Escrito e dirigido por Bergman, “Sonhos de Mulheres”, de temática intimamente ligada à “Noites de Circo”, buscar analisar a desilusão dos sonhos e da mais tórrida paixão. Susanne Frank (Eva Dahlbeck) é uma fotografa de moda, inconformada com o rompimento do amante, o casado Henrik Lobelius (Ulf Palme), a mulher tem dificuldade em seguir em frente. A modelo Doris (Harriet Andersson) vive um relacionamento conturbado com o namorado Palle (Sven Lindberg), quem não entende as ambições da garota, conflitando a relação entre eles. As duas mulheres partem em viagem para uma sessão de fotos em Gotemburgo, lar do ex-amante de Susanne. Com a intenção de reencontrá-lo, a viagem é a oportunidade definitiva para isso. Enquanto a fotografa tenta reconquistar sua paixão – com negativas e um fatídico encontro sexual –, a modelo conhece o rico e de mais idade, cônsul Otto Sönderby (Gunnar Björnstrand). Entre presentes caros, parque de diversões, uma esposa arrogante e o desencanto da rejeição, a realidade vem à tona para as duas mulheres, mudando suas perspectivas para sempre.

Não é segredo que Bergman sempre enfatizou as mulheres na sua filmografia. Desde os primeiros filmes, o cineasta mostrou maior apelo na construção das personagens mulheres, geralmente mais complexas. “Sonhos de Mulheres” faz um contorno preciso nessa característica do diretor. As mulheres aqui não são subestimadas, ainda que enraizadas em convenções imputadas para colocadas sempre um passo atrás, a tolice não é fator de gênero. Doris é juvenil como deve ser, cheia de sonhos triviais, mas astuta. Muito mais que seus pares no drama, inclusive o experiente cônsul. Susanne é uma mulher bem sucedida na profissão, mas o seu sucesso não anula os outros aspectos da sua vida. Pelo contrário, ela é cheia de desejo e sofre pela recusa do amante, que mesmo apaixonado não tem força de assumi-los.

As protagonistas se complementam. Apesar de suas histórias quase inteiramente se desenvolverem paralelamente uma a outra, os momentos entre elas compõem as cenas-chave da trama. Ainda que suas narrativas estejam baseadas nas relações com os homens do longa, esses não passam de mero meio para expressar a autonomia dessas mulheres. Suas ações e decisões não são definidas pelo namorado ou o amante. A petulância da esposa de Henrik quebra o ciclo vicioso vivido por Susanne, para Doris é o excesso da filha do velho homem que a desperta para longe daquele jogo de poder. Elas são responsáveis pelo próprio destino.

Aliás, o contraste entre as principais colaboradoras de Bergman nesse período é fascinante. Eva expõe todos os sentimentos da sua personagem com o olhar. Harriet atinge com destreza a ligeira puerilidade de sua personagem. Com apoio mútuo, uma resolve o destino da outra. Juntas em cena as atrizes causam uma explosão. Talvez por essa razão, o cineasta tenha optado por tantas cenas sem diálogo algum, a simples presença, o jogo de expressões – especialmente de Dahlbeck –, manifesta as mais íntimas emoções das protagonistas, impossíveis de serem traduzidas em palavras com tamanha profundidade. Atrelado à uma fotografia limpa, porém dramática de Hilding Bladh, com uso de closes na medida certa.

“Sonhos de Mulheres” não é extraordinário, também não é perfeito nas suas representações, mas é impossível não destacar seus méritos. A autorreflexão das personagens, a jornada do entendimento da realidade, metaforicamente ilustrada na viagem feita pelas duas mulheres, não possui a densidade comumente exibida por Bergman. O êxito do filme se dá muito mais por como é apresentado, que pela transposição das ideias. Se Bergman aqui não atinge seu real potencial, Eva Dahlbeck e Harriet Andersson entram em combustão com suas performances.


A CHEGADA DO SR. SLEEMAN (HERR SLEEMAN KOMMER), 1957

A criança artística de Bergman sempre foi bastante prolífica, com média de dois filmes por ano, fora suas produções teatrais e de texto, o ano de lançamento de “A Chegada do Sr. Sleeman”, primeira produção para televisão, foi especialmente produtivo. Marcado como o ano mais fértil do cineasta, inclusive foco do recente documentário de Jane Magnusson, Bergman – 100 Anos, no período o diretor lançou outros dois filmes, são eles duas de suas obras-primas, “O Sétimo Selo” e “Morango Silvestre”. Sem grandes destaques, a pequena produção segue os padrões do formato televisivo.

Adaptação de uma peça de teatro de 1917 do autor sueco Hjalmar Bergman, o pequeno filme – 43 minutos de duração –, conta em um ato a virada de destino da órfã Anne-Marie (Bibi Andersson), uma jovem mulher que vive com suas duas tias Mina (Jullan Kindahl) e Bina (Naima Wifstrand) em um casarão. Sustentas pelo velho Sr. Sleeman, dono de uma posição privilegiada na cidade. Ao receber uma carta do homem, com a resposta ao pedido de aumentar a assistência às mulheres, Sleeman diz não poder atender a solicitação, mas como forma de ajudá-las pede a mão da sobrinha para aliviar o custo das senhoras. Atormentada pela promessa de casamento, além da chegada do Sr. para o próximo dia, entre ensaios para recepção do homem e um encontro apaixonado com o caçador Walther (Max Von Sydow), a adolescente vive a inquietação da espera e o significado do que aguarda.

O tempo é o elemento chave nessa primeira obra de Bergman. O enredo tecnicamente limitado pela curta duração da obra, cria a sensação de proximidade com a inquietação de Anne-Marie, quem em poucas horas terá a vida bruscamente transformada. A angústia causada pelo medo do que a aguarda é constantemente evocada pelo tic-tac do relógio – excessivamente mostra em close-up. A ausência de autonomia feminina baseia a trama. Sem poder de escolha, o pedido de casamento é na verdade uma imposição. A garota é confrontada pela impossibilidade de continuar sonhando e de conduzir o próprio destino. No sentido dramático, é interessante observar o desespero, as tentativas de se conformar à medida que observa o passar das horas. O humor das cenas onde as tias tentam preparar a garota para receber o futuro marido, mostram o dever das mulheres de sempre agradar.

Ainda que disfarçado de um trabalho trivial, sem grande peso, é possível extrair muito do que é a filmografia de Bergman, especialmente para suas construções femininas. Bibi Andersson é o destaque com a interpretação da ingênua Anne, primeiro trabalho de ênfase da longa parceria. Enquanto as cenas de interação com as tias reservam o clima cômico, os momentos solos de Anne-Marie são marcados pela força dramática da atriz. Não à toa, seria posteriormente imortalizada em Persona. Embora distante da grandiosidade artística mostrada em “Fanny e Alexander”, também uma produção para televisão, o pouco destaque técnico e excesso de alguns recursos, não impede algum fator instigante na trama.

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