Olho sempre com desconfiança as capas de revistas econômicas como a Exame. Ali estão sujeitos em ternos impecáveis em pose de confiança com os braços cruzados ou a cara de impiedosos. Tudo para contar fruto do sucesso e se tornarem símbolos do triunfo do capitalismo e servirem de verdadeiras inspirações para uma sociedade trabalhadora. Imagino a satisfação no ego do sujeito retratado após a publicação sair em todas as bancas. Jantares em restaurantes chiques, convites para as mais glamourosas festas, negócios aquecidos, viagens internacionais são consequências dessa vida maravilhosa.

O que realmente me intriga, entretanto, é o que está por trás da foto consagradora. Será aquele sujeito tão invencível em tudo? Quais os segredos e os medos de homens assim? Quais características não tão perfeitas possuem? Há limites para pessoas como essas?

Dominique Strauss-Kahn era um desses homens invejáveis: economista e advogado, o ex-ministro da Economia, Indústria e Emprego da França chegou ao auge depois de alcançar a direção do Fundo Monetário Internacional. A glória máxima ainda estava por ser trilhada: DSK pretendia ser presidente francês na eleição para suceder Nicolas Sarkozy. O plano naufragou quando as capas da imprensa econômica acabaram sendo trocadas pelas policiais após ser preso suspeito de estuprar uma camareira de hotel em Nova York.

Abel Ferrara traz essa história para os cinemas em “Bem-Vindo a Nova York”. Filme mostra um banqueiro chamado Devereaux envolvido em orgias com garotas de programa dentro de um hotel da Big Apple. A situação complica após o estupro da camareira e a tentativa de fuga para a França. As consequências dos atos do personagem são analisadas com o passar do filme.

Não é aconselhável acompanhar “Bem-Vindo a Nova York” como a mais pura verdade, pois, o próprio filme indica nos letreiros iniciais que os detalhes dos fatos são sigilosos e muito do que é mostrado acaba sendo interpretações. Isso possibilita a Ferrara trazer a própria versão do acontecimento e optar por deixar o público na companhia de um sujeito sem pudores e viciado em sexo. Há certo sensacionalismo, em especial, nas cenas de sexo no escritório de Devereaux e toda a sequência dentro do hotel, chegando até à beira do cômico à la Calígula na sequência do jantar. A excentricidade dialoga com certa tensão pela impulsividade animal do banqueiro em relação ao tratamento com as mulheres nas relações sexuais, sendo a composição de Gérard Depardieu repleta de grunhidos e olhares indiscretos significativa para elevar o temor por aquilo que virá.

A segunda parte do filme dedicada à prisão pelo estupro e toda a repercussão do caso serve para Ferrara explorar à falta de noção da realidade de gente como Devereaux. Para isso, o cineasta coloca o personagem em uma prisão com paredes desgastadas, completamente nu na frente de policiais, julgado ao lado de um rapaz negro. Evidente que o cineasta espanhol não poupa na abordagem sensacionalista, porém, ajuda a dimensionar como, muitas vezes, pessoas milionárias ficam em uma posição longe da realidade embriagadas pelo dinheiro e poder. Afinal de contas, para quem possui uma vida de excessos o que é a pobreza ou gozar na boca de uma mulher sem o consentimento dela? Mais fácil mandar todos à merda.

Mesmo assim, o capitalismo, nunca irá parar de exaltar seus executivos/banqueiros/empresários de sucesso: capas e reportagens especiais desses sujeitos com fotos em poses de deuses vão se proliferar a todo instante. Esses profissionais serão os modelos para a sociedade buscar inspiração. Compraremos os livros com as fórmulas para o êxito profissional ou pagaremos fortunas por palestras motivacionais. A fórmula perfeita de retroalimentação do sistema para manter a máquina funcionando.

Casos como Strauss-Kahn/Devereaux, entretanto, servem para manchar esse conto de fadas, pois, mesmo que não se queira, eles continuam sendo homens (muito) falhos e podem cometer atrocidades ou simplesmente serem infelizes.

Igual ao mais pobre e vagabundo dos homens.

NOTA: 8,0

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