Era de se esperar que cedo ou tarde aparecessem filmes abordando a ocupação que a polícia militar fez em favelas do Rio de Janeiro, instalando (talvez este não seja o verbo apropriado) as Unidades de Polícia Pacificadora, um assunto de interesse nacional, certamente.

Quando imaginava como poderiam ser estes trabalhos, tinha certo receio de que os filmes analisassem a situação tomando partido ou dos policiais ou dos moradores, resultando assim em obras parciais, reducionistas, prejudicadas pelas suas convicções ideológicas.

O filme de Belmonte, porém, consegue escapar dessa armadilha, tendo claramente a intenção de mostrar os lados que envolvem a questão, deixando para a plateia a decisão de escolher ou não um dos lados. No entanto, a pobreza do roteiro, e o excesso de clichês atrapalham demais o trabalho, encobrindo até algumas qualidades apresentadas pelo filme.

O longa se passa em 2010 quando o Complexo do Alemão estava prestes a ser ocupado pela polícia. Playboy (Cauã Reymond), o dono do morro, já parece pressentir que o seu reinado está ameaçado, e essa insegurança aumenta ainda mais quando descobre que há quatro policiais infiltrados na favela, Branco (Milhem Cortaz), Samuel (Caio Blat), Danilo (Gabriel Braga Nunes) e Carlinhos (Marcello Melo). Eles são perseguidos pelo morro, mas conseguem se refugiar na pizzaria do Doca (Otávio Muller), mas o cerco vai ficando cada vez mais apertado, e a qualquer momento podem ser descobertos.

A cara pop do filme é, sem dúvida, uma grande característica da sua linguagem. Ele está interessado em democratizar, tentar abrir mais o leque do cinema nacional, abalar um pouco a hegemonia que as comédias tem no momento e, quem sabe, repetir o feito alcançado por Tropa de Elite 1 e 2, em que um filme de ação está entre os mais assistidos do ano. Vemos um favela movie em Full HD, com cenas de ação interessantes, com desenho e mixagem de som extremamente complexos e bem executados, uma montagem esperta. Por conta disso, e também pelo elenco ser cheio de rostos conhecidos, até acredito que Alemão alcance bons números de bilheteria, mas não há como esquecer que o filme tem um roteiro que chega até a despertar simpatia, de tão ingênuo.

Durante o decorrer do longa, é fácil fazer comparações com Cães de Aluguel (1993) e Argo (2012) pois as situações estabelecidas possuem bastante semelhança, que é a de um grupo sitiado em um local pequeno, e especulando se há um traidor entre eles, mas ao contrário do que acontece nos filmes americanos, Alemão não consegue nem de longe estabelecer uma trama verdadeiramente tensa e intrincada, e muito disso se deve a rasa construção dos seus personagens, e o rumo que eles tomam.

Vemos algo muito próximo de caricaturas destilando suas certezas absolutas, e o roteiro de Leonardo Levis e Gabriel Martins vende uma ideia de que é abrangente, pois apresenta personagens com visões de mundo diferentes, assim apresentando situações que tocam em temas como política e sociedade, mas tudo isso de maneira pobre, pouco dilatada, ou dilatada sem nenhuma sutileza.

Milhem Cortaz, um ator interessante e um dos mais ativos do cinema brasileiro, apresenta uma caricatura odiável do policial cansado, agressivo, que perdeu a ternura e é cético com tudo e todos, e bate nas pessoas porque… é desse jeito. O personagem de Gabriel Braga Nunes até agora não sei de onde veio, o que queria, pra onde ia, e por que fez o que fez, e a atuação do intérprete está no mesmo nível do personagem, se é que me entendem. Antônio Fagundes chega a constranger com a figura do pai que se mostra triste por não ter tido uma relação mais próxima com o filho, e chega a um nível de vergonha alheia absurdo na cena da igreja quando encontra Caveirinha (Marco Sorriso) e eles discutem sobre qual seria o Salmo mais adequado para aquele momento. Aliás, a inserção de Marco Sorriso no filme é… hum, digamos apenas que este ator não deveria estar ali, deveria estar fazendo alguma outra coisa.

Pela construção problemática dos unilaterais personagens, até mesmo atuações competentes como as de Cauã Reymond, Caio Blat e Otávio Muller assumem um outro tom, parecem deslocadas, parecem quase tão ruins quanto as demais.

Neste trabalho também se vê mais um exemplo de uma praga que vai se tornando cada vez mais comum no cinema brasileiro, que é o uso quase que ininterrupto de trilhas sonoras sublinhativas. Em Alemão, a trilha bastante óbvia e sem criatividade de Guilherme Garbato e Gustavo Garbato, está presente por tempo demais, assumindo um papel decorativo, realizada de maneira preguiçosa, burocrática, claramente pensando no bem estar do público, tirando a crueza das situações, e assim colocando o filme num mar homogêneo sem fim.

Se não bastasse isso, o rumo pra onde as coisas vão no final é digno de aula de curso de cinema sobre como seguir todos os clichês possíveis para terminar um filme que diz ser tenso. O trabalho tem outras falhas, vai cansando com o passar do tempo, apresenta erros no desenvolvimento dos personagens, mas nenhum outro defeito se compara a saída encontrada pelo roteiro para explicar as motivações de cada um para terminar com tudo, como quando um personagem pede pra entregar uma medalha pro outro, discursos sobre amor, perda, minha vida já tá uma merda mesmo, salmos, redenção, e sucessões de atitudes inverossímeis… As soluções mais batidas, mais ordinárias, e mais “já vi isso várias vezes em muitos outros filmes” são utilizadas no desfecho, que terminam o filme da pior maneira possível.

Talvez o lado mais triste da questão é ver um diretor como José Eduardo Belmonte, que já fez um longa do quilate de Se Nada Mais Der Certo (2009), fazer um filme tão ordinário e sem identidade. Até torço para que haja uma mudança de rumo, que o cinema brasileiro ganhe grandes produções de outros gêneros, e que alcance ótima bilheteria, mas para isso não é necessário que se faça tantas concessões, pois se for assim, só vai mudar o gênero, mas a qualidade permanecerá a mesma.

NOTA: 5,0

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