Definido por muitos como um dos filmes mais eróticos feitos por Ingmar Bergman, “Mônica e o Desejo” vai muito além da exploração sexual dos seus protagonistas. Encerando a primeira fase do diretor, caracterizada por trabalhos majoritariamente centrados em jovens amores da classe trabalhadora, ademais de especialmente influenciado pelo neorrealismo italiano. Esses são temas que se repetem ao longo de toda sua filmografia, porém quase integralmente concentrados nos seus doze primeiros longas.

O roteiro baseado no romance do sueco Per Anders Fogelström, conhecido por retratar o proletariado da época, desdobra a história de Monika Eriksson (Harriet Andersson), uma garota de dezessete anos empregada de uma quitanda, que como bem diz o título, é marcada por seus desejos. Sejam eles de uma vida livre, afortunada e cheia de paixão. Depois de uma briga com o pai, que ameaça bater na jovem, ela foge com o namorado Harry Lund (Lars Ekborg) no barco do pai do garoto em uma aventura pelo arquipélago de Estocolmo. Infelizmente, a falta de responsabilidade gera consequências, a gravidez inesperada de Monika obriga o casal a voltar para cidade e encarar o casamento. Contudo, a garota parece nunca conseguir se adaptar a essa realidade.

Antes da fuga do jovem casal, entende-se os anseios desses adolescentes. Os dois produtos de lares disfuncionais: Lund é órfão de mãe, sofre com a distância do pai e a solidão, enquanto Monika vive uma realidade instável dado o alcoolismo e violência paterna. Seus pais parecem confortáveis com a situação na minúscula moradia que acomoda a família, o que revolta a garota. Ela ainda sofre constantemente assédio físico no trabalho. Apesar de duramente ter aprendido a lidar com a situação naturalizada no seu contexto, ela reage. Monika é inconformada, mas ela tem todos os motivos para isso.

Harry é o passe para a adolescente ser finalmente livre. Já ela, é o fôlego necessário na vida do garoto. O casal desfruta a emancipação juntos de uma vida sem responsabilidades além de satisfazer as próprias vontades. Eles debocham da antiga realidade em uma sociedade que só os repele.

“A primavera chegou. Você notou?”

Para Bergman, as paisagens naturais são sempre palco desse exercício pleno da vontade. Seja a intensidade do primeiro amor, momentos com um amante ou como aqui, a aventura de fugir com uma paixão das dificuldades que a vida marginalizada impõe. É interessante observar a constante associação feita pelo cineasta do verão com a intensidade da juventude. Seus personagens ambicionam o calor da estação assim como a própria liberdade.

No entanto, com o tempo as consequências resultantes da atitude inconsequente vêm à tona. Monika percebe que a liberdade não lhe trará uma vida farta, assim como sua realidade de operária também não. No fim, eles precisam se render as convenções da existência coletiva.

A gravidez inesperada coloca os jovens nas amarras sociais, casar e trabalhar. Entretanto, Monika rejeita a responsabilidade. Não há qualquer mudança esdrúxula depois da maternidade, pelo contrário, a garota reclama das mudanças do corpo, da impossibilidade de curtir a vida. Não existe o discurso fantasioso do se tornar mãe, onde não existe mais a mulher para além daquele novo ser. A jovem permanece com sede pela liberdade, sonha com roupas, festas, mas sente alívio ao ficar em casa sozinha quando o marido vai trabalhar e a filha ser cuidada pela tia.

Aliás, o desenvolvimento acerca assunto é muito marcante. Diferente da ilusória ideia social, a maternidade como algo sublime capaz de iluminar. Monika não tem naturalidade para a coisa, procura soluções para se esquivar por alguns momentos do árduo trabalho de cuidar de um bebê, em função de continuar sua vida, alimentar suas vontades ou exercer a própria sexualidade. Na narrativa, a maternidade não é usada para impor a mudança de comportamento dela, mas realçar a idealização imposta pela sociedade. Essa ideia é brilhantemente expressa em um dos close-up mais poderosos do cinema. Nas cenas finais, quando a personagem está em um bar e um homem acende seu cigarro, ela olha fixamente para o espectador como quem o desafia. Ali se entende a profundidade daquela mulher.

O declínio do relacionamento do casal diante das convenções burguesas aceitas por Lund acaba gerando dúbio entendimento da figura de Monika. De fato, a garota pode ser vista como fútil, egoísta nas suas relações, porém o olhar mais atento não se deixa levar pela talvez proposital falta de simpatia da protagonista. Monika respeita muito mais a si que aos outros. Ela vive às sombras, mas não aceita o que impõem a ela. Como toda mulher, é antipática pela sua oposição. No seu argumento, a vida já é difícil o suficiente para ser completamente passiva quanto ao próprio destino. O seu inconformismo, confundido por futilidade, fala muito mais sobre a sociedade em que a garota vive, que sobre sua personalidade.

A inquietude sem idealismo dessa personagem é o êxito do filme. A obra antes marcada pela exploração do erotismo, a possibilidade de assistir Harriet Andersson caminhar nua para mergulhar no mar, o despertar sexual do personagem masculino, a sensualidade da juventude, hoje é a possibilidade de ver Monika como a heroína, aprender com ela a desafiar quem a objetifica e viver à sua própria maneira. E como na cena final, resta ao espectador olhar para a protagonista como Harry ao lembrar do verão ao seu lado, porém para além da carne, mas como símbolo de resistência.

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