Após ser acusada de preconceito contra brancos (WTF?) e receber diversas ameaças de cancelamento da Netflix, ‘Cara Gente Branca‘ chegou a sua segunda temporada. A série dedicada à sátira social sobre racismo novamente apresenta Sam White (Logan Browning), seu núcleo de amigos e inimigos, experimentando a vida acadêmica permeada de ataques preconceituosos e debates engajados.

O mais importante para que um tema gerador de múltiplas interpretações consiga ser bem construído visualmente é o ritmo utilizado pelo show runner Justin Siemen. Cada temporada da série conta com dez episódios de 30 minutos, neste tempo além do humor e sarcasmo, muito drama também é colocado em cena, o que, até então, continua sendo feito com muita agilidade.

Em comparação com sua primeira temporada, provavelmente o desempenho de ‘Cara Gente Branca’ não chega a impressionar tanto assim. Muitas narrativas iniciadas anteriormente não recebem tanta atenção e o desenvolvimento, a mudança de personagens mais antigos é pouco notado.

Desde o princípio, a série se propõe a dedicar cada episódio para um personagem específico, esta escolha acaba criando características dúbias. Por um lado os personagens são bem aprofundados e construídos em seus respectivos momentos, porém, com exceção do cast principal, estes não voltam a aparecer de forma tão significativa na trama, deixando assim diversas narrativas possíveis de lado.

Os novos personagens são rapidamente apresentados e deixam de existir em questão de alguns episódios. Neste sentido, o bônus louvável é o aprofundamento de personagens bem remotos e totalmente apagados na primeira temporada, que ganham mais espaço em cena podendo se livrar em parte de seus clichês.

Falando em clichês, nesta temporada eles aparecem e bastante, principalmente nos momentos dramáticos. O humor é sempre bem colocado, possui referências bem feitas e conversa até mesmo com a primeira temporada. A parte dramática, entretanto, tão bem desempenhada em diversos momentos anteriores, onde o espectador facilmente poderia sair do riso para as lágrimas, ficou a desejar principalmente nos diálogos entre as personagens. Principal exemplo disto é o tão aguardado confronto entre Sam e Gabe (John Patrick Amedori), que acabam abordando várias questões que permeiam suas respectivas vivências sem falar sobre si mesmos.

Apesar de não apresentar tantas novidades nestes quesitos, muitos fatores ainda são o ponto alto da série e apresentam grande qualidade. Para começar, a trilha sonora da série definitivamente marca sua importância, começando com músicas instrumentais clássicas e aderindo ao rap e R&B.

A direção de fotografia se torna fator determinante para incluir cenas com uma carga emocional mais intensa, fator decorrente desde a primeira temporada. Mesmo com as falhas entre o acerto de contas de Sam e Gabe citado aqui anteriormente, a fotografia desta cena consegue dar grande impacto para a dimensão da cena proposta, ora passeando entre os dois personagens sem cortes ora colocando cortes bruscos que acompanham falas mais enfáticas.

A grande qualidade da série continua sendo seu contexto social. As discussões acerca do racismo são elevadas a outro nível, mesmo que seus personagens corram para acompanhar isto. A ideia de abordar a internet como um espaço onde várias pessoas se unem e apoiam conceitos esdrúxulos nunca foi tão importante, mesmo com tantos casos reais como inspiração, a série apresenta um ficcional que consegue dialogar bem com a narrativa construída.

A utilização histórica também é muito bem colocada. Mesmo sendo um deleite para o seu público-alvo, a série consegue conversar com qualquer espectador, mostrando que a presença do preconceito e segregação racial é construída no decorrer de épocas. Com este panorâma sobre o passado, o presente e futuro se apresentam com a possível solução de que o debate é preciso, a forma que ele é mediado, entretanto, deve ser vista em sua próxima temporada.

Talvez ‘Cara Gente Branca’ entre para a lista dos casos em que uma série muito boa se perde na tentativa da continuação. Neste caso em específico, ainda existem muitos elementos louváveis na trama que reafirmam a sua relevância não apenas como bom entretenimento, mas também no que oferece de informação e conhecimento sobre o racismo estruturado em nossa sociedade.

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