“Foi no reinado de George III que os personagens mencionados viveram e lutaram.

Bons ou maus, feios ou belos, ricos ou pobres, eles são todos iguais agora”

A epígrafe encerra com implacável mordacidade uma das experiências mais desconcertantes que o cinema tem a oferecer: Barry Lyndon, do diretor americano Stanley Kubrick (1928-1999).

Lançada em 1975, a obra teve a mesma recepção confusa e atordoada que os filmes do artista vinham recebendo desde, pelo menos, Lolita (1962). Diferentemente, porém, de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) Dr. Fantástico (1964) ou Laranja Mecânica (1971), que, apesar das dúvidas iniciais, logo encontraram um público e foram aclamados pela crítica, a tragédia picaresca de Kubrick até hoje desperta reações que vão da muda incompreensão até o ostensivo desdém. É, certamente, o filme mais subestimado do artista em sua fase europeia, quando Kubrick reduziu radicalmente o ritmo para se concentrar em obras cada vez mais elaboradas e provocativas. Mas, enquanto as densas reflexões filosóficas de 2001, a violência levada ao limite de Laranja ou as múltiplas realidades de O Iluminado (1980) parecem fazer bastante sentido para o público, a ironia sutil, o ritmo lento e o tom distanciado de Lyndon continuam sendo difíceis para muita gente.

A ironia é que se trata de um filme tão “kubrickiano” quanto todos os outros. A ideia básica do cineasta sobre a natureza humana – de que trazemos todos uma centelha de destruição, esperando apenas o gatilho ideal – se manifesta mais uma vez, aqui, nas desventuras do personagem-título. Redmond Barry (Ryan O’Neal, de Love Story – Uma História de Amor) é um jovem bonitão em uma família irlandesa de poucas posses, forçado a vagar pelo continente depois de atirar num oficial do exército. No caminho, ele mostra uma admirável capacidade de se reinventar e adaptar-se às situações mais desesperadoras – as quais, por sinal, abundam na Europa do Setecentos, incluindo a Guerra dos Sete Anos, onde Barry luta e deserta de dois exércitos diferentes –, até chegar aos altos escalões da nobreza, como jogador e sedutor profissional. Redmond alcança a glória ao desposar a bela Lady Lyndon (Marisa Berenson, até então uma modelo sem experiência como atriz), ganhando o título nobre de Barry Lyndon, só para pôr tudo a perder com seu franco desprezo pela condessa e o filho dela, Lorde Bullingdon (Leon Vitali).

A trama novelesca (no sentido das novelas literárias do século XVIII, com suas narrativas compactas e cheias de eventos) se transforma, nas mãos de Kubrick, numa meditação pesarosa sobre a mesquinhez e a arrogância humanas. O romance original, do escritor inglês William Makepeace Thackeray, era ruidoso e agitado como uma noite num pub, só agitação e fanfarronices. Kubrick opta por um ritmo lento, compassado, implacável em sua exposição da inevitabilidade dos acontecimentos. Foi a decisão que, provavelmente, lhe custou o desprezo das plateias: o que promete ser uma história de galanteria e sedutora malandragem, um novo Tom Jones (1963), vira um estudo analítico da estupidez. Analítico, cerebral, mas não sem emoção: da tensão quase insuportável das sequências de duelos (três deles definem a jornada de Barry) ao esplendor romântico das primeiras cenas entre Lyndon e a condessa, com o uso primoroso da música (os arranjos de Leonard Rosenman para as composições de Händel e Schubert ganharam o Oscar), Barry Lyndon é rico em momentos de comoção sincera, não-cínica.

Tudo isso é emoldurado pela ambientação de época mais deslumbrante já concebida para um filme. Se, em 2001, Kubrick inventou um arsenal de efeitos especiais capaz de recriar o espaço no cinema com um realismo até hoje insuperável, em Lyndon esse mesmo esforço serviu para trazer à vida as roupas, os cenários e até a luz do século XVIII. Com suas composições deliberadamente inspiradas em pinturas da época, usando planos estáticos ou em zoom – a câmera só se move em duas cenas no filme inteiro –, Kubrick cria uma atmosfera deliberadamente artificial, enquadrando seus personagens em figurinos e palácios magníficos, mas que mascaram a tensão sempre presente. Kubrick é tão enfático, nesse ponto, que, para alcançar sua visão particular da época, ele conseguiu lentes especiais da Nasa (você não leu errado: a agência espacial americana), capazes de filmar em condições extremamente precárias de iluminação, para rodar as cenas noturnas usando apenas a luz de velas.

O efeito é acachapante: trata-se, provavelmente, de um dos visuais mais espetaculares já criados, e referência para todos os filmes de época que viriam depois. Foi graças ao trabalho superlativo da equipe técnica, aliás, que Barry Lyndon tornou-se o filme mais premiado do diretor: foram quatro Oscars, para Direção de Arte (Ken Adam, Roy Walker e Vernon Dixon), Fotografia (John Alcott, que ainda teve de inventar equipamentos capazes de acomodar as lentes da Nasa), Trilha Sonora (o já citado Rosenman) e Figurino (Ulla-Britt Söderlund e a premiadíssima Milena Canonero, em um de seus primeiros trabalhos).

Mas, tanto ou mais do que na parte técnica, o trabalho de Kubrick com os atores é realmente excepcional neste filme. O’Neal tem sua cota de clássicos setentistas – Caçador de Morte (1978), Lua de Papel (1972) – mas nunca foi considerado um ator expressivo: ele era o James Spader de sua época. Berenson também chegou ao set sem créditos como atriz na bagagem. De algum modo, Kubrick extraiu deles desempenhos brilhantes, intensos, que traem a suposta “frieza” do filme. Cenas como a da corte romântica entre Barry e Lady Lyndon, onde não se diz uma palavra, ou o diálogo dos pais com o filho Bryan, no final, mostram o grande – e pouco lembrado – talento do diretor em inspirar desempenhos memoráveis.

Com tantas qualidades, Barry Lyndon certamente merece ser mais conhecido pelo público. Grandes cineastas não cansam de mostrar admiração – Martin Scorsese e Lars von Trier estão entre os que têm BL entre seus filmes favoritos – e a crítica, nos últimos anos, pareceu finalmente descobrir os valores consideráveis da obra. Particularmente, confesso que Barry Lyndon me comove como nenhum outro filme de Kubrick: os olhos são acariciados pela fotografia deslumbrante, os menores personagens são tornados memoráveis pelo ótimo elenco secundário (quase todo reaproveitado de Laranja Mecânica, como o brilhante Philip Stone, que faria o zelador morto em O Iluminado), e a música – garanto que o Trio op. 100, de Schubert, nunca mais vai sair da sua cabeça. Se é demais eleger um filme do diretor como o “melhor” – como superar, digamos, 2001 ou Dr. Fantástico? –, eu diria que Barry Lyndon, no mínimo, tem que ser considerado para o posto. Sem essa história de filme frio.

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