Quem diria, Robert Pattinson? Primeiro o vimos como Cedrico num dos filmes da franquia Harry Potter. Depois como vampiro Edward, da “saga” Crepúsculo. Astro de um dos fenômenos culturais mais bobocas deste século, Pattinson entrou para a consciência popular – exceto das adolescentes e dos fãs da “saga” – como o vampiro que brilhava no sol. Muitos de nós rimos do personagem e como seu intérprete parecia atuar dopado em muitas cenas. Achávamos que, depois de deixar o papel de Edward, não se podia esperar grande coisa dele.

Puxa, estávamos errados.

Para comprovar, vejamos a primeira cena de Bom Comportamento. Vemos um sujeito conversando com seu psicólogo, no que parece ser uma sessão de avaliação do estado mental do rapaz. Ele tem óbvios problemas emocionais. Esse cara, Nick, é filmado num plano fechado, bem próximo, um close que incomoda um pouco. Já seu psicólogo é filmado num plano mais aberto, passando impressão de compostura. A cena se desenvolve um pouco, até que entra pela porta o personagem de Pattinson. Ele se chama Connie, irmão de Nick. Quando ele entra na sala, é como se um tornado varresse aquele cenário. Connie é um emissário do caos, faz a câmera tremer e se aproximar ainda mais dos rostos – é um filme de close-ups.  Ele tira seu irmão de lá e o leva para cometer um assalto a banco, e daí para frente o filme se desenvolve como uma série de incidentes, cada um mais maluco que o anterior, sempre envolvendo Connie e suas tentativas frustradas de cuidar de Nick e ajudá-lo.

Logo fica claro que Connie é em grande parte responsável pelos problemas do irmão. Mas, graças a Pattinson, também fica claro o amor dele por Nick. O que o ator faz aqui é interpretar alguém que parece um ser humano completo e real complexo e tridimensional – um idiota e maluco, mas movido por boas intenções até as coisas começarem a dar errado.  É um trabalho de ator consciente e destemido, mais uma oportunidade para Pattinson demonstrar sua força, como já o fez – vale relembrar – em Cosmópolis (2012), Mapas para as Estrelas (2014), The Rover: A Caçada (2014), Life (2015) e Z: A Cidade Perdida (2016).

A atuação dele é a grande força do filme, mas mesmo assim ela complementa a visão absolutamente clara dos diretores, os irmãos Benny e Josh Safdie – Benny também interpreta Nick e ainda trabalha no filme como co-montador e técnico de som! Bom Comportamento se move com a força da sua montagem ágil impulsionada por uma trilha sonora eletrônica, que em alguns momentos se resume a uma batida. O clima intenso e maluco é intensificado até quando os créditos de abertura aparecem, com o filme já tendo se iniciado há uns bons 20 minutos. O trabalho sonoro também é criativo, contribuindo para o caos e a sensação de “mergulho no inferno” que a narrativa adquire a partir de certa altura. E quando aparecem outros atores de destaque, como Jennifer Jason Leigh e Barkhadi Abdi de Capitão Phillips (2013), eles se encaixam organicamente, pois ninguém parece estar atuando. A naturalidade de Benny Safdie, por exemplo, impressiona.

Tudo isso, no entanto, acaba expondo outra faceta do Robert Pattinson pós-Crepúsculo. Ele poderia estar ganhando um bom dinheiro explorando sua aparência ou estrelando outra franquia milionária de Hollywood; ao invés disso resolveu participar de produções modestas e se tornar verdadeiramente um ator (e apoiador) do cinema independente. Bom Comportamento é realmente uma daquelas obras nas quais é perceptível o entusiasmo da equipe que o realizou, e essa energia alimenta o filme.

É verdade que o ritmo cai um pouco perto do fim, mas trata-se de um problema menor numa obra tão vibrante e maluca, na qual quase tudo pode acontecer, e que vai da comédia ao drama sombrio num piscar de olhos. Os irmãos Safdie não perdem de vista que, embora o ritmo eletrizante e algumas cenas engraçadas no começo nos façam vibrar, a história de Bom Comportamento está mais para tragédia que comédia. Afinal, quando vemos Connie chamando outro personagem de “perdedor” e “sanguessuga”, a atuação de Pattinson nos faz intuir que na verdade ele está falando de si mesmo…

O maior desafio do cinema é convencer o público da realidade da narrativa sendo contada. Enquanto estamos vendo o filme, precisamos acreditar que, por mais que a história na tela contenha elementos até fantasiosos, ela realmente está acontecendo, sendo vivida por personagens reais, ou ao menos verossímeis. Não é tão comum vermos nas telas alguém que de fato poderíamos encontrar na vida real: todos nós conhecemos uma pessoa “furacão”, inquieto e que parece ter uma solução para tudo, embora suas soluções geralmente só causem mais problemas. Por uma hora e quarenta minutos, Robert Pattinson dá vida a uma figura assim, e damos graças aos céus por ele não ser nosso irmão. E com esse desempenho, o cara que um dia brilhou ao sol em cenas ridículas, se consolida como um dos atores mais interessantes do momento.

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