A Série Divergente chega ao seu segundo capítulo mantendo as mesmas características que marcaram o primeiro filme. Tal como seu antecessor, em Insurgente fica a sensação de estarmos vendo um produto absolutamente calculado para agradar ao “gosto” das plateias modernas. O elenco é jovem e bonito, a trama não é tão diferente de outras obras já conhecidas do publico e também segue religiosamente os passos da “jornada do herói” que se tornou quase um padrão cinematográfico nas últimas décadas. O filme apresenta algumas boas ideias em quantidade suficiente para que o espectador mais exigente não consiga desprezá-lo de todo, mas de modo geral é um trabalho incompleto e dependente da futura terceira parte para funcionar.

Insurgente se passa pouco tempo depois do final de Divergente. Após desafiar a sociedade na qual viviam, dividida rigidamente em facções baseadas em traços de personalidades individuais, Tris Prior (Shailene Woodley) e seu namorado Quatro (Theo James) acabam como fugitivos, escondendo-se junto à facção da Amizade, praticamente uma comunidade hippie. No entanto, a líder da Erudição Jeanine (Kate Winslet) ainda está determinada a caçar os Divergentes, e Tris em particular. Jeanine descobre um artefato, uma misteriosa caixa que guarda um segredo relativo àquela sociedade, mas ela só pode ser aberta por um Divergente, e assim Tris se torna o maior alvo.

A saga segue a cartilha dos épicos e das adaptações de livros de fantasia destinados aos “jovens adultos” desde o sucesso da outra saga famosa, a de Jogos Vorazes. Há ação, romance, uma distopia futurista e uma heroína valente que a desafia. Todos esses elementos dão ao filme um artificialismo e a experiência se torna meio previsível. O novo diretor, Robert Schwentke, filma tudo com uma impessoalidade maior que a do seu antecessor no posto, Neil Burger, que aqui retorna apenas como produtor-executivo. Insurgente é menos uma grande história e mais um negócio a ser administrado.

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Porém, é possível se entreter com um negócio bem feito e, graças a alguns elementos-chave, Insurgente consegue entreter de maneira esporádica. O principal desses elementos é o elenco, e nota-se que cada ator e atriz estão ali cumprindo uma função específica. Woodley é a novata que precisa se provar e o faz com determinação e entrega – trata-se de uma ótima atriz que é o coração dos filmes. James é o galã inexpressivo e está lá para fazer suspirar o publico feminino – e é decepcionante, neste segundo capítulo, ver como a heroína apenas o segue em vários momentos, uma armadilha da qual Jogos Vorazes soube se desvencilhar. Miles Teller se diverte com seu personagem mau-caráter – porque os heróis o mantiveram por perto depois do fim do filme anterior é um mistério que o roteiro não responde. Jai Courtnay é o vilão com maneirismos de Exterminador do Futuro e as veteranas Winslet e Naomi Watts estão ali para emprestar credibilidade.

Aqui e ali surgem algumas boas ideias da direção ou do roteiro – Schwentke surpreende no início com uma luta entre Woodley e Teller filmada num movimento circular empolgante, e detalhes como as cicatrizes no rosto da líder da Amizade vivida por Octavia Spencer ou o soro da verdade usado pelo pessoal da Franqueza, sugerem um lado negro presente sob a superfície daquela sociedade tão organizada e funcional vista no primeiro filme. Além disso, a decisão de situar algumas das maiores sequências de ação de Insurgente na mente da protagonista, através das simulações, dá margem à criação de cenas visualmente interessantes, como a casa flutuante e em chamas da qual Tris precisa resgatar sua mãe, uma sempre bem-vinda Ashley Judd.

Porém, as maiores qualidades do filme se resumem mesmo ao visual. No fim das contas, Insurgente é inferior ao primeiro filme porque não mostra uma evolução da personagem Tris. É apenas mais uma aventura com ela, com mais ação e mais simulações que acabam se tornando uma alegoria dentro da própria franquia, cujo tema principal é o questionamento da realidade motivado pela rebeldia. E como muitos dos produtos hollywoodianos de hoje, guarda seu desfecho para o próximo capítulo, que poderá elevar este aqui ou destruí-lo de vez, dependendo daquilo que os roteiristas tenham em mente para a terceira parte que, claro, já será dividida em dois filmes. Divergente contava uma história com começo, meio e fim. Este capítulo do meio parece mais uma “preparação de terreno” para o próximo, e seu terceiro ato ainda sucumbe a alguns dos mais batidos clichês do cinema fantástico – “A heroína está lutando contra si mesma!”, “E agora ela está morta! Opa, não está!”, e “O vilão que muda de lado sem motivo!” dão as caras ao longo da história.

Para uma história que valoriza tanto a individualidade, e focada no valor do livre-arbítrio sobre o determinismo, a franquia Divergente acaba sofrendo de um estranho paradoxo: seu maior problema é o de nem tentar parecer diferente de várias outras histórias que já vimos antes. A rebeldia da sua protagonista não se estendeu aos realizadores da franquia, e esperemos que ela esteja sendo guardada para os próximos capítulos.

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