O Marvel Studios vem se notabilizando, sobretudo, pela sua ousadia. Para falar a verdade, não se viu muita ousadia na chamada Fase 1 do estúdio, na qual os filmes apresentaram os heróis e seus conflitos básicos e prepararam o terreno para Os Vingadores (2012). Aliás, em alguns momentos os filmes pareciam mais preocupados em preparar esse terreno do que em contar direito as suas histórias.

Mas na Fase 2, sob as bênçãos do sucesso, o estúdio pôde relaxar e lançar filmes com tons e estilos cinematográficos diversos. E essa variedade, essa capacidade de agradar a públicos relativamente diferentes, vem ajudando o estúdio a se tornar a maior potencia do entretenimento atual.

Crítica: Marvel: Demolidor - Primeira Temporada Charlie CoxPois agora chegamos ao projeto mais diferente do estúdio até o momento, Marvel – Demolidor. Trata-se da produção televisiva que traz de volta um dos mais queridos heróis do panteão Marvel e que não se deu bem no cinema em 2003, quando foi visto na pele do ator Ben Affleck. O Demolidor é, guardadas as devidas proporções, o Batman da Marvel: um herói sombrio e que geralmente combate o crime na sua vizinhança, o bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno). Na série, que se mostra integrada ao universo do estúdio, o bairro foi devastado pela batalha de Nova York em Os Vingadores, deixando a porta aberta para criminosos e especuladores imobiliários.

Em mais uma jogada inteligente e corajosa, o Marvel Studios permitiu aos produtores do seriado, Drew Goddard e Steven S. DeKnight, fazer o Demolidor ser tão sombrio na TV quanto o é nos quadrinhos. Afinal, respeito ao material fonte e às características básicas dos seus personagens é um mantra sagrado no estúdio. A série não tem nada do humor bobo do filme de 2003 nem descaracteriza sua fonte. Pelo contrário, o tom é bem sério, ainda mais se tratando de uma produção Marvel. É quase como se estivéssemos vendo um “Demolidor Begins”, e o tom da série e sua ambientação lembram o influente filme de Christopher Nolan, Batman Begins (2005).

O Demolidor é na verdade o sujeito menos provável de ser confundido com um herói. O advogado Matt Murdock (Charlie Cox, ótimo) ficou cego quando criança, num acidente com um produto químico estranho. O acidente, porém, aguçou seus demais sentidos, deixando-o com reflexos rápidos e a capacidade de ouvir ruídos à distância. Logo no início do primeiro episódio, vemos Matt pedindo absolvição a um padre (Peter McRobbie) pelo que está prestes a fazer, ou seja, bater e capturar bandidos num cais, à noite, usando uma roupa preta e capuz.

Mas Murdock também combate o crime dentro da lei, na sua pequena firma de advocacia na qual atua junto ao seu amigo Foggy Nelson (Elden Henson). Um caso de assassinato envolvendo Karen Page (Deborah Ann Woll) a transforma em aliada e, aos poucos, aproxima Murdock do verdadeiro chefão do crime no bairro, o misterioso Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio, numa atuação bastante intensa).

Essa temporada mostra Demolidor como um híbrido, parte seriado criminal e parte história de super-herói. Os elementos de super-heróis começam a ganhar mais destaque na segunda metade dos 13 episódios, enquanto que na primeira e melhor metade vemos um seriado intenso e violento que não tem medo de abraçar a complexidade dos seus personagens. Murdock é o herói, mas isso não significa que seja uma pessoa inteiramente boa. Torturado pelos seus atos, ele chega a dizer a um bandido que “gosta de machucar” pessoas como ele. Pode ser mentira, apenas um jogo de intimidação. Mas também pode não ser. E Fisk, pela maior parte dos episódios, também não é caracterizado como vilão estereotipado. D’Onofrio dá vida a um homem igualmente torturado por um passado horrível, mas que acredita estar fazendo “a coisa certa” e cujas explosões de violência são chocantes e imprevisíveis.

Crítica: Marvel: Demolidor - Primeira TemporadaA Marvel levou essa complexidade a sério e chamou Phil Abraham, diretor de episódios de Família Soprano e Mad Men, para comandar os dois primeiros episódios da série. E Abraham, junto com sua equipe, acaba criando um momento absolutamente brilhante, a cena de luta que encerra o segundo episódio, filmada numa tomada sem cortes e com uma coreografia violenta que valoriza o cenário apertado do corredor de um prédio. Aliás, todas as cenas de luta possuem essa característica visceral, e o herói é mostrado como muito vulnerável, o que adiciona ainda mais tensão a essas cenas.

O fato de nos importarmos com o personagem e os demais ao seu redor é apenas um dos pontos positivos da temporada. Outros que merecem destaque são as participações de Rosario Dawson, forte como sempre no papel da enfermeira Claire, e a de Scott Glenn como Stick, o mentor cego de Matt durante a infância. Glenn arrasa no papel, e chegamos a lamentar o fato dele aparecer apenas num único episódio.

Apesar de todas as qualidades, é uma pena que a segunda metade da temporada não seja tão interessante quanto a primeira. O episódio dedicado ao passado de Fisk, “Shadows in the Glass”, é decepcionante e cheio de lugares-comuns e situações forçadas. Alguns personagens acabam morrendo logo quando começam a ficar interessantes, e alguns diálogos forçados demonstram a falta de sutileza dos roteiristas – há várias cenas com o repórter Ben Urich (o veterano Vondie Curits-Hall) discutindo sobre o Mal (com maiúscula) da internet, que está acabando com o jornalismo impresso, diálogos e discussões tão anacrônicas que a série poderia passar sem.

E o episódio final é o mais decepcionante, no qual quase todas as tramas são resolvidas de maneira fácil demais, e nos quais Matt e Fisk assumem de vez as versões HQ dos seus personagens em todos os seus aspectos negativos – leia-se, caracterizações rasas e simplistas. É sem dúvida uma decisão ousada da Marvel só mostrar a versão definitiva do seu herói ao final da temporada, por isso mesmo é uma pena que o caminho até essa revelação seja acidentado.

No fim das contas, a primeira temporada de Demolidor possui grandes acertos e alguns frustrantes erros, mas no geral é um bom entretenimento. Espera-se que a próxima temporada consiga estabelecer um equilíbrio melhor entre o drama criminal realista e o aspecto mais fantasioso das HQs, pois potencial para isso existe. Acima de tudo, a série demonstra o quanto a Marvel, em pareceria com seu aliado Netflix, está disposta a arriscar até mesmo na sua produção televisiva. A ousadia atual do estúdio, afinal, é uma característica definidora do herói Demolidor.

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