Após escrever os populares A Rede Social (2010) e Steve Jobs (2015), Aaron Sorkin alcança novos horizontes em A Grande Jogada, seu primeiro trabalho como diretor. A obra narra a história de Molly Bloom (Jessica Chastain), ex-esquiadora profissional que, após sofrer um acidente, decide viver em Los Angeles onde se envolve com jogos de carta clandestinos.

O filme utiliza uma linha temporal sem cronologia, apresentando sua protagonista por meio de diferentes acontecimentos, passando por sua infância, adolescência e diversos momentos da vida adulta. Essa “bagunça” inicial se torna menos presente à medida que a trama avança, sintetizando, ao final, todos os minutos mostrados como decisivos para o entendimento sobre apenas uma versão de Molly e suas escolhas.

Uma narrativa refletida no ritmo acelerado presente na primeira hora de filme, caracterizando com sucesso sua personagem central. Este subterfúgio permite que não apenas Molly como também Jessica Chastain se afirmem como proprietárias do jogo. A atriz consegue fazer jus à construção de sua personagem, considerando a sutileza necessária nos momentos de reflexão entre a intensidade apresentada pela montagem e voice over escolhidos, estes últimos aparatos, entretanto, se tornam redundantes à medida que a personagem já foi estabelecida com sucesso.

Ao lado de Chastain, Idris Elba faz os esforços necessários para que seu personagem, o advogado Charlie Jaffey, não seja facilmente esquecido. Tarefa executada com êxito, porém atribuída mais à escolha do ator do que ao próprio roteiro que oferece apenas fragmentos de sua personalidade bem guardados para serem mostrados ao público no momento certo.

O timing no longa, afinal, se torna grande parceiro do diretor. O momento certo de prolongar uma cena ou a hora exata de encerrar uma linha temporal são escolhas realizadas cirurgicamente por Sorkin. Entretanto, suas acertadas decisões não correspondem a grandeza pretendida com o filme, apesar de construir bem as justificativas de sua protagonista, os personagens secundários com os quais Molly interage apresentam pouquíssima profundidade, se tornando até mesmo previsível deslumbrar seus próximos atos.

Situação que ocorre principalmente com o pai de Molly, Larry Bloom (Kevin Cotsner), que permeia a narrativa com pouquíssima abertura para alcançar outros níveis de personalidade apresentados de forma tão “natural” durante o desfecho. Sendo este o familiar com maior participação na história, resta aos dois irmãos da protagonista aparecem também no final e à sua mãe falas contadas sem nenhum tipo de interação entre mãe e filha que não fosse mediada por um pai.

A família, mesmo que abordada de forma mal-acabada, preenche perfeitamente a ausência de um envolvimento amoroso para a protagonista. Esta lacuna em nada interfere negativamente na história, ao contrário, quando o esperado é um clichê de falhas justificadas por uma relação inconsequente, o filme se distancia disto sem questionar a inteligência e sagacidade de Molly apresentada até então.

Mesmo sem prometer reviravoltas excepcionais, A Grande Jogada é um filme que surpreende por sua abordagem e sutileza de roteiro. Definitivamente, um bom motivo para ficar de olho nas futuras produções de Aaron Sorkin.

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