Ah, o cinema de Pernambuco!

Já faz um certo tempo que o cinema mais interessante do Brasil vem de lá. E acredito que hoje não há nenhum tipo de exagero dizer que Pernambuco está muito a frente do restante do Brasil. Pois está.

Tratando de temas dos mais variados, desde questões pessoais, de relacionamento, políticas, culturais, os realizadores de lá parecem ter alcançado um status diferenciado, sendo relevantes para o mercado, com experimentações importantes de serem acompanhadas, sempre apresentando algum tipo de inovação, seja técnica ou de linguagem.

Nesta lista, coloquei os filmes que mais se destacaram na última década, aqueles que se consolidaram como o melhor exemplar do cinema brasileiro recente, trabalhos obrigatórios, que falam por si só sobre a sofisticação destes artistas que tem muito a ensinar para o resto do Brasil.

E só de ver que já em 2015 dois filmes que prometem ser ótimos, “Amor, Plástico e Barulho” e “A História da Eternidade” já estrearam no Brasil (claro, Manaus ficou de fora), e ainda há tantos outros previstos a serem lançados nos próximos meses, me faz acreditar que este “reinado pernambucano” ainda vai durar bastante tempo, e me deixa bem tranquilo, pois sei que material de qualidade vem por aí.

Baixio das Bestas

5 – Baixio das Bestas (2007)

“Baixio das Bestas” é um daqueles tapas na cara que normalmente são vistos com desconfiança e preconceito, exatamente pela sua força narrativa, e compromisso com os princípios morais estabelecidos pela direção. O cinema de Assis é forte, duro, extremamente verdadeiro, mas acima de tudo: é um cinema de excepcional qualidade! Conduzindo com rigidez o caos da periferia, o diretor nos apresenta a um cinema de impacto devastador, com cenas angustiantes tratando sobre pedofilia e violência contra a mulher, que nos mostram uma realidade que só ouvimos falar no noticiário, e no fundo, não estamos interessados de conhecer de verdade. Contando com a excelente capacidade de seu diretor na condução dos atores, “Baixio” ainda possui atuações marcantes de Blat, Nachtergaele e Paes.

Cinema, Aspirinas e Urubus

4 – Cinema, Aspirinas e Urubus (2007)

Gomes não poderia ficar de fora desta lista. Nome dos mais relevantes da atual produção cinematográfica do Brasil, com “Cinema, Aspirinas e Urubus”, seu primeiro longa-metragem, consolidou-se como uma esperança criativa para o cinema brasileiro, desenvolvendo uma história com simplicidade, e ao mesmo tempo elegante e extremamente bem sucedida tecnicamente. O olhar de fora trazido pelo ponto de vista do alemão que ludibria o sertanejo é um exemplo da sofisticação do diretor, que em nenhum momento estereotipa nenhum dos lados. E este filme tem João Miguel, em uma atuação compatível com a sua qualidade de intérprete.

Febre do Rato

3 – Febre do Rato (2012)

Se Assis sempre foi relevante, com “Febre do Rato” ele conseguiu uma proeza espetacular: manter intacta a sua pegada pesadíssima de naturalismo e impacto narrativo, mas somando a isso um apuro técnico de primeiríssimo nível (com óbvio destaque para a fotografia de Walter Carvalho), que curiosamente impulsionou de maneira grandiosa a já tão conhecida força apresentada por seus filmes. Contando com uma atuação endiabrada de Irandhir Santos, e uma Nanda Costa muito mais interessante do que aquela que aparece na televisão, “Febre” é um filme isolado no cinema brasileiro recente, um trabalho que alia brilhantemente uma técnica refinada com uma manifestação artística genuína, o desejo desenfreado de se expressar artisticamente chutando o balde da mediocridade e dos valores que cada vez mais, equivocadamente, são associados a arte no Brasil. Mais do que um ótimo filme, um filme importante para o cinema brasileiro.

Tatuagem

2 – Tatuagem (2013)

Tem um profissional que atua no cinema nordestino recente que é de fundamental importância para que se entenda o sucesso desta região: Hilton Lacerda. Roteirista de alguns dos maiores sucessos pernambucanos, Lacerda estreou na direção com “Tatuagem”, e… que resultado! Mostrando o cotidiano de um grupo de teatro pernambucano na época da ditadura militar, o cineasta nos apresenta ao universo muito liberal desses artistas de maneira irresistível, e cria momentos verdadeiramente antológicos do nosso cinema (tem cu, tem cu, tem cu!). Além disso, conta com duas das maiores atuações recentes do Brasil, de Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa, dois monstros em cena. Mal posso esperar pela nova incursão de Lacerda na direção.

O Som Ao Redor

1 – O Som ao Redor (2013)

Pra ser bem sincero, gosto mais de “Tatuagem”, mas ainda assim, acho que nenhum filme brasileiro da última década vai tão direto aos pontos cruciais das questões políticas e sociais do Brasil quanto “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho. Realizando um verdadeiro estudo de classe (neste caso, a classe média brasileira), Filho expõe os valores deturpados expostos por um estilo de vida cada vez mais focado na busca incessante pela sensação de segurança, causada por diversos fatores, e que acabam cumprindo papel determinante na maneira do cidadão se relacionar com o outro, principalmente com aqueles de uma classe social diferente da sua. Este é daqueles filmes para se ver mais de uma vez, pois os pontos que aborda são muito abrangentes. Tão abrangentes quanto os desdobramentos dessas questões no nosso cotidiano.

E  o pior:

Árido Movie

Árido Movie (2006)

Pois é, é um pouco assustador ver um filme com momentos tão bacanas ser colocado como um “pior” de uma lista, um título que certamente o filme de Lírio Ferreira não merece. Mas apesar de ter momentos deliciosos de comédia – como a clássica cena em que o personagem de Selton Mello faz um verdadeiro tutorial de como se bolar um baseado – “Árido Movie” acaba se perdendo no meio de suas tramas paralelas, o que acaba tornando o trabalho bastante irregular, e não se aproxima do poder criativo e narrativo dos seus colegas mais famosos. Mas mesmo assim, vale a pena fazer uma visita, pois o trabalho irregular de Pernambuco já é muito mais do que a média do que o restante do país oferece em termos artísticos.

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