Como elementos de uma cultura em constante transformação, é mais que natural que alguns filmes fiquem datados no decorrer do tempo. Formatos, modo de construção da montagem, roteiro ou atuação antes considerados naturais soam exagerados ou inverossímeis após algumas décadas ou até antes disso. Ao assistir a um clássico do cinema norte-americano como “A Felicidade não se compra”, esses pontos são facilmente perdoáveis, pois a história permanece extremamente cativante após quase setenta anos.

Na trama da “dramédia” de Frank Capra, acompanhamos a vida de George Bailey, um jovem de uma cidade pequena com grandes ambições: virar um milionário, viajar o mundo todo e ter um emprego excitante. A realidade, no entanto, acaba sendo bem diferente, até chegar no ponto em que George pensa em cometer suicídio. Toda a sua trajetória é vista pelo espectador do ponto de vista de criaturas divinas, que decidem pelo envio de Clarence, um anjo, para mostrar a George como tudo seria se ele jamais tivesse existido.

A série de clichês envolvidos na construção do roteiro é óbvia: há o apelo religioso, o “bom mocismo” de George, o destino trabalhando a favor do herói em muitos momentos apesar das adversidades, o formato tradicional e compreensível a qualquer tipo de público… o que diferencia “A felicidade não se compra” dos outros filmes é como todos esses elementos trabalham de forma harmoniosa.

Impossível não achar bobo, mas ao mesmo tempo dar um sorrisinho de soslaio em cenas como quando George pisa na ponta do roupão que envolve seu par romântico, Mary, e suas belas pernas ficam a mostra (ousadia pura em 1946!). Em outro ponto do filme, Mary parece chorar, pois seu rosto é mostrado através do vidro do carro banhado pela chuva, justo no momento em que ela e George abdicam de sua lua-de-mel por conta de um problema na firma. Junto a esses elementos, há uma incrível fluidez exposta principalmente através da montagem, cujo andamento não deve nada aos modernos dramas familiares que vemos nos cinemas.

O maior destaque fica por conta da atuação de James Stewart no papel principal. Seja como o jovem impetuoso ou como o senhor que abdica de seus sonhos em prol de melhorias para a comunidade em que vive, ele cativa sem apelar para excesso, e sempre com o toque de humor e charme que era a marca registrada do ator. A dignidade que Stewart deu a George com todo o seu talento, aliada a uma ótima construção da personagem (que é “bonzinho”, mas não bobo; trágico, mas não triste), faz com que seus sacrifícios e atitudes sejam comoventes a qualquer espectador.

E daí que é um filme um tanto clichê? E daí que tem anjos e santos? E daí que o ápice da trama se passa no Natal? E daí que é um dos filmes mais populares dos Estados Unidos? Ao contar sua história tão bem, “A felicidade não se compra” mantém o fôlego para agradar ao público e chamar a atenção dos críticos pela genialidade de sua simplicidade. Nesse sentido, até mesmo o que ele tem de antiquado é divertido e curioso, pois para o espectador comum, o filme remete a uma época mais simples e de maior comunhão entre as pessoas; ao cinéfilo, a simplicidade parte da construção fílmica e reverbera no modo de vida e olhar inocente das personagens, além do final feliz.

Já em 1946, Frank Capra ensinava a Hollywood que até mesmo um clichê bem trabalhado pode render um bom filme, lição esta que a indústria precisa revisar urgentemente.

NOTA: 8,5

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