O tempo realmente passa muito rápido. Já parou pra pensar que faz 15 anos que Clube da Luta chegou aos cinemas? Tal fato nos impressiona porque, afinal de contas, estamos 15 anos mais velhos e quase não notamos, ou talvez porque o filme de David Fincher permanece estranhamente atual, tão atual quanto anteriormente.

Atual e ainda controverso. Claro que hoje em dia o filme é visto com olhos menos escandalizados do que quando foi lançado, mas ainda assim, Clube da Luta é daqueles filmes que servem de argumento para ignorantes levantarem suas teorias ridiculamente equivocadas sobre o papel do cinema, de que maneira a arte deve se posicionar sobre determinados temas que envolvem a sociedade, se filmes violentos influenciam a plateia a tomar atitudes semelhantes a dos personagens do filme, e mais uma série de baboseiras.

Mas já estou me adiantando. Primeiro vem a sinopse.

Vivendo uma vida monótona, entorpecido pela rotina trabalhando numa empresa de seguros, o Narrador [o nome do personagem não é revelado] (Edward Norton), está passando por um momento particularmente difícil pela sua insônia estar cada vez mais grave. Depois de passar dias sem dormir, ele parece encontrar uma solução para o seu problema: ir para grupos de ajuda para pessoas com câncer nos testículos, intestinos, parasitas, devedores anônimos, coisas do tipo. Tudo ia bem até a chegada de Marla Singer (Helena Bonham Carter), que também é uma farsante naquele universo, o que faz com que o Narrador volte a não conseguir dormir. Tentando conciliar essa situação, um acontecimento importante abala a sua vida, e neste momento ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt), que o apresenta a um diferente estilo de vida, sem se prender as convenções da sociedade, e o intitula de Clube da Luta.

Acredito que antes de qualquer coisa é preciso destacar o mérito fantástico de David Fincher. Fazer este filme da maneira que ele fez é a prova do quanto o diretor já surgiu maduro, e o quanto ele respeita a arte na qual está trabalhando, impondo o seu estilo, em detrimento de fazer um cinema comercial sem nenhum tipo de rigor.

Adaptar o livro de Chuck Palahniuk não era uma tarefa fácil. Muito pelo contrário. Como fazer com que o público se identifique com uma figura tão… “verdadeiramente humana” quanto o seu protagonista? Mais importante ainda, como fazer com que o filme mantenha a mesma pegada contraventora do material original, sem que isso represente afugentar as pessoas mais desavisadas?

Pois é, seria impossível agradar a duas propostas tão discrepantes. Não à toa, o filme foi um fracasso retumbante de público, e teve críticas bastante divididas, tendo recebido análises duríssimas em relação ao seu estilo e mensagem. E não havia como esperar algo diferente, visto que o longa escolhe o caminho mais difícil, o de não entregar as coisas mastigadas para quem está assistindo, não se preocupando em julgar as atitudes dos seus personagens. Esse é o ponto principal da questão de como o filme foi recebido. Vemos uma série de crimes cometidos, a criação de uma seita convicta no ideal sociopata de um bem maior, violência explícita, e isso se tornou um prato cheio para que imaturos e ignorantes entendessem que o filme defende a história que conta, que toma partido de tudo aquilo, ou que influencia a plateia a comprar a ideia do Clube da Luta e do Projeto Destruição.

E é evidente que isso não acontece, Fincher não toma partido de nenhum lado, apenas tomou a (acertada) decisão de não condenar ninguém. O filme conta com a inteligência do público, não o subestima, da mesma forma que fizeram filmes como Laranja Mecânica (1971) e O Exorcista (1974), ambos tratando de temas controversos, e que acabaram sendo vistos de maneira quase demoníaca, ganhando status de filmes malditos, que não deveriam ser vistos, ou vistos apenas pelos fortes, coisas do tipo.

Infelizmente, com tanta falta de informação e criação de mitos que a sociedade proporciona, muitas vezes seguir o caminho mais correto significa assinar uma confissão de culpa, de que aceita ser alvo de todo tipo de bombardeio ignorante.

Uma pena, pois isso impediu muita gente de assistir a um filme de difícil digestão, com certeza, mas também de apuro técnico fantástico, com atuações, roteiro e direção dando um verdadeiro espetáculo.

Fincher já era um diretor de bom nome no mercado após o lançamento do também fenomenal Se7en (1995), mas com Clube da Luta o seu nome ganhou um status ainda mais diferenciado, de um quase gênio, um talento fora de série, que apresentava a vida urbana de maneira dura, mas terrivelmente verdadeira.

Neste trabalho, o diretor utiliza-se de uma condução mais pop, com câmeras lentas, efeitos visuais estilosos, e um senso de humor negro fantástico. É incrível como ele insere esses elementos populares, mas ao mesmo tempo consegue manter a crueza das suas situações, principalmente as cenas de luta, que surgem sempre sujas, com cara de briga de rua, bem diferente das coreografias dos filmes de ação. Fincher sabe exatamente o que quer, tem o domínio absoluto da história que quer contar, e utiliza o seu estilo para somar à história do filme. Trabalho simplesmente perfeito, principal responsável por este filme ser o tapa que é.

E o que dizer do roteiro de Jim Uhls? Baseado no livro de Palahniuk, ele apresenta com maestria o personagem principal com todas as suas contradições. O Narrador é um homem perdido, que não consegue dormir, que tem problemas de relacionamento com as pessoas, que vive sem sentir as coisas, que não sabe como chega aos lugares aonde chega, que precisa de encontros com estranhos com câncer, ou alguma mazela parecida, para poder se sentir minimamente humano, para conseguir esquecer a sua necessidade em comprar uma nova estante, ou um novo jogo de pratos. A chegada de Tyler muda tudo isso, injeta uma nova perspectiva. (Aliás, que personagem fantástico, o Tyler Durden! Dos mais icônicos do cinema). O tal Clube é o nascimento de uma nova vida, quer dizer, a única vida, pois ele não estava vivo até aquele momento, apenas vivia sem se importar verdadeiramente com as coisas. E a maneira como as coisas vão gradativamente aumentando de tamanho, até se tornarem gigantescas (Projeto Destruição), é conduzida de maneira muito inteligente, nos envolvendo aos poucos.

Também há de se destacar os diálogos, sempre certeiros, repletos de uma ironia cortante inteligentíssima, e a narração em off do personagem principal, que em alguns filmes representa muitas vezes um problema por querer explicar o que o filme já mostra, aqui cumpre um papel complementar necessário, sendo importante para sabermos como funciona a cabeça do Narrador(“Eu sou a rejeição de Jack”).

É claro que também é importante ressaltar o trabalho de todo o elenco. Todo. Este filme só chega tão longe por ter uma unidade de atuação em alto nível, desde os personagens mais importantes, até os que pouco aparecem. Atuações como as de Meat Loaf, Jared Leto e Helena Bonham Carter contribuem enormemente para o sucesso do filme.

Mas é evidente que a maior responsabilidade estava com Edward Norton e Brad Pitt, e ambos nos apresentam, talvez, os melhores trabalhos de suas carreiras, o que definitivamente não é pouca coisa.

Durante muito tempo considerei a atuação de Edward Norton um pouco mais impactante que a de Brad Pitt. Revendo o filme, pela terceira vez, chego a conclusão de que é impossível, e desnecessário, apontar se um dos dois se sobressai. O trabalho de ambos é fenomenal, e muito disso se deve pela troca, pela generosidade que um tem pelo outro em cena, deixando de lado qualquer meritocracia pessoal para pensar no que é o melhor para o filme. Se Norton desenvolve uma transformação espetacular, indo da inércia para a surpresa, e depois para a paranoia, Pitt é a alma do filme, é quem tira o trabalho da mesmice e o leva para um lugar desconhecido, impossível de prever, e isso só seria possível nas mãos de um ator tão talentoso.

Importante ainda ressaltar os termos técnicos do filme, que são primorosos. A fotografia assinada por Jeff Croneweth é extremamente inteligente ao utilizar a luz de maneira narrativa, surgindo muitas vezes bastante escura, visto que boa parte das cenas acontecem à noite, o que ressalta a falta de vida do Narrador, e dos ambientes que ele frequenta, bem como um lado mais sombrio, como no galpão que ocorrem as primeiras sessões do Clube da Luta. Vale ainda ressaltar o casamento muito bem sucedido da montagem de James Haygood com a trilha dos Dust Brothers, que são fundamentais para implementar o estilo de Fincher, contribuindo para que o estilo pop do diretor não deixasse o filme sem foco, deixando sempre o trabalho bem equilibrado, na energia correta. Afinal, manter o ritmo frenético em um filme de duas horas e vinte requer bastante perícia do seu montador, e do responsável pela trilha.

Com tantas qualidades, não restam dúvidas que Clube da Luta é um dos trabalhos mais importantes da segunda metade dos anos 90, e um filme que permanece dando um tapa com muita força, algo meio distante do cinema comportado e sem vida dos últimos anos.

 NOTA: 9,0

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