Atuante na área audiovisual há mais de uma década, Allan Gomes já participou de diversos curtas-metragens locais, exercendo variadas funções. Como diretor, foi premiado no Festival Um Amazonas, em 2005, com o filme No Hollywood, e levou a estatueta de Melhor Diretor do Festival Curta 4.2, em 2006, com o filme Além da Vida. Também atuou como mediador do projeto “Inventar com a Diferença” da Universidade Federal Fluminense em parceria com a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, trabalhando a questão de Cinema e Direitos Humanos, em Manaus.

Agora, Allan Gomes se prepara para lançar o seu novo curta-metragem, intitulado Gritos da Noite. Ele será exibido, junto com outros nove curtas amazonenses, numa sessão especial no Cinemark, no próximo dia 23 de fevereiro, num evento promovido pela Amacine Futuros Cineastas. Nesta conversa com o Cine Set, o produtor audiovisual conversou sobre seu novo trabalho e, principalmente, quanto a importância da exibição dos filmes para o crescimento da atividade cinematográfica no Estado.

Cine Set: Primeiro, fale um pouco sobre o filme. Do que trata a história?

Allan Gomes: Bom, Gritos da Noite é um curta-metragem de ficção. É a história de três adolescentes – André, Marcela e Lucas – que resolvem passar um fim de semana no sítio dos avós de um deles. Acontece que, durante esse passeio, eles vão se deparar com forças ancestrais e, para tentar entender com o que estão lidando, contam com a ajuda de um mateiro da região.

Cine Set: Se encaixa, então, no gênero terror?

Allan Gomes: Acho que é mais para o suspense. A tensão está sempre sugerida, nada é gráfico.

Cine Set: Fale um pouco sobre a produção. Quando foi rodado? Quem são os atores?

Allan Gomes: O Gritos da Noite foi contemplado com o edital Proarte de 2013 e o edital de apoio ao Audiovisual da Manauscult em 2014. A verba foi disponibilizada no final de 2014, e em 2015 demos início à produção. O elenco é composto por Gabriel Lummertz, Henrique Mathias, Manuella Carvalho e Rafael César. Foi rodado entre maio e junho de 2015, e as filmagens levaram cinco dias. Foi uma verdadeira imersão. Levamos toda a equipe pra ficar hospedada no sítio que serviu de locação e passamos essa semana juntos e vivendo um pouco daquele ambiente de floresta e mata fechada.

Cine Set: Onde foi rodado?

Allan Gomes: Eu não lembro do nome do sítio, mas foi no Puraquequara a maior parte das cenas. Tivemos uma cena filmada num apartamento no centro de Manaus.

Cine Set: Qual foi o maior desafio para a produção?

Allan Gomes: Nenhum… Eu acho que foi um trabalho bem tranquilo. Estávamos focados.

Cine Set: Tiveram ajuda de alguma instituição ou empresa, na parte técnica? Na fotografia ou na montagem?

Allan Gomes: Contamos com parceria e apoio cultural da Makro Vídeo, da Biosphere Records (de Boa Vista), da 602, do Castanheira Estúdio e da F/2 Filmes. Além de o curta ser uma co-realização entre Tucupi Produções e Picolé da Massa.

Cine Set: Você mencionou que seu filme é mais um suspense… Foi influenciado por algum cineasta ou filme na hora de conceber a história ou filmá-la?

Allan Gomes: Não necessariamente. Quando criamos esse roteiro, eu e o Zeudi Souza estávamos mais interessados em evocar o hábito comum, na região, de compartilhar histórias de terror, ataques de lendas, causos, “misuras” (risos). Existe a presença de uma lenda, que é o Anhangá, mas melhor dizendo, quando iniciamos o roteiro, o filme seria basicamente sobre um ataque dessa entidade indígena, o Anhangá. Porém, no decorrer do projeto fui fazendo opções estéticas que deixaram isso cada vez mais de lado.

Cine Set: Então não é sobre nenhuma lenda específica?

Allan Gomes: Hoje, pode-se dizer que é mais um filme sobre a relação de uma juventude urbana em confronto com forças ancestrais e o deslocamento de perspectiva deles. Optei por ir por esse caminho justamente porque eu não tenho pesquisa nos saberes indígenas, não faria uma abordagem justa. Então é um reflexo até mesmo de nós, criadores, com relação a esse mundo: somos pessoas com uma vivência, sobretudo, urbana, lançando um olhar sobre aspectos da cultura indígena. Nesse caso, o Anhangá.

Cine Set: E sobre a exibição… Vocês vão fazer um lançamento?

Allan Gomes: Vamos exibir o filme pela primeira vez ao público no dia 23, no Cinemark, juntamente com uma seleção de outros curtas amazonenses. Ainda não tenho a lista, mas quem está organizando é o Zé Leão. E também vamos a Boa Vista fazer um lançamento lá, e é quando queremos organizar uma mostra de curtas amazonenses para estabelecer esse intercâmbio de produções. Nesse sentido, tenho como objetivo o lema cineclubista: filmes foram feitos para serem vistos.

Cine Set: Soubemos que você um dia mencionou que queria tanto que seu filme fosse visto que poderia até levar uma cópia para a casa do interessado e fazer um bate-papo. Ainda pensa em fazer isso?

Allan Gomes: (Risos). São provocações sobre o sistema de distribuição. Não é que eu queira tanto ser visto que seria capaz de fazer isso, mas é que pra fazer um filme circular. Eu não espero as janelas tradicionais de festival, de sala adequada. Tanto que chamei de “On demand”, que é outra provocação sobre a distribuição pela Internet.

Cine Set: Você realmente quer buscar opções? Quais caminhos você acha que seriam viáveis para exibir os filmes e fazer com que eles alcancem um maior público?

Allan Gomes: Essa exibição que estou planejando em Boa Vista vem disso. O Claudio Lavôr, responsável pelo som direto e trilha sonora original do filme, é de lá, e eu falei que queria levar o filme pra fazer o lançamento lá. Mas aí eu não vou ter todo esse desgaste e levar um único curta. Estou conversando com outros realizadores e convidando-os a mandar seus trabalhos pra gente exibir lá. Não tem nenhum fechado ainda!

Cine Set: Planeja exibir pela internet também?

Allan Gomes: Pela Internet eu acho mais complicado num primeiro momento. Porque tira um pouco do impulso para as seleções em festivais e também porque fica muito disperso… Assim, as pessoas quando vão numa sala de cinema, eu sei que naquele dia umas, sei lá, 100 pessoas viram o filme. Na Internet, ele pode até atingir umas 10 mil pessoas, mas isso pode levar meses, anos. É difícil contabilizar, ter feedback. Então a prioridade são exibições presenciais, e quem sabe daqui um ano disponibilizar online.

Cine Set: Para terminar… Qual a sua opinião sobre as opções tradicionais de exibição de curtas locais? Antes tínhamos a vitrine do Amazonas Film Festival, ano passado tivemos a mostra, há várias premieres… Ainda assim, você acha que são suficientes?

Allan Gomes: Com certeza não são. Mas aí reflete nossas políticas públicas para o audiovisual em que o foco é apenas na produção. Dificilmente pensa-se em distribuição, pesquisa, preservação. Tem muita coisa produzida há dez anos que, se tu fores procurar para ver hoje, vai ter muita dificuldade de encontrar. Eu nunca achei que o AFF fosse uma vitrine importante. Que filmes locais se destacaram lá e tiveram uma boa carreira depois? Com certeza, os que circularam em outros festivais tiveram um grande empenho dos próprios realizadores, porque o AFF em si não proporcionava essa integração com as outras cenas.

Ainda sobre festivais, é curioso lembrarmos só do AFF e nos sentirmos viúvos dele, sendo que há uns 8 anos atrás tínhamos muito mais festivais e mostras. O que morreu não foi só o AFF, mas também perdemos a Mostra Etnográfica, o FAF Curta Brasil, o Catadores de Imagens, a Semana do Audiovisual, o FestCine… Perdemos muitas janelas de exibição justamente num momento em que demos um salto na qualidade do que é produzido. Ainda assim mantêm-se o UM Amazonas e o Curta 4, sendo um ótimo celeiro de ideias e novos talentos.

A Mostra de Cinema do ano passado foi um momento maravilhoso em que os realizadores se organizaram e conseguiram ocupar o vácuo de um festival de fim de ano, mas sinto falta de um debate pós-produção, de fazermos uma avaliação com apontamentos sobre uma nova edição e planos para edições futuras. Torço pra que se mantenha e que cresça. Que vá mais para a periferia.

Para finalizar, essa questão de exibição é essencial fomentarmos uma cena cineclubista na cidade. Mesmo que seja para fazer sessões com 10 pessoas, é muito importante colocar os filmes para serem exibidos. Manaus tem dois milhões de habitantes, não dá para se contentar com exibir para 100, 200 pessoas em um festival por ano.

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