Não tem como não saber: já está estampado na capa do próprio DVD/Blu-ray, no pôster, no número de vezes em que a cena foi reprisada ou referenciada… ninguém precisa assistir Carrie, a Estranha (1976) para saber que, eventualmente, a mocinha do título vai ficar ensopada de sangue e começar a matar todos os seus coleguinhas indiscriminadamente durante a formatura. E, mesmo assim, há um tom macabro e trágico inerente a Carrie ainda hoje. Quase 40 anos depois, o que leva o filme de Brian De Palma a se manter como um clássico do terror, enquanto todas as outras tentativas de repetir seu efeito – desde a versão mais nova estrelada por Chlöe Moretz até uma sequência protagonizada por uma meia-irmã da personagem original – falharam?

Talvez a resposta seja que não se fazem mais filmes de terror assim. Ou simplesmente seja o poder de uma boa direção, de alguém que compreende o material que tem em mãos. Basta reparar na sequência de abertura de Carrie: no vestiário da escola, adolescentes nuas brincam umas com as outras como ninfas em uma pintura renascentista, enquanto a câmera passeia pelo local ao som de uma trilha que tinha tudo para ser cafona. Lá no fundo, no chuveiro, está Carrie (uma franzina Sissy Spacek), prestes a ter sua primeira menstruação – e, aterrorizada pela desinformação, entrar em pânico no processo e ser humilhada publicamente pelas colegas. Há uma mistura rara e impressionante de lirismo, erotismo e mesmo terror na cena, e é exatamente a junção desses elementos que diferenciam o clássico de De Palma das outras versões que viriam a seguir.

Afinal, a trama de Carrie é muito simples: menina criada pela mãe num ambiente de fanatismo religioso é constantemente vítima de bullying dos colegas da escola por conta de seu jeito definitivamente estranho, mas o que nenhum deles esperava é que isso resultaria no tal do banho de sangue. Com essa história, enquanto para os outros filmes pareceria mais fácil se debruçar sobre a destruição causada por Carrie como uma vingança suprema, o clássico de 1976 compreende que a trajetória de sua personagem é mais do que isso.

Um estudo de personagem

O trunfo de De Palma está em entender que Carrie, a Estranha é, na verdade, a história de um momento de passagem, quando a menina se descobre mulher e, como qualquer pessoa que tenha vivenciado a puberdade, passa por um turbilhão de confusões. A diferença aqui é que a garota em questão descobre ter poderes telecinéticos que podem deixá-la fora de controle e causar uns bons estragos – mas só isso, nada demais.

Assim, Carrie se mostra como um verdadeiro estudo de personagem, em que acompanhar e se importar com a trajetória da protagonista é fundamental para o sucesso do filme, ao contrário de outros trocentos filmes de terror em que pouco nos importa quem morre ou não.

A atuação de Sissy Spacek como a garota que anda com o cabelo escorrido na cara, reprimida em casa e na escola, é certeira ao criar empatia em qualquer um que já se sentiu oprimido na adolescência (mesmo que sem telecinese e bullying nível hard).

Seu contraponto, a loucura e repressão sexual encarnadas na mãe, vivida por Piper Laurie (que tinha tudo para ser caricata, mas domina o papel), só destaca ainda mais o ambiente de fragilidade do qual a personagem tenta escapar. Não é à toa que as duas atrizes conseguiram arrancar indicações ao Oscar, feito raro para estrelas de filmes de terror.

Por isso, o grande acerto da direção de De Palma e do roteiro de Lawrence D. Cohen é que a ação final de Carrie se torna quase justificável por conta do que vimos ela passar: a vingança vem em forma de catarse. Ao mesmo tempo, no entanto, Carrie é vítima e vilã: nem mesmo os bons sobrevivem à sua destruição, escancarando os efeitos do bullying e da violência despropositada.

Tudo isso na famosa sequência do baile de formatura, que é construída aos poucos, passando por uma festa romântica em que a câmera gira junto com os pombinhos até o momento fatídico do balde de sangue. O resultado é um dos grandes momentos do cinema de terror, com suas telas divididas, a trilha crescente e o jogo de closes. O que aterroriza em Carrie é justamente a proporção macabra que uma situação tão familiar toma no fim das contas.

No caminho desse estudo de personagem, De Palma ainda expõe temas fundamentais da narrativa sem precisar suavizá-los, desde o próprio bullying inconsequente até o fanatismo religioso. Um verdadeiro jogo de relações reforça esses eixos temáticos, como o elemento constante de sangue e sua ligação à ideia de pecado, seja na menarca que vem depois de um banho em que a câmera salienta o corpo, seja no infame balde que vem em seguida ao momento em que Carrie está nos braços do galã do baile. A repressão sexual da mãe e sua mente distorcida ficam marcadas em sua longa agonia orgástica no final, posando como o São Sebastião de olhos macabros da casa.

Mesmo com seus momentos datados e deslocados – como quando o popular Tommy Ross vai escolher seu smoking com os amigos –, a verdade é que Carrie, a Estranha dificilmente seria feito hoje novamente nesses termos. O longa com pinta de história adolescente que toma proporções de terror nos ganha com sua protagonista estranha e sua história trágica, e, com suas pequenas ousadias, acaba entrando no panteão daqueles filmes clássicos.

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