Apesar de não estar vendo-o neste exato momento, creio que Fellipe Barbosa deve estar sorrindo. Seu segundo longa, “Gabriel e a Montanha”, estreou na ilustre Semana da Crítica, uma das mostras paralelas do Festival de Cannes, e saiu da mostra com dois prêmios.

No entanto, antes da premiação sair, ele já era todo bom humor na saída do Espaço Miramar, onde são exibidos os filmes da Semana, no dia da estreia do seu filme, onde esteve acompanhado do seu elenco de mãe e irmã de Gabriel Buchmann, seu amigo, morto em 2009, que serviu de inspiração para o longa.

Pude bater um papo com ele entre um compromisso e outro na agitada programação da cidade francesa sobre a difícil filmagem na África, as emoções de rodar a história de uma pessoa próxima e o porquê de pessoas como Gabriel serem extremamente necessárias no Brasil de hoje.

Cine Set – Qual foi o maior desafio das filmagens?

Fellipe Barbosa – A produção teve vários desafios extraordinários, sendo o maior de todos levar essa galera para subir o pico do Kilimanjaro. São seis mil metros de altitude! Foi duríssimo em um nível que juntou muito a gente, tornou essa equipe mais unida e forte. Também no Mulanje não foi nada fácil: o percurso era enorme para chegar ao lugar onde o corpo do Gabriel foi encontrado. O filme é isso: todo gravado nos lugares reais das fotos, das locações onde ele esteve e com as pessoas reais que o conheceram. A ideia era realmente tentar trazer o espírito do Gabriel a partir do lugar. Eu fui muito obsessivo com essa ideia, que a equipe poderia não ter comprado, mas eles o fizeram em um grau muito emocionante. Só de lembrar, me dá arrepio.

Cine Set – Foi difícil para você ter que encarar a morte do Gabriel, uma vez que vocês eram próximos, enquanto fazia o filme?

Fellipe Barbosa – Na minha visão, o filme é uma homenagem ao Gabriel. O longa tenta imortalizá-lo no sentido de ressuscitá-lo e não deixá-lo morrer, literalmente. Eu estava sentindo que fazia um belo trabalho espiritual, sem saber se realizava um bom filme ou não. Você refazer o caminho de uma pessoa que morreu, de maneira muito trágica, repentina e misteriosa, é um trabalho espiritual. É uma maneira de fazê-lo reconhecer o que aconteceu, porque, se o tempo é relativo e nós podemos dobrá-lo, significa que o Gabriel está ainda presente.

Cine Set – É por conta dessa preocupação que o filme fala tanto sobre o tempo?

Fellipe Barbosa – No filme, o poema do Mário Quintana é sobre essa ilusão bidimensional de como experimentamos o tempo. O tempo está por todos os cantos. A passagem é certamente um momento difícil, independente se você for ateu e não crer em vida após a morte. Você acredita que existem, pelo menos, dez segundos ali entre a vida e a morte, e esses dez segundos, se o tempo não é como a gente percebe, podem ser eternos.

Gabriel e a Montanha

Cine Set – Assim como “Casa Grande”, “Gabriel e a Montanha” também gira em torno de um protagonista jovem. As questões da juventude permeiam o seu trabalho como um todo?

Fellipe Barbosa –  Nunca pensei nesses termos. Fazer o ‘Gabriel’ foi uma coisa muito espontânea. Tudo começou a partir do e-mail que ele escreve de Uganda, de Jinja, um lugar que estive dois anos antes e encontrei essa mesma felicidade descrita por ele. Não tive a capacidade de fazer a viagem que o Gabriel fez, mas, mesmo assim, não queria sair de lá, então me conectei muito com esse sentimento, com essa vontade de ficar lá para sempre. Enfim, o Jean [de “Casa Grande”] tinha 17, o Gabriel tinha 28, então, talvez, meu próximo [protagonista] tenha 39, vamos ver.

Cine Set – A gente fica sabendo muito da história do Gabriel através da personagem Cristina, namorada dele, e dos diálogos, onde a gente aprende sobre a situação econômica dele e as críticas que ele faz. Isso foi algo pensado para você para fazer um comentário econômico ou político com esse trabalho?

Fellipe Barbosa – Em primeiro lugar, a maneira mais fácil de lidar com o passado do Gabriel seria mostrá-lo antes da viagem, no Brasil, mas eu claramente não quis fazer isso. A Cristina se tornou uma maneira de trazer o passado dele à tona. Se o filme funciona, isso acontece a partir do retrato desse personagem, que vai se revelando cada vez mais contraditório ao longo do tempo. O Gabriel não tem um grande objetivo. Ele tem pequenas metas, nada que geralmente segura um filme. Então, a minha meta era que cada cena trouxesse uma camada nova para o personagem e que aumentasse a contradição dele, mas que, ao mesmo tempo, o mantivesse como alguém coerente.

Cine Set – Qual é a grande contradição do Gabriel?

Fellipe Barbosa –  O Gabriel foi alguém que estudou no São Bento, ganhou a Olimpíada de Matemática do Brasil, fez mestrado na PUC-Rio e conseguiu uma bolsa integral para fazer PhD em economia na Ucla. Se você parar para pensar, não se trata de um hippongo, como achamos que é até aquele momento. Trata-se de um acadêmico, um cientista e os economistas da PUC costumam ser mais neoliberais, de centro-direita. Tal aspecto me interessa muito, pois uma coisa não anula a outra. Uma pessoa pode ser de centro, ter ideias mais ligadas à maneira de interpretar o mundo através de números, e, ao mesmo tempo, ter com um coração extremamente humanista, generoso, caridoso e aberto para o mundo. Não é incoerente, mas é contraditório e eu gosto de personagens contraditórios.

Cine Set – Nessa contradição, qual é a sua opinião política sobre esse personagem?

Fellipe Barbosa –  Você pode ser alguém super técnico e neoliberal, acreditar no Estado mínimo e, ainda assim, achar um absurdo o que está acontecendo agora no Brasil governado pelo [Michel] Temer. É muito chato esse sectarismo que vivemos, em que você é ou coxinha ou maoísta. A gente pode ser muito maior do que isso. Não precisamos ser caracterizados em um lugar ou outro. Isso é uma preocupação que me acompanha sempre porque tenho amigos que são de direita, com os quais não quero parar de dialogar somente porque pensam diferente de mim e dos meus amigos cineastas. Tem muita gente bem-intencionada nesse mundo e considero que é muita presunção da nossa parte crer que só quem compartilha dos nossos ideais é bem-intencionado. Está faltando tolerância à multiplicidade de opiniões e acho pouco saudável você entrar em um debate, qualquer que seja o tema, desconsiderando ou diminuindo completamente o seu interlocutor. Você não vai ganhar nada em um debate assim. Acho que falta um desejo de reconciliação.

Cine Set – Para fechar, com o “Gabriel e a Montanha” finalizado, quais são seus próximos projetos?

Fellipe Barbosa –  Tem dois projetos. Um deles chama-se “Domingo” e é bem político: a produção se passa em uma casa na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, durante o primeiro dia de 2003, quando o Lula está tomando posse. O filme é sobre, basicamente, o medo da revolução proletariada, do comunismo no Brasil a partir desta família super aristocrata, decadente, gaúcha e conservadora celebrando o Réveillon e enterrando o medo. O outro é uma produção EUA-Alemanha ambientada em Berlim. A história mostra uma pianista que volta para a cidade natal depois de muitos anos para fazer um concerto com o marido e a filha, Lá, acaba reencontrando um grande amor do passado dela, que também é uma mulher. Vai ser rodado em inglês. Um deles sai até o final desse ano, mas não sei qual, porque, no caso do americano, estamos tentando grandes estrelas e se, alguma topar fazer e só puder fazer agora, a gente faz “Domingo” depois.

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