Tentando alcançar o sucesso de The Handmaid’s Tale e seu desempenho no Emmy, Alias Grace é a mais nova produção da Netflix. Também baseada em um livro de Margaret Atwood, a série possui recursos narrativos marcantes da autora como a importante presença feminina e discurso religioso questionável.

Com oscilações entre passado e presente, a trama apresenta a história de Grace Marks (Sarah Gadon), uma criada acusada de assassinar seu antigo patrão Thomas Kinnear (Paul Gross) e a governanta Nancy Montgomery (Anna Paquin). Quinze anos após ser presa, o médico Simon Jordan (Edward Holcroft) se dedica a descobrir se a jovem foi, de fato, autora do crime. É a partir deste enredo que a série propõe ao espectador pensar sobre a influência social na construção da identidade, na construção da figura feminina.

Logo nos primeiros minutos, um importante fator narrativo é apresentado para o espectador: o pensamento de Grace. A série adota a técnica de contraste entre as ações sutis que a suposta assassina realiza e o teor crítico de seus pensamentos. Este paralelo cria a sensação de que a personagem em questão é alguém de conduta questionável, seria esta questionável o suficiente para matar duas pessoas?

A pergunta que permeia a série durante os seis episódios se torna apenas um cenário para os acontecimentos narrados ao médico Jordan. Este, por sua vez, é o personagem masculino com maior destaque na trama, o que nem sempre é bem demonstrado, suas motivações parecem não corresponder às atitudes e mudanças de personalidade apresentada até o capítulo final. O principal exemplo disto está presente na relação entre Jordan e Grace, que se desenvolve de forma tão superficial que acaba justificando a falta de química entre ambos.

Para a ambientar o cenário do século 19, o design de produção e a trilha sonora se tornam fatores indispensáveis, criando uma atmosfera com pequenas doses de suspense em meio ao drama proposto. A inserção de detalhes visuais como as colchas costuradas por Grace e seus figurinos é bem realizada, ainda que a caracterização durante as passagens de tempo não seja realmente efetiva em deixar seus personagens mais maduros, entregando tal aspecto às atuações bem executadas.

Dentre a história que é contada e seus acontecimentos subsequentes a relação entre a figura feminina e a sociedade se torna constante na maior parte da série. Desde a filha explorada pelo pai até a assassina notória, Grace descobre as dificuldades de ser uma mulher em sua posição. Esta descoberta ocorre não apenas por meio das situações que lhe envolvem, como também por meio daquilo que observa acontecer com outras personagens.

O roteiro de Sarah Polley, por sua vez, corrobora com as atuações ao realizar uma excelente criação de personagens femininas, com destaque para Nancy Montgomery e Mary Whitney (Rebecca Liddiard). Ao apresentar as características e realidades distintas dessas duas personagens, Grace descobre que, de certa forma, a história dessas mulheres se aproxima uma da outra, assim como se aproxima de tantas outras que passam por situações semelhantes.

Todas estas personas possuem motivações e atitudes bem justificadas no decorrer da trama. Aqui o fato mais importante é mostrar por meio dos flashbacks como essa construção social não é apenas um parâmetro para Grace, como também exemplos concretos do julgamento realizado sobre a presença feminina. Um contexto que pode, ao mesmo tempo, reduzir mulheres a uma posição social e definir seu caráter de forma precipitada.

Esta realidade afinal, não parece muito distante: homens influenciando no futuro de mulheres; condições de encarceramento deploráveis; discurso religioso inflamado e a criminalização do aborto. Ao levantar tais questões, a série se aproxima da ficção distópica apresentada em The Handmaid’s Tale, porém, diferente desta, tem dificuldades na direção para transpor a importância necessária em determinadas cenas. Isto ocorre principalmente, nos momentos que Grace evita lembrar, como o tempo que passou no hospício e o próprio dia do assassinato em questão.

Alias Grace pode não possuir o mesmo impacto e popularidade presente nas atuais séries de streaming, mas definitivamente, vale a pena ser assistida por suas discussões e temas pertinentes, que mesmo após dois séculos, ainda se mostram atuais.

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