Há de se admirar a coragem de Francis Madson como realizador de curtas-metragens. A partir de tramas nada explícitas, com constantes cenas de nudez e protagonistas aterradores, o dramaturgo amazonense busca tirar o público da zona de conforto e fazê-lo, ao mesmo tempo, refletir sobre o que se passa na tela e provocar inquietações. Se Jardim de Percevejos, filme de estreia dele como diretor, atingia com precisão todas essas intenções, “No Céu da Boca Cresceu Saturno” fica pelo meio do caminho por não saber que rumo tomar ao certo nem por conseguir desenvolver o universo dos seus personagens.

Para um artista que gosta de colocar o público em uma posição constante de incômodo, nada mais natural que escolher um quadro duro como “Saturno Devorando um Filho” de ponto de partida. Na pintura clássica do espanhol Francisco de Goya, o horror de um monstro (Cronos, o deus do tempo) comendo a sua própria cria é amplificado com os olhos dominados pela loucura, o cenário todo escuro dando um toque sombrio para o ambiente e a carne branca do rebento sendo destroçada com o sangue surgindo em profusão. Impactante, no mínimo. Com essa inspiração, “No Céu da Boca Cresceu Saturno” apresenta um casal (Amanda Magaiver e Victor Kaleb) em um relacionamento abalado pelo fato das sucessivas falhas na tentativa de ter um filho. Dizer mais que isso, é dar spoiler.

As provocações trazidas por Francis Madson se apresentam logo na primeira cena com um close na genitália ensanguentada da protagonista. Igual ao ocorrido em “Jardim de Percevejos”, os personagens principais não possuem rosto com diferença que, agora, eles não usam uma máscara/mochila na cara e dialogam entre si. A proposta mais interessante e diferente, entretanto, é a inserção das indicações do roteiro para introduzir as cenas e no decorrer delas, o que dá um impacto visual ousado e gera a tal inquietação narrativa pretendida pela equipe.

Falta, porém, a “No Céu da Boca Cresceu Saturno” saber qual rumo tomar. Seria uma comédia de humor negro? Se esse era o objetivo, falta timing cômico tanto dos atores quanto da própria montagem que não consegue dar o ritmo necessário a esses momentos. Seria um terror? Se era, falta ambientação da fotografia para criar um clima realmente soturno como, por exemplo, Goya consegue ao escurecer o entorno de Cronos ou o próprio Madson teve sucesso na sequência ofegante do protagonista de “Jardim de Percevejos”. Seria um drama? Se era, reside no maior problema do curta.

“No Céu da Boca Cresceu Saturno” é por demais apressado. Não há como se envolver realmente naquele universo do casal devido à grande quantidade de cenas e a curta duração das mesmas, o que torna todos os recursos visuais citados ali em cima como distrações pela falta de profundidade dos protagonistas. Isso gera a sensação de incompletude deixada pelo final da história (o famoso ‘ué, mas já?’), sendo necessária a utilização do batido recurso da frase que sintetiza tudo que o projeto não teve capacidade de fazer com as imagens.

Rodado em 2014 e acompanhado por um complicado processo de pós-produção com idas e vindas na montagem final, “No Céu da Boca Cresceu Saturno” mostra, na tela, a turbulência desse resultado final: choca pelo choque, mas, sem a intensidade pretendida e, assim que o estranhamento inicial passa, fica sem brilho.