“Uma comédia romântica musical sobre relacionamentos modernos” – essa é a frase que estampa os cartazes do filme ‘Ana e Vitória’. Apesar de parecer óbvia a intenção do filme em apresentar a trajetória musical do duo formado por Ana Caetano e Vitória Falcão, essa frase descreve bem as escolhas adotadas pelo roteirista e diretor Matheus Souza.

Enquanto o esperado era ver como o duo vindo do interior do Tocantins conseguiu chegar ao topo das canções nas rádios e ganhar um Grammy Latino, o filme apresenta incontáveis relacionamentos na tentativa de apresentar as meninas. Essa escolha não é necessariamente ruim para o longa, mas deixa a desejar quando pensamos sobre a construção realizada em torno de suas personagens.

As questões relativas a carreira de Ana e Vitória sempre aparecem em transições temporais ou são citadas no meio de diálogos. Em contrapartida, vários romances preenchem a vida das duas em tramas que se estendem até os minutos finais. Claro que essa opção não aponta defeitos explícitos ao longa, mas a impressão é de que o filme seja apenas mais uma comédia romântica, e que outras atrizes poderiam estar protagonizando uma história que, até então, era única.

Provavelmente, essa escolha foi feita tendo em vista o público adepto ao filme, o que, afinal, acaba trazendo bons aspectos para a trama. Um dos assuntos mais comentados em torno de Ana e Vitória é a sexualidade das duas, se elas seriam namoradas ou não. No filme, os intitulados “relacionamentos modernos” se referem à bissexualidade de ambas, o que é demonstrado de forma quase educativa, mas com uma boa representação para seu público.

Apesar das deficiências, saber quem é seu público-alvo permite um diálogo direto com ele. Assim, o uso de aplicativos, gírias e tantas outras falas comuns ao público jovem passam a ilustrar a narrativa, diálogos e entram em seu aspecto mais interessante: a visualidade. A carga de elementos visuais lembrando a tela de celular e aplicativos é quase que reconfortante para o espectador, levando-o a se identificar com os acontecimentos. Para além da consagração visual, estes recursos também acabam deixando o filme datado, uma preocupação que passa longe do roteiro.

As partes cômicas do filme, apesar de pretensiosas, acabam acontecendo em algum momento da trama. É quase uma vitória por insistência, por tentativa: uma hora dá certo. Porém, o esforço é digno de méritos: o humor direcionado consegue dar o tom para os infortúnios românticos das duas e para suas personalidades individuais, que ficam bem definidas.

Se por um lado a carreira é deixada para trás, por outro, a música continua presente na vida das duas. Para além do aspecto comercial, já que o CD ‘O Tempo é Agora’ foi lançado logo após a estreia do filme, com toda trilha sonora nele, o esforço de Rafael Langoni e Tiago Iorc na produção musical é perceptível.

Mesmo para os haters de filmes musicais, a trilha sonora de ‘Ana e Vitória’ soa agradável. Com ritmos compassados e letras simbólicas, as inserções sonoras se tornam compreensíveis e conseguem dar ênfase nos sentimentos transmitidos pelas cenas, se tornando verdadeiros diálogos. É claro que existem limitações nesse aspecto: os recursos visuais utilizados nos quase videoclipes passam a se repetir algumas vezes, deixando de lado a criatividade.

Para acompanhar a delicadeza de suas canções, a câmera se estende sobre as personagens e prolonga diversas cenas. Nesse aspecto, a fotografia é essencial para que o filme funcione e seja compreensível para o público que não é seu espectador principal.

Apesar da carreira acelerada em detrimento dos relacionamentos que se estendem, ‘Ana e Vitória’ apresenta um ótimo filme para os fãs da dupla e uma boa produção para o público em geral. Em grande parte do longa, o fator comercial passou despercebido e a proposta de comédia romântica, ao que tudo indica, foi bem aceita pelos fãs que já se perguntam: “quando será o próximo filme?”.

Nota: Talvez por escolha pessoal, o cantor Tiago Iorc não foi sequer citado no longa, sendo ele um dos principais motivos para a descoberta do duo por seu produtor Felipe Simas. Este, por outro lado, aparece como o mentor da dupla, porém se mantém silenciado quanto ao cover que Ana e Vitória teriam realizado da música de Iorc, que gerou a grande descoberta de Anavitória.

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