Desde a chegada do Prodav 08, uma linha de editais da Agência Nacional de Cinema (Ancine) que visa investir valores em produtoras independentes para produção de conteúdo para as TVs públicas em todas as regiões do Brasil, perspectivas importantes surgiram no horizonte dos produtores audiovisuais de todo o país.

Visando distribuir os valores de maneira mais igualitária, a Ancine decidiu tornar a concorrência dividida por regiões, cada uma com valores muito parecidos com as demais – acabando com o predomínio de investimento para as Regiões Sudeste e Sul – tornando a concorrência pública mais equilibrada, com os estados concorrendo com as unidades federativas vizinhas, com condições semelhantes de competitividade.

Na edição lançada em 2014, o Amazonas emplacou oito projetos selecionados, enquanto, no ano seguinte, teve outros seis projetos. Nas duas edições foi o Estado que mais aprovou propostas no Brasil inteiro. Somando os valores recebidos nos dois editais, mais de R$ 10 milhões foram investidos na produção local para a realização de uma série de produtos audiovisuais e os primeiros resultados já poderão ser vistos a partir do ano que vem.

Uma das possíveis explicações para o êxito amazonense no edital certamente está na presença de Carlos Barbosa e Clemilson Farias em Manaus. Trabalhando como representantes da PRODAV 08, no escritório regional da Região Norte da Linha de Produção Conteúdos Destinados às TVs Públicas – cuja sede é aqui –, os dois tornaram muito mais fácil a compreensão dos meandros que envolvem esse edital, através de reuniões, conversas, deixando sempre claro a importância dos realizadores não terem receio de enviar os seus projetos, e de que o sistema da Ancine é muito distante de ser um bicho de sete cabeças. Hoje em dia, muitos realizadores locais estão perfeitamente habituados com o andamento do sistema, e sentem-se ainda mais seguros pelo fato de terem na cidade dois profissionais dispostos a esclarecerem dúvidas sobre o sistema.

A dupla cumpriu papel muito importante na realização da 1° Mostra do Cinema Amazonense, e novamente fazem parte da equipe que está realizando a 2ª Mostra, prevista para novembro. Figuras já conhecidas por boa parte dos realizadores manauenses, Carlos e Clemilson já podem ser considerados figuras fundamentais para que seja possível compreender esse viés de crescimento que vive o nosso cinema, mesmo com investimentos baixos ou inexistentes vindos dos poderes municipais e estaduais (respectivamente) nos últimos anos.

Adaptados a cidade mesmo estando aqui há um tempo relativamente curto, nessa entrevista, os dois falam, dentre outras coisas, sobre os caminhos que os levaram da vida artística para exercer esse trabalho administrativo no escritório regional da Região Norte da Linha de Produção Conteúdos Destinados às TVs Públicas, de que maneira eles avaliam as produções locais, o que pode ser melhorado no cenário local visando uma produção mais consistente, e o que planejam para o futuro após terminarem sua função aqui.

Cine Set: O que vocês faziam antes de vir pra Manaus?

Carlos Barbosa: Sou paulista, nascido e criado em São Paulo. Tenho 23 anos. Comecei a trabalhar, em 2013, em uma produtora de cinema chamada Avoa Filmes. Meu primeiro trabalho foi como estagiário no filme Sinfonia da Necrópole, dirigido pela Juliana Rojas.  Dentro da produtora eu fiz outros filmes também, trabalhando como assistente de produção, produtor executivo e tem um longa agora, que estreou, que eu fiz direção de produção. Ele se chama Banco Imobiliário, dirigido pelo Miguel Antunes Ramos.

Clemílson Farias: Sou do Acre, nascido e criado, vivi lá até 2010. Estou com 37 anos. Eu trabalhava com um grupo que misturava atividades de teatro e cinema, parecido com a Artrupe. Eu, inclusive, estava mais envolvido com teatro do que com cinema, apesar de ter participado da organização de mostras de cinema, produção de alguns curtas. Chegamos ainda a fazer um projeto voltado para educação,  trabalho grande nas escolas de Rio Branco. Em 2010, fui estudar cinema em Cuba, na EICTV (Escola Internacional de Cinema e Televisão). Fui para lá porque eu queria simplesmente mudar de área, me inscrevi e passei para fazer o curso de produção. Fiquei lá um período, e eu sempre digo que a minha relação de verdade com o cinema veio só nesse universo da escola.

Cine Set: Como foi a proposta de vir pra cá trabalhar como representantes da Linha de Produção de Conteúdos Destinados às TVs Públicas?

Carlos Barbosa: Na metade de 2014, o Max Eluard, sócio da Avoa Filmes foi convidado para coordenar esse projeto da Ancine, essa linha das Tvs Públicas. Ele, num primeiro momento, me convidou para trabalhar na linha, mas, naquela época, eu queria ficar na produtora para ganhar mais experiência e ter mais contato com uma parte menos burocrática. No começo de 2015, a pessoa que trabalhava aqui no escritório Norte teve que sair, e aí ele me convidou novamente e perguntou se eu queria vir pra Manaus. De primeira, eu aceitei. O fato de ir a um outro lugar, uma região que eu pouco conheço, nem conhecia, praticamente, me chamou bastante atenção. Então, vim para saber o que estava sendo produzido aqui e para ter contato com uma outra realidade. Eu cheguei no dia 19 de abril de 2015.

Clemílson Farias: Quando voltei de Cuba, fiz alguns trabalhos para a Tv Futura, e quando estava em Rio Branco, pensando no que ia fazer da vida, o Max, o coordenador da Unidade Técnica da execução da linha, me ligou e convidou para vir para ser um dos responsáveis pelo escritório regional da Região Norte em Manaus. Topei na hora. Cheguei em agosto de 2014 e fui logo recebido pelo Aldemar Matias que trabalhava aqui.


Clemilson Farias

Cine Set: Qual é o trabalho que vocês fazem aqui?

Clemílson Farias: Os escritórios regionais têm a função de tratar todo o processo de divulgação da linha. Em um primeiro momento, nós fizemos um mapeamento vocacional da produção na Região Norte para servir de subsídio de como seriam as linhas de produção, considerando as características locais. Atuamos tanto na divulgação da linha como no acompanhamento dos projetos que foram selecionados.

Carlos Barbosa: A gente trabalha, na verdade, na única linha da Ancine que tem os escritórios, que tem uma unidade que coordena a linha. Então isso também faz parte do projeto da Ancine de regionalização, e querendo ou não, foi a linha que mais ajudou nesse ponto pela facilidade de comunicação.

Cine Set: Isso acontece em todas as regiões?

Carlos Barbosa: Sim. São 5 escritórios. O da região norte é aqui em Manaus, o do Nordeste em Recife, Centro-Oeste em Brasília, Sudeste em São Paulo e na Região Sul em Porto Alegre.

Cine Set: Nas duas chamadas do Prodav 8, o Amazonas foi o estado que mais aprovou projetos. E muita gente, inclusive em Manaus, não conhece a produção audiovisual amazonense. Na opinião de vocês, por que o Amazonas foi tão bem nesse edital?

Clemílson Farias: O fato do escritório da Região Norte estar em Manaus mobiliza e incentiva a galera no sentido de estar mais presente. A série de encontros com os produtores independentes para apresentar a linha e, consequentemente o próprio fundo da Ancine, ajudou muito. Assim como o fato do edital ser regionalizado. As pessoas daqui tinham muito uma coisa de achar que não tinham condições de competir, que os projetos não eram legais e não seriam aprovados. Como essa linha era regional, a disputa se tornava mais igualitária na cabeça das pessoas, o que incentivou muita gente a participar. Também contribuiu o fato do edital ter vários mecanismos que facilitavam o acesso a ele, de pessoas que não têm experiência, acessar o recurso, além de toda a nossa campanha de divulgação.

Carlos Barbosa: A gente sabe que, em Manaus, tem muita gente querendo produzir, tem várias pessoas que estão aprendendo, estão querem entrar no mercado. Elas estão formando as suas produtoras, estão em constante processo de comunicação com a gente, de perguntar, querer saber como abre empresa.

Clemílson Farias: Se a gente for fazer um estudo do numero de empresas da Região Norte que eram cadastradas na Ancine antes e depois da linha é um salto tremendo. Nas duas edições, o Amazonas foi o estado que mais apresentou projeto. Eu fico me perguntando qual vai ser o próximo passo, que eu acho que é entender como isso está impactando o local, porque tem que começar a levantar, eu acho, um estudo.

Antes o Tempo Não Acabava

Cine Set: O primeiro Prodav 8 vai ter os seus primeiros resultados exibidos ao público em 2017. Ano que vem estarão sendo produzidos os projetos aprovados em 2016, para serem exibidos a partir de 2018, 2019. Além disso, temos agora as produções de Aldemar Matias e Sérgio Andrade que já estão participando de importantes festivais nacionais e internacionais. Ou seja, tudo indicando um futuro promissor ao Amazonas. Mas com o impeachment e com uma política assumidamente de menor participação do estado, fica uma dúvida sobre como ficarão os investimentos no audiovisual pelo governo federal nos próximos anos. Na opinião de vocês, o que tudo isso diz para o futuro? O que podemos esperar?

Clemílson Farias: Bom, apesar de todas as mudanças no governo, na Ancine as coisas estão caminhando. O calendário de financiamento e lançamento das linhas está sendo cumprido. O grupo gestor da Ancine permanece, as coisas estão seguindo o seu fluxo de trabalho. Tivemos todo esse processo de mudanças da TV Brasil, a gente sabe, mas a Ancine segue com o seu trabalho e nós aqui também seguimos todas as ações previstas para o PRODAV 08.

Carlos Barbosa: Acho que uma coisa muito importante que está acontecendo é que as pessoas estão procurando os editais da Ancine, cada vez mais. Esse interesse que as pessoas estão tendo, de querer que os seus projetos sejam financiados, procurando cada vez mais os editais, é fundamental. A gente recebe ligação dos produtores para tirar dúvidas. O problema é que tem muita gente que esquece o projeto que fez. ‘Ah, eu fiz um projeto pra essa linha e nunca mais eu mexo nele’. Não. Não existe só essa linha. Tem vários outros editais. E agora os próprios canais de TV paga estão procurando. O GNT, Canal Bis, Canal Brasil, estão todos com editais lançados agora, para aprovar pelo fundo, classificados todos no Prodav 2. E é tema livre. Se você tem um projeto que envolve música, você vai procurar o Canal Bis, se for um programa de mulher você vai procurar o GNT. Você pode ter qualquer ideia. Você vai assistir, obviamente, o que o canal transmite e vai fazer o seu projeto pensado nessa grade de programação. As vezes você pode adaptar o projeto, e saber que ele pode entrar ali.

Clemilson Farias: As produtoras procuram muito os editais federais da Ancine até porque os editais locais ainda não atingiram patamares tão significativos. . Lá no Acre, de onde venho, o maior prêmio é de 15 mil reais. O que você vai fazer com 15 mil reais? Não tem como fazer. É muito difícil. Vai ficar sempre fazendo com amigo, amador, ou a gente vai começar a entrar num universo mais profissional. Então tem que partir para a Ancine. Então quem vai trabalhar com audiovisual, tem que entrar e botar a sua produtora dentro desses termos, ou ele vai ficar fazendo edital aqui com 20 mil reais, e vai ficar a vida inteira nessa. Não vai conseguir fazer, principalmente, finalização com um som legal, imagem boa, porque isso precisa de dinheiro.

Assim, de Keila Serruya

Cine Set: Tendo isso em mente, como vocês analisam a produção local?

Carlos Barbosa: A própria linha já dá um resumo do que cada região, cada estado, gosta de trabalhar o que mais tem. A gente sabe que no Amazonas as pessoas produzem mais documentário do que ficção.

Clemilson Farias: No Amazonas e Pará eu sinto uma coisa bem… eu não sei se aqui, por causa do festival, porque aqui a galera quer a ficção. Essa é a sensação que eu tenho. Nos outros estados eu não sentia muito isso, era muito mesmo documentário, que eu acho que a galera acha que é mais fácil e, na verdade, é mais difícil. Por exemplo, nos filmes da Mostra Amazonense, tinha muita ficção. Eu acho que isso tem uma influência do Festival. E, às vezes, são ideias interessantes, só que mal executadas.

Carlos Barbosa: A gente sabe que o problema daqui é mais execução do que falta de ideia. Porque ideia tem um monte, sempre as pessoas estão comentando sobre o que gostaria de fazer, de filmes e tal, e aí chega na execução e dá problema. Muito disso se deve pelo fato de não ter formação aqui na região. Tem em poucos lugares, tem o curso da UEA, e só, né?

Clemilson Farias: A sensação que eu tenho, e posso estar completamente equivocado, mas, tenho a sensação de que na UEA o curso fica muito preso na técnica, não há uma formação mesmo. Em Cuba, por exemplo, eu fiz produção e, no nosso ano, a gente teve mais aulas de roteiro, tanto de escrita e análise, do que a galera de direção de ficção. Muito disso se deve ao fato da visão de o produtor tem que entender bem da narrativa para saber o que é necessário e demandar as coisas para cada um. E aqui eu vejo as coisas muito técnicas. No sentido de como liga a câmera, fazer balanço de luz. De repente, a luz pode ser até estourada, isso é narrativamente interessante para minha história? Eles não pensam a coisa narrativamente, a técnica para aliar a narrativa.

Carlos Barbosa: Dia desses, a gente assistiu a um vídeo que era cinema, mas os enquadramentos são todos de publicidade. A linguagem é publicidade, tudo é publicidade. O visual, a imagem, o movimento de câmera não é cinema. Muita coisa do que a gente viu aqui é muito isso de publicidade. A ação que acontece dentro dali é muito publicidade. Então é o olhar, tem essa coisa da formação do olhar.


Carlos Barbosa

Cine Set: O trabalho de vocês tem prazo pra terminar?

Carlos Barbosa: Não, porque vai de acordo com as edições da linha.

Clemilson Farias: A gente está acompanhando a segunda e acabaria nela. Mas, pode ser que venha a terceira e fiquemos.

Cine Set: Vocês eram artistas antes de assumir esse trabalho administrativo na Ancine. Que função vocês se imaginam fazendo quando o trabalho de vocês acabar aqui?

Carlos Barbosa: A gente pensa atualmente, inclusive (risos). A gente tem esse pensamento, mas seria de ficar aqui por saber da carência das coisas na região. Então, a gente gosta de auxiliar as pessoas nos projetos, a gente gosta disso. Pensamos numa coisa mais de consultoria de projetos. Me ajuda, Clemilson (risos).

Clemilson Farias: Tem duas coisas. Primeiro, tinha uma ação, antes de vir pra cá, inclusive eu tinha já um pensamento dessa história de tentar realmente entender a realidade, e aí quando eu vim para cá isso me ajudou muito. Aí tem essa história, que tem várias possibilidades, da gente montar uma espécie de um grupo, ou de uma maneira de continuar pensando o audiovisual daqui, de buscar recurso, de pensar formas de consultoria para os projetos. Mas, nós já estamos fazendo projetos com amigos. Por exemplo, agora, estava conversando com uma amiga do Amapá, que a gente tem um projeto que vai inscrever no GNT, com uma outra vamos inscrever projeto para o Canal Brasil, e assim vai.

O escritório regional da Ancine fica localizado na sede da TV Cultura do Amazonas, na Avenida Barcelos, 524, no Centro de Manaus.

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