Há uma parcela de espectadores que provavelmente já vai estar emocionada com “As Memórias de Marnie” antes mesmo do filme começar – algo atípico para um longa que não pertence a uma franquia já consolidada. A produção é a última a sair do forno do Studio Ghibli antes de seu hiato e, do jeito que a situação está, pode muito bem ser o encerramento da carreira da produtora.

O acontecimento seria uma pena, já que o coletivo foi um dos mais criativos da animação japonesa nos últimos 25 anos e emplacou vários sucessos no Ocidente, entre eles, o oscarizado “A Viagem de Chiriro”, dirigido por Hiyao Miyazaki, cineasta com o qual o estúdio é mais associado e cuja aposentadoria foi um dos motivadores do hiato.

Todo esse drama de bastidores serve apenas para ilustrar a responsabilidade sobre “As Memórias de Marnie” que nada tem a ver com a sua trama ou estética. No entanto, mesmo considerando esses fatores, o filme se sai bem, mantendo o equilíbrio entre visuais impecáveis e uma história que mantém um potencial de identificação mesmo em seus momentos mais fantasiosos.

Apesar de tomar certas notas dos manuais de roteiro americano (em dois minutos de filme, somos introduzidos tanto à atividade preferida da protagonista quanto à sua fragilidade), vale lembrar que este desenho é decididamente oriental, com um ritmo decididamente particular, que leva seu tempo até apresentar todos os seus pontos principais. Apesar disso, talvez por se tratar da adaptação de um livro inglês, o filme não pesa a mão nos elementos especificamente nipônicos da trama, não exigindo muito conhecimento sobre a cultura japonesa para total compreensão.

É saudável não abordar esse filme com expectativas, por isso, nem vou comentar sobre a trama, mas algumas coisas são particularmente dignas de nota:

  1. Sonoridade

Sabe toda aquela discussão sobre termos mais papeis para mulheres no cinema e mais pontos de vista femininos nos roteiros em Hollywood? A galera poderia pegar umas dicas com o pessoal do Ghibli: “Memórias” é dominado por mulheres e a maioria dos homens que aparecem não adicionam expressivamente à trama. Liberado da pressão de fazer a protagonista ter um leve ~crush~ em alguém, o roteiro nos entrega uma menina independente e cheia de personalidade.

  1. Temática

Desenhos japoneses sempre tiveram mais liberdade de tratar sobre temas que as animações ocidentais mainstream consideram espinhosos, resultando em personagens mais multifacetados, mesmo se tratando de crianças, e “Memórias” não é exceção. A produção merece louros por não se esquivar da dificuldade em fazer um filme protagonizado por uma menina com uma depressão severa e emocionalmente inconstante, correndo o risco de torná-la antipática aos olhos da plateia. No final das contas, é a humanidade dela que segura o filme inteiro.

  1. Truque na manga

Serei curto nesse ponto, deixando-o como um aperitivo: seja lá sobre o que você acha que o filme é na meia-hora inicial, ele não é sobre isso. É impressionante como o longa consegue manter oculta sua real história por tanto tempo, entregando o jogo em um momento que seria a glória da carreira de qualquer roteirista #fikdik.

De modo geral, o roteiro acertado e o look incrível (preste atenção aos detalhes cenários) tornam “As Memórias de Marnie” um filme muito satisfatório, a despeito de sua posição na filmografia do Ghibli. Ele não funciona como uma apoteose do estilo da produtora pois não foi pensado dessa forma; ele simplesmente era o último filme ainda em produção quando o hiato foi anunciado. Para quem espera material fantástico do calibre de Miyazaki, é recomendável que assista os filmes dele. Para quem quer uma história capciosamente simples capaz de emocionar, pode ver essa daqui.

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