Na semana em que Mallu Magalhães soltou o clipe de seu mais novo single “Você não Presta”, utilizando de estereótipos, em várias formas, de corpos negros como pano de fundo para o seu refrão enfadonho, nas salas de cinema do país chegava “Corra!”, primeiro filme do comediante Jordan Preele. Considerado uma das maiores surpresas da temporada, a película denuncia de forma sutil e escancarada o quanto o racismo está presente na nossa sociedade.

Se acompanharmos produções recentes, veremos constantes denúncias sendo feitas sobre a disparidade com que as raças são enxergadas, tratadas e até mesmo representadas. A sétima arte, como linguagem, sempre ocupou um papel representativo na sociedade, despertando, entre outras coisas, discussões que no cotidiano são negligenciadas e empurradas para debaixo do tapete como se seus vestígios não existissem e/ou fossem camuflados por qualquer mínimo indício de representatividade. Dentro deste cotidiano camuflado, há a famosa frase “eu não sou racista, até tenho amigos que são negros”, que também é aplicado para outras minorias representativas.

O interessante desta frase, é que não aplicada no sentido restrito, mas de uma forma ampla, tem sido vista nas películas contemporâneas que procuram evidenciar a mazela social por trás do seu conteúdo. Prova disso está na série documental “O.J Made in América” que conta a história do astro de futebol americano O J Simpson, de seu estrelato a queda, e mostra-se tocante e rica ao abordar a construção representativa da personagem. Que para muitos negros era visto como uma espécie de super herói, mas negava suas próprias raízes. Isso é apresentado em entrevistas, no discurso do jogador, nas suas relações sociais e na forma como a imagem do atleta foi projetada.

Outra produção que tem resquícios dessa frase é “Cara Gente Branca”, produção da Netflix que parece não ter tido tanta projeção e disseminação quanto sua contemporânea “13 reasons why”. A série aborda o cotidiano de jovens negros em uma universidade americana. Desta forma, a trama deslancha em várias sub-tramas que denunciam o racismo velado que persiste na sociedade contemporânea e parece querer insistentemente se camuflar como algo natural, normal, por isso ainda existem pensamentos tangíveis como o exposto em “Você não Presta”.

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E o que isso tem a ver com “Corra!”? Muita coisa. Preele oferece como trama principal um casal inter-racial formado por Chris (Daniel Kaluuya) e Rose  (Allison Williams). Ele é um jovem negro, ela, uma jovem caucasiana de família tradicional. Os dois aproveitam um final de semana para visitar os pais dela que moram no interior do estado e, de quebra, apresentar o rapaz. Chris, conhecendo o tratamento que pode ocorrer numa situação dessas, acrescido ao estranhamento que as pessoas denotam a esses casais, preocupa-se em saber como são os sogros. E ai, o texto sagaz e atento de Preele entra em jogo ao Rose afirmar que seus pais não são racistas, porque, se possível, votariam em Obama para um terceiro mandato. Qualquer semelhança entre essa frase e a usada no inicio do texto, não é mera coincidência.

Entretanto, a química entre Kaluuya e Williams é um ponto chave se acreditamos na ideia de que uma pessoa que não tem seu lugar de fala entre as minoras, pode reconhecer sua situação favorável, entender o estado do outro e mudar suas atitudes a partir de então. Rose parece querer que a relação não sofra os impactos de terceiros e defender sua existência a todo custo, enquanto Chris procura que as situações que aparentam claramente teor racista, mesmo que pareça velado, não o desestruture e nem ameacem o relacionamento do casal.

O filme tem uma constante atmosfera incômoda, de estranhamento no ar. Algo que vem sido executado com maestria nas novas fôrmas do gênero de terror psicológico, como O Babadook (2014) e O Convite (2016) e que em “Corra!”, apesar de seu viés cômico, também funciona. Parte desta atmosfera é resultado da casa branca dos Armitage, em que os negros continuam numa relação de servidão, realizando os serviços domésticos e braçais da casa. Isso soa ainda mais desconcertante quando o dono da casa reafirma este fato em tom jocoso. Ao mesmo tempo que esta relação é explícita, a forma como Georgiana (Betty Gabriel) e Walter (Marcus Henderson) são apresentados, com sorrisos incansáveis, prestação de serviço incansável e noites sem dormir, também denunciam a relação não tão amistosa e familiar que os Armitage tentam vender para Chris.

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Contribui também para o encontro a festa anual que a família dela realiza e recebe outros caucasianos tradicionais. Preele empresta sua veia cômica para esta sequência que representa o choque entre o atual e o antigo, o negro e o branco, o pós-moderno e o tradicional. Que assusta, mas carrega um viés cômico devido ao absurdo no qual se insere e o texto atrativo e perspicaz do roteirista.

A fotografia também aumenta a sensação de desconforto e mal-estar, a escolha de alguns planos padrões do gênero, os enquadramentos e o close dado em personagens específicos conferem adrenalina e mantém o ritmo do espectador, mesmo que não esteja atento. O elenco consegue transmitir a atmosfera irregular que a situação proposta na película almeja. Destaque para Lil Rel Howery que interpreta o melhor amigo de Chris, o típico amigo-irmão sem noção que tenta facilitar a vida do amigo da melhor forma possível e encher a cabeça dele de abobrinhas. A condição do seu personagem, oficial de segurança de transportes nos Estados Unidos, também torna cômica a sua postura irreverente e distante do que se espera.

“Corra!” de forma cômica e sufocante denuncia uma circunstância ainda muito forte na sociedade contemporânea e que precisa ser abordada, reconhecida e extinguida. O racismo ainda se configura de maneira inusitada e quase imperceptível. Preele consegue deixar o filme tenso, angustiante, envolvente, sem sair da sua zona de conforto que é a comédia. As questões raciais se apresentam dissimuladas enquanto o expectador se mantém atento para entender o que está por vir e por trás de todas as sensações que ele evoca.

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