Daniel Michael Blake Day-Lewis nasceu em 29 de abril de 1957, na Inglaterra. Filho do poeta Cecil Day-Lewis e da atriz Jill Balcon, Lewis cresceu num ambiente imerso em teatro, literatura e cinema. Seu avô, por sinal, foi o presidente do Ealing Studios, a lendária fabric responsável por uma série de comédias antológicas no pós-2ª Guerra, como Matadores de Velhinha (1955), dirigido por Alexander Mackendrick.

Com todo esse pedigree, o ator anglo-irlandês só poderia mesmo se destacar. Mas o começo foi lento. Após uma adolescência rebelde e encrenqueira, Day-Lewis teve de dar duro no teatro e na televisão para fazer um nome pra si próprio. Apesar de uma ponta em Domingo Sangrento, em 1971, a carreira propriamente dita só começou, mesmo, com Gandhi (1982), onde ele tem uma pequena, mas marcante participação, como um valentão de rua que desanca o personagem-título.

O primeiro trabalho importante de Daniel Day-Lewis na telona foi como Johnny, um punk gay que namora o protagonista asiático de Minha Adorável Lavanderia (1985). A trama, escrita pelo dramaturgo Hanif Kureishi, é um valioso instantâneo da Inglaterra na conturbada era Thatcher. Já então, a sua dedicação aos papéis e seu carisma indiscutível deram a Day-Lewis uma reputação sólida, e os grandes trabalhos começaram a surgir. Mas essa é uma história para ser contada nos nossos próximos seis filmes.

5. Meu Pé Esquerdo (1989)

Daniel Day-Lewis revelou ser um inesperado, e radical, seguidor do Método de Lee Strasberg em Meu Pé Esquerdo. Com a difícil missão de interpretar Christy Brown, um artista com paralisia cerebral que só era capaz de controlar um dos pés, o ator iniciou o expediente pelo qual é conhecido até hoje: viver o personagem, andar, falar e pensar como ele, 24 horas por dia, ao ponto de a equipe ter de chamá-lo pelo seu nome ficcional.

O resultado brilhante provou que o ator, longe de ser um excêntrico ou um marqueteiro, sente uma genuína necessidade de “viver” seus personagens, para comunicar seus sentimentos mais profundos. Primeiro Oscar da carreira.

4. A Época da Inocência (1993)

A primeira das duas colaborações com Martin Scorsese é provavelmente a melhor, apesar de ser a mais subestimada – afinal, Gangues de Nova York (2002) rendeu a terceira indicação de Day-Lewis ao Oscar.

Mas A Época da Inocência, um inesperado detour do diretor por uma história de amor, ambientada no século XIX, é não só um filme melhor, como traz uma interpretação verdadeiramente tocante do britânico como Newland Archer, um rico herdeiro nova-iorquino (sotaque perfeito) que, apesar de casado, nutre uma paixão impossível por uma mulher divorciada (Michelle Pfeiffer) – leia-se “pecadora” e “nociva” –, que perturba o cotidiano do seu círculo familiar.

Com um trabalho feito todo de sutilezas, de olhares e não-ditos, o filme mostra uma faceta completamente diferente do ator, e prova, mais uma vez, que Daniel Day-Lewis é capaz de dominar qualquer registro. Mais um triunfo para o inglês, e um grande filme que merece ser resgatado do oblívio.

3. Em Nome do Pai (1993)

Este trabalho é importante por conter um pouco da história do próprio Daniel Day-Lewis. Recriação de um caso verídico, Em Nome do Pai mostra a história de Gerry Conlon, um arruaceiro irlandês que é acusado, junto com os amigos, de participar de um atentado do IRA em Londres, em 1974.

Sendo Day-Lewis, ele próprio, de origem irlandesa, por parte de pai, e um adolescente rebelde, que era atacado na escola pela herança “suja” (além do pai irlandês, Day-Lewis também tinha uma mãe judia), o filme teve um significado especial para o artista, e, talvez por isso, essa seja a sua maior interpretação da década de 1990, um trabalho intenso, cheio de garra e angústia. Outra indicação ao Oscar.

Note como o ano de 1993 foi mesmo especial para Daniel Day-Lewis, com DOIS filmes na lista do Cine Set.

2. Lincoln (2012)

Depois de 1993, com o status já estabelecido de melhor ator de sua geração, Daniel Day-Lewis passou a escolher seus trabalhos a dedo, nunca fazendo mais do que um por ano, e, às vezes, levando até cinco anos para dar as caras de novo (o que ele fez em Gangues de Nova York, em 2002).

Com isso, e dada a intensidade já conhecida do ator, seu trabalho tem aquela rara grandeza de ser sempre surpreendente, ousado, impecável. Mesmo quando o filme não é tão bom, como é o caso de Lincoln.

A incursão de Steven Spielberg pela vida do mais famoso presidente norte-americano é plana, sem cor, cria a imagem de um sábio santificado, um Messias da nação americana. A única coisa que redime o roteiro é mesmo a interpretação brilhante do britânico, que parece mesmo talhado, como Orson Welles, para viver essas figuras maiores do que a vida. Com Day-Lewis em cena, mesmo que o que saia da sua boca sejam parábolas forçadas e sem inspiração, o seu olhar, os seus gestos, transmitem o que Abraham Lincoln realmente sente: a sua insegurança, o seu cansaço, a sua esperança e, às vezes, até a indiferença. Torno a repetir: transformar o que já era bom em ótimo é fácil. Difícil, como acontece aqui, é transformar o mais ou menos algo fora de série. E é isso o que esse grande ator faz.

1. Sangue Negro (2007)

Mesmo com toda a qualidade do seu trabalho nos últimos 20 anos, o ponto máximo da carreira de Daniel Day-Lewis foi quando o seu brilho e intensidade maníacos encontraram um espírito afim no diretor Paul Thomas Anderson. O resultado desse encontro, Sangue Negro, é um filme que já nasceu clássico, eterno, atemporal.

Uma história alegórica sobre as forças que governam o homem – dinheiro e religião, mas também acaso e determinação –, Sangue Negro conta a saga de Daniel Plainview, um mineiro incrivelmente ambicioso que descobre petróleo e inicia a sua jornada rumo à riqueza – ou à morte, o que vier primeiro. Em seu caminho, está o pastor Paul Sunday (Paul Dano, também incrível), que reclama o quinhão da igreja, colocando a comunidade contra Plainview.

Um filme gigante em vários sentidos (mas não na duração, que é de 2 horas e meia), Sangue Negro é, todo, Day-Lewis: do início ao fim, é a sua voz, o seu rosto, os seus gestos que marcam esta história, vasta e brutal como os desertos de petróleo do Novo México. É também o seu personagem mais complexo e fascinante até hoje, ao unir a ambição desenfreada a uma inteligência insuspeita e, até, ao amor genuíno que ele sente pelo filho adotado, chamado somente de H.W. (Dillon Freasier). Por todas as suas qualidades superlativas, Sangue Negro é o melhor trabalho de Daniel Day-Lewis até hoje.

OUTROS GRANDES TRABALHOS DE DANIEL DAY-LEWIS

6. Gangues de Nova York

7. O Último dos Moicanos

8. As Bruxas de Salem

9. A Insustentável Leveza do Ser

10. O Lutador

O pior:

Nine (2009)

Depois de tanta rasgação de seda, será mesmo que Daniel Day-Lewis é mesmo esse ator infalível, incapaz de estar num filme ruim, ou de atuar de forma desleixada ou complacente? Infelizmente, não, para os dois casos.

Descontando as tentativas iniciais, quando ele ainda não havia amadurecido seus métodos, o único verdadeiro deslize de Daniel Day-Lewis desde Meu Pé Esquerdo é também um filme bem fraquinho: Nine, o musical.

Daniel Day-Lewis num musical? Sim, isso mesmo – e não é muito bom, se você quer saber. Falta alcance e expressividade à voz do ator, e até sua atuação, normalmente tão segura (formidavelmente segura) parece vacilar, como se ele não soubesse onde estava se metendo.

E pior que foi isso mesmo. Em entrevistas após o lançamento de Nine, Day-Lewis, que é também é conhecido por ser um implacável crítico de si próprio, descreveu seu trabalho nesse filme como inseguro, cheio de erros, e afirmou que não soube bem o que o atraiu no projeto. Bom, do alto da minha sabedoria cinematográfica, posso dar alguns palpites: Penélope Cruz, Marion Cotillard, Nicole Kidman, Kate Hudson, Fergie…

A própria ideia de recriar Oito e Meio, o clássico de Federico Fellini sobre a neurose criativa, como um… musical, pode ser ou genial ou estúpida – infelizmente, deu a segunda alternativa. Mas até nisso temos de dar crédito ao ator pela vontade de se desafiar, de sair de sua zona de trabalho habitual. Infelizmente, num filme do (baixo) calibre de Nine, nem Daniel Day-Lewis, nem um elenco feminino cheio de estrelas, nem milhões de dólares de produção conseguiram salvar algo que já era falho desde a concepção. Melhor interpretar Abraham Lincoln mesmo…

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