A quinta temporada de Game of Thrones veio com altas expectativas por causa da grande empolgação e interesse despertados, especialmente, pelas duas temporadas anteriores. Por isso mesmo, a sensação de decepção com este novo ano da série da HBO se torna ainda mais frustrante. Foi uma temporada de muita preparação de terreno e pouca recompensa para o espectador, e ainda foi prejudicada por alguns desenvolvimentos questionáveis para várias histórias. Game of Thrones não chegou a ser ruim, mas cometeu um pecado talvez ainda pior, e que ainda não havia cometido: o de ser desinteressante.

A temporada se iniciou promissora, com mudanças em vários fronts. Os Lannisters de repente veem seu poder se esvaziar progressivamente sem a mão de ferro de Tywin (Charles Dance). Jon Snow (Kit Harrington) inicia uma relação de respeito com o candidato ao Trono de Ferro, Stannis Baratheon (Stephen Dillane), ao mesmo tempo em que tenta fazer a paz com os Selvagens, inimigos históricos da Patrulha da Noite. Arya (Maisie Williams) chega a Braavos para iniciar seu treinamento com os misteriosos Homens Sem Face. E havia o interessante e tão aguardado encontro entre Daenerys (Emilia Clarke) e Tyrion (Peter Dinklage), após este último se tornar um fugitivo e partir em busca da Mãe dos Dragões.

Quase todos esses desenvolvimentos, porém, deixaram um pouco a desejar durante a execução. O que se viu neste quinto ano foram problemas de ritmo – basicamente toda a primeira metade da temporada foi só preparação sem pressa, o que deu a distinta impressão de que os produtores e roteiristas estariam “enrolando”. Ora, era realmente necessária toda a temporada para ver a jornada de Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) e Bronn (Jerome Flynn) a Dorne, para efetuar o resgate da princesa? Os personagens de Dorne, a propósito, se mostraram bem decepcionantes, com as Serpentes da Areia sendo pouco desenvolvidas – o único traço marcante da personalidade delas era a diferente arma que cada uma usava.

Daenerys e Drogon em Game of Thrones - 5ª temporada

Para muitos personagens foi uma temporada sobre aprender a governar. O tema do fanatismo apareceu forte, contrapondo as táticas de governo de Cersei (Lena Headey) e Daenerys. A primeira começa a fazer uso dos seguidores da Fé Militante, comandados pelo Alto Pardal (Jonathan Pryce), para consolidar seu poder com mão de ferro e, de quebra, acabar com a força dos Tyrells. Já Dany se vê forçada a aceitar as tradições bárbaras da cidade de Meereen para aplacar a ira da seita dos Filhos da Harpia, fruto da cultura escravocrata da cidade. Ambas veem o fanatismo se voltar contra elas, esquecendo-se do absolutismo da visão religiosa, que não admite pecados – no caso de Cersei, ela tem vários – ou subestimando a capacidade dos seus discípulos para a violência – no caso de Dany.

Lena Headey apresentou uma interpretação segura e, em alguns momentos, até conseguiu fazer com que o espectador sentisse empatia por Cersei – mais um exemplo da série modificando a percepção do público em relação a um personagem visto inicialmente como mau. Porém, Emilia Clarke não conseguiu superar as dificuldades do roteiro. Como resultado, foi duro ver Daenerys nesta temporada, muito mais do que nos anos anteriores. Em muitas cenas a atriz passa a impressão de uma menina atrapalhada, incapaz de governar, e isso reduz a sua empatia junto ao espectador, que passa a não vê-la mais como presença forte na história ou como candidata ao Trono. Só na segunda metade da temporada é que Daenerys é literalmente salva da incompetência e do tédio por Tyrion, e o carisma de Peter Dinklage consegue fazer com que as cenas entre ele e Clarke se tornem realmente eletrizantes.

Outra que precisou crescer rápido e aprender sobre as responsabilidades que acompanham uma posição de poder foi Sansa (Sophie Turner). Graças a uma manobra de Mindinho (Aiden Gillen), ela se vê de volta a Winterfell, seu lar, para uma aliança terrível com os assassinos da sua mãe e do seu irmão, os Bolton – uma aliança que a deixa cada vez mais próxima do terrível Ramsey (Iwan Rheon). Foi entre esses personagens que surgiu a cena mais controversa da temporada, um estupro que, a exemplo do ocorrido na quarta temporada entre Jaime e Cersei, não pareceu justificado por qualquer ponto de vista narrativo. Não havia como odiar Ramsey ainda mais – afinal, o sujeito já ocupou o lugar do falecido rei Joffrey (Jack Gleason) aos olhos do espectador – então um estupro não poderia fazer diferença. Embora o veredito ainda esteja relativamente em aberto, tudo indica que a cena do estupro de Sansa acabou servindo mesmo para motivar um personagem masculino, Theon (Alfie Allen), a sair do seu estupor, e isso não ajudou a série a se livrar das ocasionais acusações de misoginia.

Jon Snow em Game of Thrones

E finalmente Jon, ao ser promovido a lorde comandante da Patrulha, encara decisões que demonstram como é difícil liderar. De fato, seu arco nesta temporada guarda semelhanças com o do seu pai, Ned Stark (Sean Bean), na primeira temporada, no sentido de que Jon, assim como o pai, tenta fazer a coisa certa e sensata e não necessariamente é recompensado por isso. Foi com Jon, aliás, que a série enfim sacudiu a atmosfera de desinteresse no oitavo episódio, o soberbo “Hardhome”, que possui uma das sequências mais incríveis e eletrizantes da história do programa, na qual o grande vilão do programa, o Rei da Noite, comandante dos Vagantes Brancos, é finalmente revelado.

De fato, o oitavo, o nono e o décimo episódios da temporada, se não a redimem por completo, pelo menos retomam o senso de urgência e voltam a deixar os fãs ansiosos pela continuação da história. No fim das contas, esta quinta temporada de “Game of Thrones” foi a mais sombria da série – até a paleta de cores da fotografia dos episódios esfriou de vez, e aquele calor que sentíamos antes em lugares como Porto Real foi sumindo aos poucos – comprovando que o inverno, enfim, está às portas de todos os reinos.

Por isso mesmo, é curiosa a forma como os produtores e principais roteiristas do programa, David Benioff e D.B. Weiss, viraram a mesa definitivamente. Quando Jon Snow se depara com a definitiva ameaça a tudo que existe, fica claro como são pequenas e sem sentido as disputas pelo poder que vínhamos acompanhando até então. A temporada até se encerra sem um candidato claro ao Trono de Ferro – após o episódio final, quem se mostra realmente em condições de assumir o posto de Rei? Fica a pergunta para o futuro do programa: Essas pessoas vão aprender a cooperar para vencer a ameaça futura? Entre falhas, acertos e as tradicionais mortes e acontecimentos chocantes de sempre, ficou meio difícil ver um fio de esperança em Westeros neste ano. Espera-se que esse clima desolador não se estenda às mentes no comando do programa e que eles não percam o controle sobre a história, corrigindo no futuro os desvios deste ano frio e triste, em mais de um sentido.

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