Um belo dia, em meados dos anos 2000, o roteirista e produtor Vince Gilligan estava conversando com seu amigo, o também roteirista Thomas Schnauz, sobre como estava difícil produzir em Hollywood. Gilligan estava até contemplando desistir da carreira e, brincando, disse a Schnauz: “Talvez seja melhor virarmos funcionários do Walmart”, a tradicional rede americana de lojas de departamento.

Schnauz então respondeu: “Ou podemos comprar uma van e montar um laboratório de metanfetamina”.

Antes, porém, um flashback para explicar algumas coisas.


Por exemplo… Quem é Vince Gilligan?

Nascido em Richmond, Virginia, ele começou a demonstrar interesse por cinema fazendo pequenos filmes em Super-8 na infância. Enquanto estudava na Universidade de Nova York, ele conheceu o produtor Mark Johnson, que o apresentou ao produtor e roteirista Chris Carter. Àquela altura, Carter produzia na rede Fox um seriado maluco sobre dois agentes do FBI que investigavam casos paranormais e ufológicos. A série se chamava Arquivo X e, sem que ninguém esperasse, ela iria aos poucos se tornar um dos programas de maior sucesso mundial durante a década de 1990.

Gilligan gostava tanto de Arquivo X que escreveu um roteiro e o submeteu, de forma freelance, à produção da série – esse roteiro foi filmado no fim da segunda temporada. Um ano depois, Gilligan escreveu mais um, seu primeiro clássico no seriado. “O Instigador”, episódio da 3ª. temporada, era sobre um sujeito insignificante com um poder estranho: usando a voz, ele conseguia fazer com que as pessoas obedecessem suas vontades. Bob Modell, esse personagem, tinha um câncer mortal e decidiu ir embora do mundo com uma explosão ao invés de um suspiro, e começou a cometer crimes que o colocaram no caminho dos agentes Mulder e Scully. Ecos desse personagem ressurgiriam mais tarde junto com aquela ideia da van.

Porém, antes disso, baseado na experiência e na força desses episódios, Gilligan passou a integrar definitivamente a equipe de roteiristas a partir da quarta temporada de Arquivo X e galgou os degraus ao longo do tempo. Quando o seriado acabou em 2002, Gilligan era um dos manda-chuvas (ou produtores-executivos) de Arquivo X ao lado de Chris Carter.

Os anos posteriores ao fim da série não foram tão bons. Gilligan escreveu o roteiro “Tonight, He Comes” que foi transformado no filme Hancock (2008) com Will Smith, mas o produto final tem poucas semelhanças com a ideia original. Desiludido com Hollywood, Gilligan então travou aquela conversa iluminadora com Schnauz, colega de roteiro em Arquivo X. A frase de Schnauz foi o embrião para a ideia que viria a se tornar Breaking Bad.

Àquela época, a TV dos Estados Unidos já tinha começado seu fascínio com a figura do anti-herói e com experiências mais ousadas. A premissa na cabeça de Gilligan envolvia a mudança, justamente aquilo que as séries mais evitavam: ele queria mostrar, ao longo das temporadas, a transformação de um homem, de sujeito pacato e nerd a mestre do crime, ou como o próprio criador dizia, “de Mr. Chips a Scarface”. Assim nasceu Walter White, professor de química na meia idade que descobre que tem câncer, e antes de morrer decide deixar muito dinheiro para a sua família… produzindo e vendendo os mais puros cristais de metanfetamina já vistos. Porém, essa decisão teria custos – e o exame das consequências de se “passar para o lado mau”, numa tradução livre do título da série, nunca deixariam de ser examinados por Gilligan e seus roteiristas.

Depois da ideia, veio a luta para produzir o seriado. Todos os canais a cabo estabelecidos na época recusaram a proposta de Gilligan – a TNT ficou com medo da metanfetamina, uma droga terrível e um sério problema criminal nos Estados Unidos; a HBO nem deu bola e o FX achou a premissa muito parecida com Weeds, a série cômica do Showtime. A última opção era o AMC, onde os primeiros episódios de Mad Men estavam sendo gravados. O canal topou fazer, pois queria apostar em conteúdo próprio e diferenciado e Breaking Bad, com seu suspense e humor negro, era o perfeito contraponto à sutileza e refinamento de Mad Men.

Para viver seus dois personagens principais Walter White e Jesse Pinkman – o ex-aluno delinquente do professor de química e que, curiosamente, acaba se tornando a figura mais simpática do programa – Gilligan escolheu dois atores que participaram de Arquivo X. Bryan Cranston era mais conhecido como o pai de família abestalhado da comédia Malcolm, mas tinha feito um sujeito preconceituoso que provocava empatia no episódio “Dirija” da sexta temporada de Arquivo X. E Aaron Paul fez um jovem abilolado com muita competência no episódio “Senhor dos Insetos” na temporada final da série de Chris Carter.

Os primeiros episódios até tem um tom divertido, embora pessoas comecem a morrer logo de cara por causa do esquema de Walter e Jesse – quem se esquece do traficante morto sendo dissolvido em ácido na banheira? O publico se empolgou e começou a torcer pela carreira criminosa dos dois personagens. Porém, com o tempo ficou claro o objetivo de Vince Gilligan: virar de ponta-cabeça a nossa percepção do protagonista, e de todos ao seu redor.

Walter começava a série dizendo que fazia tudo pela família, e a crise econômica de 2008 nos EUA – mesmo ano em que Breaking Bad começou – deixou seu esforço mais compreensível e pungente para o publico. A série representava o pesadelo da classe média, o outro lado do sonho americano de enriquecimento fácil. Porém, com o tempo Gilligan foi retirando as desculpas de Walter para seu comportamento criminoso. Na segunda temporada seu câncer entre em remissão. As ameaças à sua família ficam mais sérias. Seu cunhado Hank (um perfeito Dean Norris) era agente do Departamento Antidrogas e estava sempre no encalço do misterioso “Heisenberg”, o apelido de Walter no submundo. Então, por que ele continuava?

A resposta foi sendo revelada gradualmente, e o personagem começou a se tornar cada vez mais monstruoso ao longo da série. Walter escondia um mundo de frustrações dentro da sua vidinha medíocre, e sentia a necessidade – muito masculina, aliás – de provar para si mesmo que podia ser melhor, que merecia milhões de dólares do tráfico de drogas, que era superior aos outros bandidos no seu caminho, e o mais memorável deles foi o frio Gus Fring (Giancarlo Esposito). Como resultado, Breaking Bad acabou sendo um dos maiores exames da psique autodestrutiva masculina da história da dramaturgia.

E curiosamente, o exame desse personagem masculino tão forte acabou provocando uma onda de ódio desproporcional contra a esposa de Walter, Skyler (Anna Gunn). Parte do publico realmente odiava a personagem, enquanto o comportamento de Walter angariava torcedores. A situação ficou tão grave que a própria Anna Gunn publicou uma nota na qual procurava examinar os motivos pelos quais os espectadores toleram tudo de um personagem masculino, e quase nada de um feminino… Vince Gilligan, por sua vez, sempre se declarou a favor de Skyler, que ao longo da história se torna uma vítima do marido, e acaba com a hipocrisia desses espectadores ao pôr na boca de Walter, num dos últimos episódios, as verdadeiras crueldades do personagem. “Fiz tudo por mim mesmo”, ele diz, num momento de honestidade.

Nesse sentido, Breaking Bad levou a caracterização do anti-herói ao limite, fazendo quase o oposto do que foi feito no seriado Família Soprano, um dos pilares da nova TV americana. Na série mafiosa, Tony Soprano ainda tinha a desculpa do “determinismo social”: nasceu na máfia, o que se vai fazer? Ele tinha várias chances de fazer o bem e as desperdiçava, enquanto Walter ia ao encontro do mal por vontade própria. Além disso, se o anti-herói de Breaking Bad era o sujeito mais certinho e subestimado do mundo e escondia dentro de si um monstro, o que isso diz sobre a natureza humana?

A série também era filmada de forma brilhante. Devido a incentivos, Breaking Bad acabou sendo rodada em Albuquerque, no Novo México – e impulsionou a economia local. Por isso, os visuais desérticos à la John Ford e o calor e o sol deram um ar de faroeste ao seriado em diversos momentos. Além disso, os ângulos de câmera incomuns e a inteligência visual e dos simbolismos nos figurinos – dá para fazer um grande estudo dos padrões de cores das roupas dos personagens – aproximavam bastante a série do visual cinematográfico. Realmente, durante os anos de 2008 a 2013, enquanto a série esteve em produção, o espectador tem dificuldade para se lembrar de um filme do cinema americano tão ressonante, tão bem filmado e que misturasse tão bem gêneros quanto Breaking Bad.

Quando o seriado chegou ao fim veio a consagração definitiva na forma de prêmios e nos maiores índices de audiência da história do programa. A saga de Walter White terminou com episódios impactantes que deixaram os espectadores com os nervos em frangalhos, e a série, como um todo, é uma das realizações mais incríveis da história dessa forma de contar histórias. Breaking Bad é como um gigantesco filme, uma única e incrível história com começo, meio e fim e apresenta uma unidade e uma qualidade sem paralelo, mesmo hoje na “Era de Ouro” da TV. São 62 episódios – não muitos, o que ajudou a manter o alto nível – e não há nenhum ruim entre eles.

Sob o calor do deserto, a história de Walter White é ao mesmo tempo filme noir, comédia, suspense e, por que não, terror. A série nos faz ter apreço por um homem bom que se torna mau e depois se torna, se não bom de novo, pelo menos capaz de alguns poucos atos de humanidade. De uma forma distorcida, esse homem se torna dono do próprio destino, para o bem e para o mal. Como aconteceu com Vince Gilligan, que afinal não precisou ir trabalhar no Walmart.