Em determinado momento de “Beasts of No Nation”, o jovem protagonista compara o cheiro da morte com o doce do açúcar e com a “podridão de um vinho de ameixa”. Essa frase sintetiza bem quem é o menino Agu e em que mundo ele é forçado a viver neste pungente filme dirigido por Cary Fukunaga (em seu primeiro trabalho pós-“True Detective”) e que marca a estreia do Netflix na distribuição de longas de ficção.

“Beasts of no Nation” (que ainda não tem título em português) mostra o horror da guerra sob os olhos de uma criança. Com esse resumo rápido, você que está lendo esta crítica pode pensar que é uma nova leitura de algo já abordado em “Império do Sol’’, mas essa concepção não poderia ser mais equivocada. Nesta produção, vemos um jovem que já nasce e cresce em uma situação deplorável. Em meio ao horror da guerra, o pequeno Agu cria um mundo só seu, se divertindo de forma simples com objetos como um televisor inutilizado.

Infelizmente, o mundo colorido habitado por Agu fica – literalmente, por conta da bela fotografia – cinza ao passo que ele vê a sua família ser dizimada durante a guerra. Único sobrevivente, ele foge e é tomado por um grupo de guerrilheiros. Junto a eles, Agu aprende a matar e vira um pequeno vingador.

Um filme como “Beasts of No Nation” é um risco não só pela história que conta – ainda que fictícia, existem tantas parecidas ao redor do mundo -, mas também porque depende 110% do trabalho de um ator mirim. Aqui, o resultado sai melhor que a encomenda, já que o jovem Abraham Attah entrega um trabalho irrepreensível. Como Agu, ele consegue entregar camadas de medo, inocência e frieza em uma atuação cheia de nuances. Do menino espirituoso e piadista ao rapaz que aprende a dilacerar a cabeça de um homem que implora pela vida, Agu é um personagem muito bem construído pelo roteiro, mas é o trabalho de Attah que nos faz torcer por ele, ainda que tenha cometido atrocidades.

Como o líder do grupo que “adota” Agu, Idris Elba também está impecável. À primeira vista um personagem unidimensional, o “Commandant” também é repleto de confusões internas, evidenciadas principalmente pelo olhar de Elba e pelo seu jeito exageradamente ameaçador de andar. No fundo, sabemos que o Commandant já foi um Agu e que a palavra “medo” também faz parte de seu vocabulário.

Enquanto o roteiro nos entrega personagens fortes e uma história pertinente, o visual do filme parece ser uma extensão dos sentimentos de Agu. Fukunaga (que também assinou a fotografia do longa) sai do amarelo e do verde vibrante que simbolizavam a felicidade do jovem para os tristes vermelho e cinza, que acompanham o menino no campo de batalha. O som do filme também é digno de nota, ao variar entre o ensurdecedor e o silêncio sufocante, que parecem nos colocar dentro da cabeça do protagonista.

O “timing” para o lançamento desse filme parece perfeito, no olho do furacão das discussões sobre refugiados e, no Brasil, sobre maioridade penal (talvez os entusiastas da redução vibrem ao ver um personagem olhar para Agu e dizer que ‘um menino tem mãos para estrangular’…).

O desfecho da produção coloca na mesa uma discussão permanente, ao mesmo passo em que nos deixa com um nó na garganta, sem esperança. “Eu sou um bom rapaz, de boa família”, diz Agu no início do filme. Nós sabemos disso. Infelizmente, o jovem que disse essa frase já nem acredita ou lembra dela. E ninguém vai sofrer mais com isso do que ele.

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