografia desses projetos, quase sempre, são lindos de se ver na telona. Manaus, entretanto, não teve chance de ver esse brilhante trabalho feito por Philip Papamichael. Indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2014, “Nebraska” ainda realça o talento de Alexander Payne como um dos principais diretores do cinema americano e faz o veterano Bruce Dern brilhar mais uma vez.

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Quando nem mesmo Woody Allen consegue emplacar filme nos cinemas de Manaus é que o negócio está feio. Desde “O Sonho de Cassandra” em 2007, a capital amazonense não ficava sem ver os projetos do diretor nova-iorquino nas telas. Apesar de contar com atores populares como Colin Firth e Emma Stone, “Magia ao Luar” não teve vez na programação das redes de cinema da capital. Se bem que eles estavam ocupados com “Transformers – A Era da Extinção”. Compreensível…

scarlett_johansson_under_the_skin_movie-HD7 – Sob a Pele

Muita gente desgosta de “Sob a Pele” pelo ritmo paradão, uma trama sem grandes acontecimentos e maiores explicações. A atmosfera criada pelo diretor Jonathan Glazer, porém, faz esta ficção científica ser uma experiência única para o espectador. Se encantar pelo projeto é fácil, em especial, quando se assiste no cinema: a imersão é imediata. Porém, Manaus não teve essa sorte e o filme nem entrou em cartaz.

Agora, vai explicar o motivo?

Se os caras não conseguem promover o filme mesmo com a nudez de Scarlett Johansson fica difícil esperar qualquer coisa.

Her6 – Ela

De todos os três filmes do Oscar não lançados nos cinemas de Manaus, “Ela” é, sem dúvida”, a mais inexplicável ausência.

Se “Nebraska” e “Philomena” tinham atrativos pouco comerciais (filmado em preto e branco, atores pouco conhecidos do grande público médio, tramas em um ritmo mais lento), “Ela” tinha grande apelo junto ao público: romance dinâmico sobre um tema comum a todos nos dias atuais, Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson (que fase dela com Manaus), Amy Adams, história contada de uma forma simples e linear.

Sem lógica alguma no critério de escolha dos longas a serem lançados em Manaus, o público perdeu um dos principais filmes de 2014.

Relatos-salvajes-ricardo-darin5 – Relatos Selvagens

Fenômeno do respeitado cinema argentino. Unanimidade de crítica e público. Presença da estrela Ricardo Darín no elenco. Temática fácil de cair no gosto do espectador (a violência, goste ou não, atrai milhões de espectadores ao cinema mundo afora, né Quentin Tarantino?). Ritmo ágil similar aos filmes de Hollywood com ação e humor se revezando constantemente.

Por que “Relatos Selvagens” não levaria público aos cinemas de Manaus?

e80deae0-eaa0-11e3-b4ba-352f6369bcf0_boyhood4 – Boyhood

Favorito ao Oscar 2015, “Boyhood” é uma experiência diferente do habitual no cinema. Filmado ao longo de 12 anos, a produção comandada por Richard Linklater mostra como a vida comum de um garoto em processo de amadurecimento pode render um projeto tão brilhante como qualquer outra com histórias mais mirabolantes repletas de reviravoltas e cheias de efeitos especiais. É como se a vida de cada um de nós se encontrasse em Mason, nos pais dele e na irmã.

Os cinemas de Manaus não conseguiram enxergar isso. São tantos anos vendo e projetando as mesmas coisas que o mero encontro com o diferente acaba por chocar. E quando o choque, melhor evitar: preferível não lançar, diriam esses executivos, eles não são capazes de entender.

Será?

lobo3 – O Lobo Atrás da Porta

Olhar o que aconteceu com “O Lobo Atrás da Porta” nos cinemas brasileiros é, no mínimo, revoltante. Lançado no mesmo fim de semana de “Malévola” e “No Limite do Amanhã”, o melhor filme do Brasil no ano não encontrou espaços nas salas do país e afundou.

Meros 29 mil espectadores assistiram Leandra Leal (sim, a protagonista da novela das 9!) fazer o melhor papel da carreira e a produção nacional revelar o talentoso Fernando Coimbra. Manaus, claro, entrou na onda e deu prioridade aos filmes de Angelina Jolie e Tom Cruise.

“O Lobo Atrás da Porta” representou o auge da falta de espaço para o cinema alternativo do país no próprio Brasil. Da mesma forma, excelentes produções como “O Menino e o Mundo”, “Riocorrente”, “O Homem das Multidões”, “O Mercado de Notícias”, “Os Amigos” ficaram relegadas ao desconhecimento.

E ainda tem gente chateada com a Ancine ao tentar limitar os megalançamentos no Brasil.

OGHB12 – O Grande Hotel Budapeste

Wes Anderson realizou o trabalho mais completo da carreira com “O Grande Hotel Budapeste”. Com a precisão cirúrgica de sempre nos enquadramentos e direção de arte, o cineasta criou uma aventura de primeira com toques do seu tradicional humor negro e drama na medida certa. Nem mesmo os relutantes membros da Academia conseguiram deixar de reconhecer a maturidade do trabalho e o projeto é forte candidato ao Oscar 2015.

E isso adianta alguma coisa para o filme ser lançado em Manaus?

Chega a ser inacreditável como “O Grande Hotel Budapeste” mesmo com um elenco de estrelas (Ralph Fiennes, Jude Law, Tilda Swinton, Edward Norton, Willem Dafoe) não consiga arranjar uma mísera sala para ser exibido.

vidas1 – Vidas ao Vento

Imagina assistir o último filme da carreira de um mestre. Você pode até torcer o nariz, achar inferior a outros da carreira do cineasta, porém, o respeito estará ali. A despedida de alguém capaz de nos encantar por tanto tempo leva a essa nossa reverência por aquele trabalho.

Manaus não pode se despedir de Hayao Miyazaki. Indicado ao Oscar 2014, “Vidas ao Vento” foi o último filme do mestre da animação mundial e não chegou ao Cinemark, Cinépolis, Cinemais e Playarte.

Um desenho com áudio original em japonês e legendas em português? Quem é Miyazaki? O Japão tem animação além do Pokémon? Não é a Disney que manda na parada? E o povo do Amazonas gosta/entende/sabe dessas coisas? Todas essas devem ser perguntas feitas por quem escolhe os filmes a serem exibidos nas salas de cinemas de Manaus.

Desculpe-nos, Miyazaki!

PS: o mesmo pode se dizer a Alain Resnais: o último filme do mestre francês, “Amar, Beber e Cantar” não foi exibido nos cinemas de Manaus.

VEJA OUTROS FILMES NÃO EXIBIDOS NOS CINEMAS DE MANAUS EM 2014

Alabama Monroe (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro)

Quando Era Vivo (terror brasileiro com Sandy e Antonio Fagundes)

Philomena (indicado ao Oscar de Melhor Filme)

Gloria (sucesso do cinema do Chile)

O Menino e o Mundo (animação brasileira premiada no Festival de Annency)

Até o Fim (drama estrelado por Robert Redford)

O Congresso Futurista (ficção científica estrelada por Robin Wright)

Eu, Mamãe e os Meninos (ganhador do César de Melhor Filme, o Oscar da França)

O Passado (drama dirigido por Asghar Farhadi)

Amante à Domicílio (comédia de John Turturro com Woody Allen)

Riocorrente (premiado drama brasileiro de Paulo Sacramento)

Oldboy (remake dirigido por Spike Lee do clássico coreano)

O Homem Duplicado (suspense baseado no livro de José Saramago estrelado por Jake Gyllenhaal)

Jersey Boys (musical dirigido por Clint Eastwood)

O Mercado de Notícias (documentário de Jorge Furtado)

Cortinas Fechadas (premiado filme iraniano dirigido por Jafar Panahi)

O Homem das Multidões (drama brasileiro dirigido por Marcelo Gomes, Cao Guimarães)

Bem-Vindo a Nova York (drama com Gerard Depardieu)

O Homem Mais Procurado do Mundo (suspense com Philip Seymour Hoffman)

Os Amigos (drama brasileiro com Dira Paes e Marco Ricca)

Mommy (drama canadense de Xavier Dolan)