Lançado no festival “É Tudo Verdade” deste ano, o documentário “Tudo Por Amor ao Cinema” mostra a trajetória do amazonense Cosme Alves Neto. Participante importante do trabalho cineclubista no estado, ele se consagrou ao comandar a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Como se ainda não bastasse toda essa atuação, Cosme salvou muitos filmes das mãos dos militares durante o regime ditatorial no Brasil. O cineasta amazonense Aurélio Michiles traz toda essa história em “Tudo Por Amor ao Cinema”, a partir de figuras simbólicas da produção nacional, como Eduardo Coutinho e Nelson Pereira dos Santos.

Nesta entrevista ao Cine Set, o diretor fala sobre o processo de filmagem do documentário, a chance do filme ser exibido em Manaus e o atual cenário cinematográfico do Amazonas.

CINE SET – Quanto tempo durou o processo de produção e filmagem de “Tudo Por Amor ao Cinema”? Quantas entrevistas foram realizadas e quais os locais onde aconteceram as filmagens?

Aurélio Michiles Foram cinco anos desde a formatação do projeto (pré-roteiro, negociação com os herdeiros(as) para uso da imagem do personagem) até ganhar o edital da Petrobras e depois mais outros dois (Governo e Prefeitura de São Paulo) que viabilizaram a sua realização. Filmamos em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Mossoró, Manaus e em Havana (Cuba). Conversamos com mais de 80, mas gravamos depoimentos de 67 pessoas que conviveram com o Cosme em momentos diferentes ou mesmo ao longo da sua vida, desde a infância a sua vida profissional.

CINE SET – Quais depoimentos obtidos durante as filmagens mais o emocionaram? Houve algo que o senhor não sabia da história do Cosme Alves Neto que o surpreendeu durante o processo de realização do documentário?

Michiles Cada gravação de depoimento revelava poderosas emoções. Tive um relativo convívio com o Cosme, ele mesmo incentivou-me a realizar o filme “O Cineasta da Selva”, cinebiografia do Silvino Santos. Mesmo assim, não posso dizer que fomos amigos íntimos. O Cosme incentivou muitas pessoas, sobretudo jovens e pretendentes cineastas, portanto a sua generosa relação comigo não era nenhuma novidade. Esta foi uma das descobertas. A mais importante, entretanto, foi saber que ele dedicou a sua existência pelo cinema, inclusive ao ponto de arriscar a própria vida ao exibir e guardar filmes perseguidos durante o período da ditadura, quando foi preso e barbaramente torturado por duas vezes (1964 e 1969).

Cosme Alves Neto

CINE SET – Para o senhor, qual foi o maior legado do Cosme Alves Neto para o cinema brasileiro?

Michiles Com certeza, o seu amor pelo cinema, acima de tudo.

CINE SET – O Golpe Militar completou 50 anos em 2014. O senhor acha que relembrar a história do Cosme Alves Neto também é uma forma de relembrar aquele período político do Brasil?

Michiles Sim, mas o fato do filme ficar pronto neste ano quando se completa meio século deste triste e nefasto episódio da vida brasileira foi uma coincidência. Tínhamos o ano de 2013 como a data de estreia de “Tudo por Amor ao Cinema”. As questões técnicas relacionadas à finalização e a complexa negociação dos direitos de imagens impediram o lançamento no ano passado.

CINE SET – Qual a chance de “Tudo Por Amor ao Cinema” ser exibido nos cinemas de Manaus e em algum festival? Já há alguma data para ser lançado comercialmente no país inteiro?

Michiles Uma das coisas mais desejadas por mim em relação ao “Tudo por Amor ao Cinema” é exibir em Manaus, Afinal, a cidade é o território gênese-afetivo desta história. Infelizmente, Manaus não possui uma excelência de salas de cinemas para filmes com produções mais alternativas. Algo inacreditável para uma cidade com dois milhões de habitantes com várias universidades, centro de pesquisa como o Inpa, sem falar que é uma das poucas cidades do mundo que têm como referência simbólica, cartão-postal, um palácio em homenagem às artes e a cultura como o Teatro Amazonas. Mesmo assim, por teimosia e amor à minha terra, estamos procurando furar esse bloqueio, afinal, “Tudo por Amor ao Cinema” é dedicado aos meus pais.

CINE SET – Como o senhor analisa o atual momento da produção de cinema no Amazonas? Algum artista ou filme chamou sua atenção nos últimos anos?

Michiles – O paradoxo do nosso estado, mesmo não existindo um circuito de cinema para filmes de produção independente, é ter, nos últimos anos, o surgimento de produções de realizadores amazonenses. A própria Universidade Federal do Amazonas (Ufam) através do Navi (Núcleo de Antropologia Visual) tem hoje uma equipe de pesquisadores dedicados a interpretar a história do nosso cinema. A Universidade Estadual do Amazonas (UEA) implantou um curso que pretende dar prioridades em formar profissionais qualificados na área do audiovisual Mas para fazer filmes não basta apenas um diploma de curso superior, mas, sobretudo, o exercício em assistir filmes, aprender com os mestres, os clássicos do cinema. Não podemos esquecer jamais que a atividade cinematográfica existe no Amazonas desde o trabalho do pioneiro Silvino Santos (1886-1970). Ele viveu e morreu em Manaus, produzindo uma notável e extraordinária filmografia, até hoje, insuperável.

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