As apostas de Cannes deste ano foram muito variadas e não houve um consenso crítico em torno de um filme, nem do veterano mais querido do festival, Michael Haneke. No meio disso, surgiu “120 Battements per Minute”, do francês Robin Campillo, um projeto político e que toca em questões das minorias sociais que poderia conquistar o júri de Almodóvar e cia.

O filme remonta a luta do braço francês do ACT UP, um grupo de ativistas que lutava por direitos de pessoas soropositivas na Paris do início da década de 1990.

A premissa gay com cunho social, que Campillo já havia abordado em seu longa anterior (“Garotos do Leste”), volta a cena com o pano de fundo bem real do grupo (que existe) e, antes do mesmo do festival acabar, já havia rendido ao filme o Queer Palm, que premia filmes de temática LGBT, e o prêmio Fipresci, dado por críticos internacionais.

O grande mote do “120 Battements” é analisar o peso psicológico de empreender qualquer tipo de luta social e nos fazer pensar que, no caso dos ativistas que representa, debaixo da armadura de pensadores e de revolucionários, estão pessoas doentes, fragilizadas, rejeitadas pela sociedade, que se veem numa batalha não somente por direitos, mas por sobrevivência.

O maior exemplo disso é Sean, interpretado com maestria por Nahuel Pérez Biscayart, favorito a levar o prêmio de Melhor Ator do evento. Nahuel é um gay infectado com HIV em sua primeira relação sexual, com um professor na época do colégio. A cena em que ele rememora o fato junto de Nathan (Arnaud Valois), novo membro do grupo de ativistas que acaba virando seu companheiro, é simplesmente devastadora, como várias no filme, inclusive um momento íntimo que dividem no hospital, que é provavelmente uma melhores deste ano.

Em Sean, Campillo, que co-escreveu o roteiro, encontra uma voz para falar de como a vida pessoal e política se misturam, o que torna este filme uma sessão dupla interessante com “Milk – A Voz da Igualdade”, que apresenta uma versão mais sanitizada do que vemos aqui, mas ainda uma reflexão válida sobre o mesmo tema.

É essa mistura que permite que um personagem dê em cima de alguém no meio de uma reunião entre os ativistas e o grupo farmacêutico ou que amigos se reúnam para falar do caráter político de um enterro. Momentos como esse são capturados em longas e expositivas cenas de conversa que, longe de tornar o filme pesado, nos oferecem uma oportunidade de ouro para conhecermos melhor todos os envolvidos.

Campillo, que já provou ser um mestre em mudanças tonais, gradualmente retira os ativistas de cena e nos deixa com a história de amor entre Sean e Nathan, de maneira que ganhamos um filme duplo. Ainda que essa mudança não ocorra de maneira tão fluida ou satisfatória como a realizada em “Garotos do Leste”, o terceiro ato consegue amarrar as pontas soltas, compensando pelo ritmo um pouco arrastado e clichê do segundo.

Nas idas e vindas de filme, somos apresentados ao universo onde pessoas multifacetadas buscam saídas de seus temores na dança, no amor e nas ações políticas. Não me espantaria que esse retrato convencesse um júri a premiar um filme, mas caso não convença, não importa: “120 Battements” é um triunfo de qualquer maneira.

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