A vida de Marcello Vincenzo Domenico Mastroianni (1924-1996) poderia ter sido tão glamourosa quanto a de Marcello, o homônimo vivido pelo ator no clássico de Federico Fellini, A Doce Vida (1960), se ele quisesse.

Mas o italiano, altivo, talentoso e inquieto demais para isso, recusou o estrelato fácil. Muito além da imagem de galã que o ator, sem esforço, construiu através de uma filmografia irrepreensível nos anos 50 e 60, Marcello Mastroianni queria se aprimorar no ofício, ser capaz de dar vida a personagens cada vez mais complexos e sutis.

Conseguiu: hoje em dia, ele é considerado por cinéfilos e estudiosos de cinema como o maior intérprete já surgido no país de Dante, Bocaccio e Maquiavel.

E isso numa vida marcada pela sobriedade, num meio em que a fanfarronice e as pressões do jet set costumam sufocar tantos nomes de talento comparável, como aconteceu com Marlon Brando, Orson Welles ou, para usar um exemplo mais recente, Philip Seymour Hoffman.

Com uma vida pacata, construída sobre um alicerce de fidelidade doméstica e privacidade à toda prova, Mastroianni foi ainda assim o oposto de chato: em seus dias de splendore, ele namorou musas do calibre de Claudia Cardinale, Faye Dunaway e Catherine Deneuve, tornando-se um dos homens mais admirados e invejados do mundo.

Indicado três vezes ao Oscar e ganhador de duas Palmas de Ouro em Cannes, ele também teve uma vida coroada pelos sucessos profissionais, conseguindo se manter ativo e produtivo até seu último ano de vida, outro feito raro entre atores. Os pontos mais altos dessa trajetória – assim como um memorável tropeço –, você confere agora:

5. Divórcio à Italiana (1961)

Os anos 60 foram, sem dúvida, os mais importantes da carreira de Marcello Mastroianni. Embora ele viesse fazendo filmes há duas décadas, seu auge coincidiu com a época mais cosmopolita do cinema italiano, quando ele estrelou uma série de produções de reconhecimento internacional.

Um dos melhores produtos dessa fase, porém, é tipicamente mediterrâneo. Divórcio à Italiana, do mestre Pietro Germi, traz uma trama a um só tempo hilária e trágica, onde Ferdinando (Mastroianni), um nobre frustrado e louco de desejo pela jovem prima (Stefania Sandrelli) planeja um divórcio à melhor maneira siciliana: matando a esposa sem encantos (Daniela Rocca) num dramático e simulado crime de honra. Imperdível.

4. Olhos Negros (1987)

Nesta obra poética, inspirada em contos de Anton Tchekov, um crepuscular Mastroianni vive uma história de amor impossível com uma mulher casada (Yelena Safonova), ambientada na Rússia do século XIX.

Indicado a vários prêmios – Marcello ganhou inclusive sua segunda láurea em Cannes pelo papel –, Olhos Negros é mais um belíssimo e pouco conhecido exemplar do talento do italiano, longe dos tipos glamourosos e rico na substância humana que ele sempre soube emprestar a seus trabalhos.

3. Um Dia Muito Especial (1977)

Aqui temos um dos casais mais esplêndidos do cinema italiano – Mastroianni e Sophia Loren, ainda maravilhosa aos 43 anos – num filme sensível sobre o período sombrio da ditadura Mussolini.

Ela, uma dona de casa perplexa em meio ao oba-oba fascista, adotado com entusiasmo por seu marido e seus filhos, ele um radialista gay e antifascista – ou seja, duplamente criminoso para os padrões da época –, que se conhecem por acaso no dia da visita de Hitler à Itália. Pelas horas seguintes, eles vão experimentar uma empatia e solidariedade que lhes escapa às vidas pessoais.

De forma similar a outros filmes sobre encontros fortuitos – As Pontes de Madison, Encontros e Desencontros –, Um Dia Especial também examina a solidão e a busca por completude que tanto nos atormenta. E, tal como eles, embora mais desiludido, o filme de Ettore Scola (Nós que Nos Amávamos Tanto) também alcança o sublime. A brilhante e contida performance de Mastroianni, como Gabriele, contribui para tanto.

2. 8½ (1963)

No início dos anos 60, uma dupla traduzia à perfeição as angústias e medos da geração do pós-guerra: Federico Fellini e Marcello Mastroianni. E eles faziam isso sem discutir a bomba atômica, os direitos civis ou a corrida espacial. Na verdade, seria o oposto disso na escala.

Os dois clássicos de Fellini-Mastroianni nos sixties discutiam cinismo, miséria espiritual, perda de referências éticas, morais, até mesmo da capacidade de conversar com sinceridade, de expor os sentimentos. E isso sem cabecismo, teses, filosofia ou apontar de dedos. Os filmes da dupla são vitais, cheios de musicalidade e de um espírito sedutor, intoxicante. Só o que muda é o ponto de vista.

Enquanto A Doce Vida é um grande afresco da Itália corrompida – e, por extensão, das sociedades modernas – 8 e ½ é uma viagem íntima, mas não menos vasta. História da crise criativa de Fellini após sua primeira grande fase, o filme tem no protagonista Guido (Mastroianni), alter-ego do diretor, o condutor dessa valsa louca e fascinante, exigente mas extremamente recompensadora.

Embora não seja o filme ideal para se conhecer o diretor, quem chegar a ele depois de suas primeiras obras-primas certamente vai reconhecer aqui um dos maiores filmes – bem como um dos maiores desempenhos de um ator – já vistos no cinema. Incrivelmente, o trabalho anterior de Marcello e Federico é ainda melhor.

1. A Doce Vida (1960)

Pode parecer injusto devotar dois lugares em uma lista de apenas cinco à colaboração entre Mastroianni e Fellini, mas a verdade é que essa é a uma parceria tão definitiva para o cinema quanto aquela entre John Ford e John Wayne, ou Kurosawa-Mifune – esse raro fenômeno de empatia artística onde ator e diretor se estimulam mutuamente, levando um ao outro a lugares onde ambos só chegariam juntos.

E é nos dois filmes que a dupla fez nos anos 60 que esse plano superior foi enfim alcançado. A Doce Vida e 8 e ½ inclusive têm pontos de contato entre si: a presença de Mastroianni e Anouk Aimée, além de outros coadjuvantes, o mesmo tom de autobiografia, o mesmo exame implacável, mas sutil, de Fellini sobre a falta de comunicação entre as pessoas.

Diferente do viés delirante e poético de 8 e ½, porém, A Doce Vida é um desfile incessante de glamour e beleza, irradiando em todos os tons de seu magistral preto-e-branco o brilho falso da celebridade, do vazio espiritual e do cinismo do mundo moderno. Marcello (Mastroianni) é um jornalista de celebridades que tem a pretensão de ser um escritor, mas só faz se enredar, aos poucos, na superficialidade de seu mundo fútil e rarefeito.

Com uma quantidade de sequências clássicas digna do primeiro O Poderoso Chefão ou de Cidadão Kane, A Doce Vida – e Mastroianni em seu cerne – é um tour de force de grande cinema. Se vir na TV ou na loja, não hesite – este é um daqueles filmes que você precisa ver.

O pior:

Prêt-à-Porter (1994)

Esse filme ligeiro, equivocado e francamente preconceituoso do diretor Robert Altman causou furor e perplexidade quando foi lançado, em 1994. Uma análise pretensamente irônica da superficialidade do mundo da moda, Prêt-à-Porter consegue reunir o número mais estelar de talentos de Hollywood e do high fashion para terminar como uma sátira boba, senso comum, do mundo dos desfiles.

Não há enredo: o filme aglutina dezenas de microepisódios envolvendo seus estrelados nomes, com um ou outro ganhando mais destaque. Entre estes, o casal vivido por Mastroianni e Sophia Loren, juntos novamente, que vive uma série de trapalhadas para conseguir passar um tempo, digamos, a sós.

Com seu retrato caricato de um mundo que, apesar das excentricidades, movimenta uma economia de milhões e inflama as aspirações criativas de tantas pessoas ao redor do mundo, Prêt-à-Porter é o oposto do que o seu nome prega: trata-se, na verdade, de um filme pronto para descartar.

Para não ficar na pura implicância, tem tanta gente importante e icônica dos anos 90 aqui que o filme serve como uma aula rápida de quem era quem, na moda e no cinema, por aqueles tempos.

por Renildo Rodrigues

especial para o Cine Set

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