Depois de um ano de comédias da Globo Filmes por tudo quanto era lado (e de presentão de Natal, ainda vem por aí o primeiro filme d’Os Caras de Pau), chegou a vez da O2 Filmes, produtora de Fernando Meirelles, também fazer sua primeira incursão no gênero. O resultado é A Noite da Virada, que chega no clima de fim do ano para fazer piada com a festa de Réveillon. O resultado não chega a alcançar o nível de constrangimento de outros filmes, mas o longa dirigido por Fabio Mendonça também passa longe de ser um triunfo da comédia nacional.

No filme, acompanhamos Ana (Júlia Rabello, para sempre imortalizada por este vídeo) nos últimos preparativos para recepcionar os trezentos convidados da sua festa de Ano Novo. É durante essa festa que uma série de confusões acontecerá com ela e tantos outros personagens, desde o marido (Paulo Tiefenthaler), que resolve abandoná-la por ter um caso com a vizinha (Luana Piovani), até um dos amigos (João Vicente de Castro, também do Porta dos Fundos), que pensa ter matado um traficante acidentalmente (Taumaturgo Ferreira).

A seu favor, A Noite da Virada conta com o fato de, a princípio, parecer querer realmente construir arcos para seus personagens e os conflitos entre eles. O problema é que, na tentativa de abarcar tanta coisa, o roteiro escrito a seis mãos por Pedro Vicente, Nina Crintz e Cláudia Jouvin não decide que caminho quer seguir e nem o que realmente importa para o desenvolvimento da história. Assim, acabamos vendo uma confusão desconexa que não sabe se tende mais para o lado de uma comédia dramática, mergulha no humor negro e no nonsense ou simplesmente faz piadas dignas de Zorra Total.

Afinal, nada explica algumas decisões tomadas pelo filme: o personagem de Marcos Palmeira, por exemplo, começa como o vizinho rico “coxinha”, chato e com tendências ao TOC ao ponto de evitar até mesmo beber qualquer coisa na casa de Ana. Em menos de duas cenas, sob o efeito de só uma pílula de ectasy, ele muda totalmente de comportamento – e aparentemente, para sempre, já que não há diferença nenhuma depois que o efeito passa. Já o marido de Ana é um personagem que não é nada além da figura do músico irresponsável crianção que fala como se fosse o Dinho Ouro Preto. Ainda por cima, ele transpira mau-caratismo durante todo o filme (em certa altura, cogita reatar com a esposa só por conta de um suposto filho), talvez numa tentativa de transformá-lo realmente em um vilão aos olhos do público.

Alguns momentos mais ousados até geram alguns risos a mais, como a presença da quase ninfomaníaca Alê (Luana Martau), que além de ter uma boa química com João Vicente de Castro, faz uma participação que foge do conservadorismo em relação a sexo visto em outras comédias nacionais. Já Daniel Furlan e Juliano Enrico (dos últimos dias de MTV, em O Último Programa do Mundo) encarnam dois jovens maconheiros que rendem boas cenas, como o momento hilário em que Juliano passa por uma bad trip.

No entanto, a verdade é que nenhum deles faz realmente falta à história, e o exemplo mais problemático disso é a participação inexplicável de Rodrigo Sant’Anna. O comediante, que ficou conhecido pelo papel da transexual Valéria em Zorra Total, é justamente quem mais traz a cara do programa para o filme, vivendo um traficante que se descobre preso dentro de um banheiro químico. Já acostumado a fazer estereótipos sem graça e até ofensivos, Rodrigo desta vez carrega no sotaque e faz um bandido que basicamente passa o filme todo gritando por socorro e falando “caraio, véi” dentro do tal banheiro. Com exceção de ser citado uma vez logo no começo do longa, o personagem não tem ligação nenhuma com a festa do núcleo principal de personagens, e chega ao fim do filme sem nunca justificar sua existência. Vai ver a ideia era atrair o público que Rodrigo (infelizmente) tem. Outro que vem e vai sem se saber por que é Alexandre Frota, numa “ponta de luxo” como um bombeiro.

A verdade é que mesmo os melhores momentos dos dois chapadões no banheiro não são o suficiente para salvar A Noite da Virada. Com uma trama frágil e nem um pouco coesa, como se fosse um monte de esquetes soltos, o maior trabalho fica por conta do elenco para tentar extrair algo, mas mesmo com toda a dinâmica entre os atores isso não se torna possível. Assim, embora não seja um desastre completo, o filme repete erros que já vimos em outras comédias e o principal deles, que é simplesmente não ter graça em boa parte do tempo.

O resultado é uma comédia esquecível que, com o perdão do trocadilho, não fica na memória nem até a virada desse ano.