Clássico de um apaixonado por filmes em preto e branco, “Gritos e Sussurros” é um dos mais poderosos usos de cores do cinema. Tudo isso apenas no quarto filme em cores do diretor, resultado da longa e frutífera parceria entre Ingmar Bergman e Sven Nykvist. A composição do filme predominantemente em tons de vermelho, inspirada nas memórias de infância do diretor, das quais Bergman lembra imaginar a alma como um tecido vermelho, é mais um exemplo da sua arte como extensão indissociável do seu universo pessoal, não apenas pelas suas visões, mas, sobretudo, suas experiências e imaginação.

Em uma isolada mansão, as irmãs Karin (Ingrid Thulin) e Maria (Liv Ullmann) na companhia da criada Anna (Kari Sylwan), velam a irmã mais nova Agnes (Harriet Andersson), com câncer em estágio terminal. Em meio ao sofrimento da irmã pela doença, Maria e Karin relembram suas próprias infelicidades e dor nos seus relacionamentos com os maridos e amantes, bem como entre elas mesmas. Enquanto a empregada perdeu a filha cedo, ela é a única capaz de ser amável com Agnes.

“Gritos e Sussurros” mais uma vez retoma temas anteriormente trabalhados por Bergman. A impossibilidade humana em se conectar verdadeiramente com o outro, a existência fatalmente solitária, argumentos tão bem explorados em Silêncio, voltam ao quadro. Especialmente refletido nas relações frustradas de Maria, Karin e Agnes. Todas com dificuldades em manter vínculos profundos para além das convenções. As irmãs de Agnes são sempre suntuosas, mas incapazes de ajudar a irmã. Os casamentos fracassados e seus conflitos pessoais com os maridos são mascarados, tudo em nome de uma falsa aparência. Existe aí uma possível crítica a hipocrisia e a vaidade burguesa. Maria e Karin se revezam para guardar o sono de Agnes, mas é a criada que alivia a dor da mulher e demonstra alguma piedade.

A agonia dilacerante causada pela doença, sua dor física associada as memórias dos relacionamentos conturbados com a mãe e as irmãs o ponto chave do filme. Mas todas elas sofrem. É a agonia comum a única coisa compartilhada entre as quatro mulheres. A dor gritante impossível disfarçar, assim como as angústias internas parte da vida humana, é representativo no vermelho pulsante da sequência, nos close-ups, como também nas cenas do padecer de Agnes – majestosamente performada por Harriet Andersson. Aliás, as interpretações das atrizes é um assombro.

A importância dada a cada detalhe visual foi essencial para o resultado. Sendo um filme baseado em atmosfera, como pontuou o próprio Bergman, “Gritos e Sussurros” expressa, antes de tudo, pelo visual. A composição dos ambientes, a caracterização das personagens traça perfeitamente as relações criadas e as particularidades das personagens. A construção do clima acompanha cada cenário, vestuário e mobília. A mansão palco dos tormentos das irmãs ao mesmo tempo que vibra, é infrutífera. Mas grandioso de experienciar. “Gritos e Sussurros” dá razão ao sucesso que foi e a obra-prima que é.

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