Então você viu O “Artista” e se encantou com aquele estranho mundo silencioso e em preto-e-branco, encarnado no sorriso largo de Jean Dujardin e nos belos olhos de Berenice Béjó.

Ou então viu o também deslumbrante “A Invenção de Hugo Cabret”, que dedica longos minutos da trama a repassar obras clássicas do cinema mudo, bem como homenageia um de seus grandes expoentes, o francês Georges Méliès (1861-1938).

A coincidência desses dois filmes em retratar o cinema mudo inspirou muitos cinéfilos a querer saber mais sobre esse período fundamental da Sétima Arte. Se você é um deles, um conselho: vá direto à fonte.

Charles Spencer Chaplin (1889-1977), conhecido simplesmente como Charlie Chaplin, ou, no Brasil, Carlitos, é o maior nome do cinema mudo.Revelado na adolescência graças a seu talento extraordinário para a comédia, Chaplin enxergou nos filmes a oportunidade de expressar essa vocação.

Numa carreira com mais de 50 anos, ele fezde tudo: foi ator, diretor,produtor, roteirista e compositor, e sua filmografia impressionante marca de 81 títulos.

Mais incrível do que os números, porém, é a alta qualidade em que muitos destes filmes se situam: romântico ou político, realista ou nonsense, cômico ou dramático, Chaplin é sempre (ou quase, como se verá a seguir) um programa formidável.

Veja:

5. O Grande Ditador (1940)

A vida não estava fácil em 1940. Os tempos modernos, denunciados por Chaplin em seu clássico de 1936 (ver abaixo), trazia uma ameaça de uma nova guerra no horizonte. Humanista convicto, o diretor resolveu se posicionar contra o estado das coisas neste filme, um libelo em defesa da igualdade entre os homens.

Tal descrição sugere um filme pretensioso, e O Grande Ditador, de fato, o é. Mas, ao invés de cair no blá-blá-blá moralizante, Chaplin, sabiamente, prefere nos fazer rir.

Notando a semelhança entre o bigode do seu personagem Carlitos e o do ditador Adolph Hitler, ele propõe uma troca de papéis: um atrapalhado barbeiro judeu (Carlitos, embora o diretor jure que não) é confundido com o ditador da nação fictícia de Tomainia, Adenoid Hynkel.

O mote deu origem a gags mordazes, algumas delas inesquecíveis, como a cena em que Hynkel brinca com o globo terrestre, uma metáfora perfeita do que seria o mundo com Hitler.

Imperdível.

4. Tempos Modernos (1936)

Outro clássico da fase mais politizada de Chaplin, Tempos Modernos faz piada com as transformações tecnológicas da época.

A derradeira aparição do personagem Carlitos é mais um show de piadas inteligentes (como as famosas sequências em que Carlitos, de tanto operar máquinas, começa a agir como uma, ou quando ele é engolido pelas engrenagens de uma fábrica), mas também guarda uma reflexão melancólica: Tempos… é um lamento pelo fim do cinema mudo, substituído para sempre pelos filmes menos inocentes, elegantes e silenciosos da era sonora.

Longe de entregar uma despedida em tom de lamento, porém, o diretor fez um dos trabalhos mais bonitos de sua carreira, que coroou compondo uma canção que se tornaria clássica, e que resume todo o espírito da obra de Charlie Chaplin: “Smile”.

3. O Circo (1928)

Numa decisão apertada, O Circo desbancou O Garoto (1921) de nosso pódio. Sim, o filme com Jackie Coogan é engraçado e emocionante, mas é uma referência óbvia quando se trata de Charlie Chaplin.

E quantos já viram O Circo, afinal?

Pois trata-se de um dos melhores trabalhos da fase mais afiada do diretor.

Em pleno domínio dos elementos cômicos, seguro como diretor e brilhante como ator, Chaplin reuniu uma série de esquetes sensacionais sobre as agruras de Carlitos num circo.

São tantas as cenas bacanas que não dá pra enumerar, mas a da corda-bamba, em particular, é um primor; e a partida do circo talvez seja o plano mais belo já concebido por Chaplin. Compre ou alugue o quanto antes.

2. Em Busca do Ouro (1925)

O filme favorito do próprio Chaplin também é considerado uma obra-prima pelos fãs: Em Busca do Ouro leva Carlitos à corrida do ouro no Alasca, em pleno século XIX.

Trazendo temas ousados para uma comédia (Carlitos e o parceiro Big Jim enfrentam a fome extrema, a solidão e o frio), o filme é o trabalho mais ambicioso e bem-realizado do diretor.

Se você ainda não viu cenas como a da “dança dos pãezinhos”, o delírio do esfomeado Big Jim ou a nevasca que ameaça levar embora a cabana dos personagens (todas capazes de impressionar até mesmo os fãs de Michael Bay, pela simplicidade e pela graça), bem, o que está esperando?

1. Luzes da Cidade (1931)

Chaplin tem muitos grandes filmes, mas a essência de sua obra, no fundo, é sempre a mesma: um malandro alegre, atrapalhado, mas sempre bem-intencionado, que se mete em todo tipo de confusões em busca de uma vida melhor. Um romântico, enfim.

Essa essência nunca esteve tão cristalinamente exposta quanto em Luzes da Cidade. Uma obra terna e apaixonada, provavelmente a melhor comédia romântica já feita, Luzes põe Carlitos para conquistar uma florista cega (Virginia Cherrill), e enfrentar, por isso, uma série de situações hilariantes.

Perfeito, irretocável, do início ao fim, Luzes é uma obra emocionante, que vem inspirando cinéfilos há 80 anos, e deverá fazê-lo enquanto o cinema existir.

Fuja!:

Um Rei em Nova York (1957)

A chegada do cinema sonoro conseguiu derrubar, um a um, todos os grandes artistas do período anterior. E com Chaplin, infelizmente, não foi diferente. Embora o diretor ainda tenha resistido com brilhantismo, assinando obras hilárias como Tempos Modernos e O Grande Ditador, ou pungentes como Luzes da Ribalta (1952), seu cinema já não era o mesmo.

Aliado ao exílio que Chaplin teve de enfrentar por suas simpatias comunistas, o outrora aclamado cineasta passou anos sem filmar. E, quando voltou, estava longe de ser o que era: Um Rei em Nova York, infelizmente, lembra pouquíssimo o gênio que até a década anterior ainda era capaz de criar obras-primas.

Apático, pretensioso e sem foco, Um Rei… apenas confirmou o que já se suspeitava: que a grande arte de Chaplin era mesmo um produto de outra época.

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