Há tempos não se via um longa dirigido por um amazonense. A Floresta de Jonathas, de Sérgio Andrade, supre essa lacuna. Filme de arte com fôlego para rodar o mundo, sua importância simbólica chega a ser indiscutível. Se estivesse vivo, Silvino Santos seguramente se orgulharia dos feitos do seu sucessor.

A história do rapaz com problemas familiares que se perde na floresta acerta na fotografia, crucial para a sua proposta contemplativa, e no tom do roteiro. Ao mesmo tempo, alguns personagens, detalhes do roteiro e a atuação do protagonista são frágeis. Apesar disso, temos um saldo positivo no final.

Jonathas (Begê Muniz) vive na zona rural com os pais, coletores e vendedores de frutas amazônicas, e com o irmão, Juliano (Ítalo Castro). O rapaz, de sensibilidade artística e temperamento pacífico, se sente deslocado naquele lugar e com aquelas pessoas, que brigam entre si. Sociável ao ponto da fanfarronice, seu irmão vivia “fugindo” com estranhos. Numa dessas fugidas, Jonathas vai junto e conhece a ucraniana Milly (Viktoryia Vinyarska). Acompanhado dela, o protagonista descobre, com frieza, as sensações do mundo ao seu redor. No fim do segundo ato da história, ao querer agradar à garota, Jonathas vai pegar a ela um maracujá e acaba se perdendo na floresta. A partir daí, ele começa a lutar para se encontrar, tanto literal quanto metaforicamente.

Seguramente, a maior qualidade de “A Floresta” é a fotografia, assinada por Yure César, responsável também pela composição do curta “Rota da Ilusão”, de Dheik Praia, e do documentário “Retratos de Manaus”, de Sergio Cobelo, ambos exibidos no AFF 2012. Os planos abertos e longos, praticamente iranianos, potencializam o tom contemplativo que a história se propõe a ter. Além disso, as “molduras” que a mata faz nos personagens são de uma beleza estética e conceitual admiráveis. De acordo com o momento, as árvores e as folhas acolhem, observam ou oprimem os personagens.

O tom que Sérgio Andrade dá ao roteiro também se destaca. O diretor equilibra os dramas humanos com a exuberância da Amazônia. Os dois elementos se influenciam e se misturam, fazendo com que a soma de seu todo seja maior que a das suas partes. Não há um psicologismo excessivo, que renega que os seres humanos vivem fora de suas cabeças, e nem uma autoafirmação caboca oca e com forte complexo de inferioridade.

No trio principal, destaca-se Ítalo Castro. Sua presença na tela tem força. O ator também passa com segurança o contraste que é o seu personagem em relação à família. Ele também consegue dizer com naturalidade as falas de Juliano, cheias de expressões de moleque doido, meu considerado.

Já Viktoryia… Ah, Viktoryia…. Infelizmente, os conflitos e o passado da sua personagem ganham pouco aprofundamento, transformando-a, assim, no estereótipo da gringa que fala engraçado e está louca para conhecer a Amazônia. Mesmo assim, a beleza e o carisma da atriz encantam, maravilham, hipnotizam, apaixonam.

O trabalho de Begê Muniz pode render horas de discussão. Infelizmente, é duvidável se ele acertou o tom do personagem. Isso porque falta-lhe força cênica e presença para nos emocionar com a sua inexpressão. Mas, se olharmos sob um outro ponto-de-vista, a sua capacidade de ser engolido pelos outros personagens e pelo ambiente pôde ter se encaixado como uma luva para a introspecção do filme. Dessa forma, a fronteira entre proposta conceitual e possíveis arestas no trabalho do ator ficam borradas. Enfim, qual é a sua opinião sobre isso?

“A Floresta” apresenta falhas na relação entre Johnatas e Milly. O romance entre eles se desenvolve com a mesma pressa com que é deixado de lado. Além disso, há personagens com pouca razão de existir, como o cabeludo performático (Alex Lima) e o caboco interpretado por Chico Diaz, que força no sotaque caipira. A presença deles só é valorizada em situações deslocadas, como o ritual indígena que o personagem de Lima faz e cena engraçada em que o caboco-caipira de Diaz e o pai de Jonataas e Juliano procuram sinal de celular.

Sérgio Andrade evoluiu em progressão geométrica desde o seu último trabalho, o curta Cachoeira, tanto em termos técnicos quanto de construção narrativa. Em “A Floresta”, não temos mais problemas de som. Também vemos um refinamento na sua proposta de contar dramas intimistas de amazônidas que fogem de clichês da nossa região. Desta forma, Andrade percorre um caminho já muito bem traçado pelos escritores Márcio Souza e Milton Hatoum. Agora, só depende do cineasta em se aprofundar mais e mais na sua arte e na sua maneira de narrar histórias.

Com essa continuidade, Silvino Santos ficaria ainda mais orgulhoso dele.

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