ALERTA DE SPOILERS – NÍVEL MÁXIMO

Em determinado trecho de “Aniquilação”, a física Josie (Tessa Thompson) está numa encruzilhada motivacional entre a psicóloga Ventress (Jennifer Jason Leigh) e a bióloga Lena (Natalie Portman). As três mulheres estão numa zona chamada “The Shimmer”, gerada pela queda de um meteorito no litoral estadunidense, que altera drasticamente todos os fenômenos naturais em seu diâmetro. Desde que entraram, elas já perderam duas companheiras de equipe e correm sério risco de perder a sanidade.

Josie contempla suas duas opções e ambas envolvem seguir em direção do local da queda do meteorito: chegar lá e observar o que está causando tudo isso (como Ventress) ou chegar lá e lutar contra o que está causando tudo isso (como Lena). Com uma alteração em seu DNA lentamente começando a fazer flores brotarem de seus braços, ela se entrega a uma terceira alternativa, se transformando em uma planta com forma humana.

Lena, a protagonista do filme, percebe a ação em choque e, como ela, nós da plateia somos confrontados com a grande questão de “Aniquilação”: o que nos configuraria como humanos se tudo o que nos define como espécie fosse erradicado? O diretor usa essa premissa para surpreender, assombrar e confrontar o espectador, na tradição de ficções científicas clássicas como “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e de grandes expoentes modernos, como o seu próprio “Ex Machina – Instinto Artificial”.

O maior predecessor do seu novo projeto, no entanto, é “Stalker”, de Andrei Tarkovsky. As premissas de ambos os filmes são praticamente idênticas: um evento de origem extraterrestre gera uma zona de exclusão na Terra, onde fenômenos inexplicáveis acontecem e uma expedição, a qual os longas acompanham, entra por sua própria conta e risco, com graves consequências psicológicas para seus membros.

Em “Stalker”, Tarkovsky estava interessado, não nos elementos de ficção científica da história (ele ignorou boa parte da trama do livro “Piquenique à Beira da Estrada”, que lhe serviu de base), mas nas motivações de seus protagonistas diante do elemento fantástico, no caso, um quarto que realiza os desejos mais íntimos de seus visitantes.

Garland fez a mesma coisa com seu material-base (sua adaptação altera diversos pontos da trama e ignora as sequências do livro homônimo de Jeff VanderMeer) e também procura investigar o interior de suas personagens, mas não se atém ao psicológico. Em seu “Shimmer”, não se pode confiar em nada, nem na integridade física.

Em uma sequência chocante, o soldado Kane (Oscar Isaac) abre a barriga de um companheiro de expedição para revelar seus órgãos se mexendo como tentáculos dentro de seu torso. A zona, descobre-se, reflete tudo em seu domínio, da luz ao DNA – ou seja, a cada minuto que passam lá, os membros da expedição se tornam híbridos com cada planta e animal na área.

A aniquilação do título passa a equivaler, não a uma destruição total da vida na Terra, mas a uma explosão evolutiva que avassalaria a condição humana como a conhecemos. Grande parte da construção do cânon da nossa psiquê e da nossa filosofia vem de uma ideia de unidade e de uma dicotomia entre o ser pensante e o entorno. Na área de atuação do meteorito, essa separação não existe e tampouco há unidade: todos os seres lá são múltiplos e fragmentados, hibridizando-se com tudo ao redor e perdendo (ou partilhando) a consciência no processo.

Garland constroi com isso dois tipos de terror: o físico, vindo do medo da perda da integridade do corpo, e o psicológico, que advém da perda da unidade mental. Ambos atingem fortemente Kane, que não suporta a fragmentação da sua mente e a multiplicação do seu ser dentro do “Shimmer” e comete suicídio em uma sequência de puro horror, somente para ser sobrevivido por uma duplicata sua segundos depois.

O pulo do gato é que o roteiro se mostra deliberadamente ambíguo ao não necessariamente vender a nossa fragmentação como algo intrinsecamente ruim. Claro, ela é a grande fonte de terror do longa, largamente por ser um reflexo de um temor nosso, humano.

É notório, no entanto, como o filme explora a noção de que, longe da presença em massa do homem, a hibridização entre espécies e o desenvolvimento de novas consciências é, em si, a possibilidade de algo novo e harmonioso. As flores e animais fantásticos, renderizados em tons brilhantes e coloridos (triunfo do departamento de efeitos visuais), pintam a zona quase como um Éden com anabolizantes.

Em grandes números e munidos de um comportamento que o exclui do seu entorno, o impacto ambiental do homem é avassalador. Com o fim do espaço que separa o ser humano dos demais, um novo mundo conectado é despertado – porém, o preço, o filme pondera, é a completa destruição da nossa noção de existência.

 

Nesse sentido, o filme faz uma excelente sessão dupla com o telefilme “The End of Evangelion”, que serve de epílogo para o excelente anime “Neon Genesis Evangelion” e que também propõe a renegação do self como um caminho para o equilíbrio. Nele, diante da incapacidade dos seres humanos de compreenderem e atenderem os anseios uns dos outros, uma entidade inicia um processo de retornar todos os seres humanos ao estado da sopa primordial, unindo suas consciências.

É nesse pavor, baseado numa ideia de morte não-física, mas psicológica, que reside o terror de “Aniquilação”. Ao considerar a validade de outros seres, de outras formas de vida e de outros níveis de existência, ele relativiza a nossa espécie e a atual prelazia que possuímos na cadeia evolutiva do planeta — prelazia essa que pode sim ser alterada. E se isso não te assustar, talvez o medo de acordar com braços de planta e boca de crocodilo talvez o faça.

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